Faltando dois meses para o Enem, adotar uma estratégia de estudo voltada ao treinamento do funcionamento do exame e à organização do tempo é mais relevante do que tentar revisar todas as disciplinas desde o começo, avaliam especialistas.
O propósito das próximas semanas é chegar ao Enem sabendo utilizar o conhecimento acumulado: reconhecer o que cada questão solicita, resolver provas de edições passadas, fazer simulados, identificar os temas em que ainda há dificuldade e aprender a gerenciar o relógio figuram entre as principais recomendações.
“A prioridade deve ser associar a revisão das disciplinas que ainda necessitam de consolidação à resolução de exercícios. É fundamental identificar os assuntos em que permanecem dificuldades e concentrar os esforços nesses pontos, além de intensificar a realização de provas antigas e simulados, sempre observando o tempo despendido em cada bloco de questões”, afirma Lucas Monteiro de Carvalho, diretor de unidade escolar do Bernoulli Educação. Esse treinamento, segundo Carvalho, contribui não apenas para revisar conteúdos, mas também para desenvolver estratégia e gestão do tempo.
Foco nas questões
Se até agora grande parte da preparação esteve centrada na aprendizagem dos conteúdos, nesta etapa as questões ganham mais espaço na rotina, sobretudo as de provas anteriores do próprio Enem.
Aline Castro, diretora do Sistema de Ensino pH na Cogna Educação, destaca outro ponto: não basta resolver questões e conferir o gabarito. É preciso compreender o percurso que levou ao acerto ou ao erro. O estudante deve questionar o que o enunciado está pedindo, o que dizem texto, gráfico, imagem ou documento apresentado e qual conhecimento precisa ser mobilizado para chegar à resposta. “Muitas das ‘pegadinhas’ do Enem são alternativas que trazem informações corretas, mas que não solucionam aquilo que foi questionado”, explica.
Raphael Mantovano, diretor da Amplia Plataforma de Ensino, também situa a resolução de questões no centro da preparação. Para ele, provas anteriores e simulados auxiliam de forma simultânea a identificar lacunas de conhecimento, reconhecer os temas recorrentes e treinar a administração do tempo diante das 180 questões e da redação.
O que não fazer
Há igualmente um consenso entre os três especialistas sobre o que não fazer: tentar recuperar, em poucas semanas, todo o conteúdo que não foi aprendido ao longo do ensino médio.
Para Lucas de Carvalho, do Bernoulli, o tempo disponível deve ser empregado para consolidar aquilo que de fato pode interferir no desempenho. Isso implica identificar dificuldades, definir prioridades e evitar uma retomada indiscriminada de todo o programa.
Mantovano sugere combinar dois critérios: a frequência com que determinado conteúdo aparece no Enem e o nível de domínio do próprio estudante. Se um assunto recorrente já está bem assimilado, basta mantê-lo em revisão. Se é frequente na prova e ainda representa uma dificuldade, merece receber mais atenção.
Aline Castro acrescenta que também não compensa investir muitas horas na memorização de informações específicas e isoladas. O Enem exige, em grande medida, que o candidato consiga mobilizar o que sabe para interpretar textos, documentos, imagens, gráficos e situações-problema.
Além do conteúdo
Essa característica modifica o modo de estudar, afirma Aline Castro. Em Ciências Humanas, por exemplo, ela explica que uma questão dificilmente se restringirá a perguntar quais grupos políticos participaram da Revolução Francesa. A prova pode exibir um documento ou fragmento de texto da época e exigir que o candidato relacione aquela fonte ao contexto histórico e aos interesses envolvidos.
O desafio, portanto, é saber o que fazer com o conhecimento. “Não busque simplesmente a alternativa verdadeira; busque a alternativa que responde exatamente ao comando da questão”, orienta.
Palavras presentes nos enunciados, como “identificar”, “relacionar”, “comparar”, “explicar”, “evidenciar” e “inferir”, ajudam a indicar qual tipo de raciocínio é esperado. Treinar essa leitura pode evitar um erro frequente: escolher uma alternativa que traz uma afirmação verdadeira, mas que não responde ao que foi perguntado.
Entenda a TRI
O estudante necessita compreender de fato a Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia empregada para calcular as notas das provas objetivas do Enem.
Lucas de Carvalho explica que, diferentemente de uma prova convencional, a nota não depende simplesmente da soma dos acertos. A TRI leva em conta, entre outros aspectos, a coerência do conjunto de respostas. Por esse motivo, dois participantes com a mesma quantidade de acertos podem terminar com notas distintas.
Um candidato que demonstra acertos consistentes em itens fáceis e médios pode obter resultado diferente daquele que acerta o mesmo número de questões, mas erra itens considerados fáceis e acerta alguns mais difíceis.
Compreender essa lógica também influencia a estratégia. Uma possibilidade indicada pelo diretor do Bernoulli é iniciar pelas questões que o candidato avalia como mais fáceis, avançar para as intermediárias e deixar as mais complexas para outro momento.
“A prova exige equilíbrio: é necessário evitar gastar tempo demais em uma questão muito complexa e, ao mesmo tempo, assegurar os itens que estão dentro do seu domínio de conhecimento”, afirma. Insistir exageradamente em uma pergunta difícil, acrescenta, é um comportamento que precisa ser corrigido antes da prova.
Os ajustes para redação
A redação merece atenção especial neste período final de preparação para o Enem. De acordo com os especialistas, é o momento de identificar erros recorrentes e competências que ainda precisam ser trabalhadas.
Entretanto, a recomendação é não chegar ao dia da prova disposto a experimentar uma fórmula totalmente nova. O ideal é dispor de uma estrutura já treinada e de uma estratégia conhecida.
A lógica é semelhante à aplicada às questões objetivas: praticar agora aquilo que será executado no dia do Enem.
Faça simulados
Resolver algumas questões entre uma atividade e outra é útil, mas não substitui o treinamento de uma prova extensa. Por isso, os especialistas recomendam reservar alguns momentos para simulados em condições semelhantes às do exame.
Isso implica controlar o relógio, enfrentar blocos extensos de questões e treinar a decisão de deixar temporariamente um item que está consumindo tempo demais.
“O Enem é também uma prova de estratégia. O estudante não precisa acertar todas as questões e nem deve permitir que uma questão muito difícil comprometa o restante da prova”, diz Aline Castro, da Cogna Educação. A orientação é marcar a questão e prosseguir. Depois, havendo tempo, o candidato retorna a ela.
Cuide da saúde mental
À medida que a prova se aproxima, outro desafio ganha força: a sensação de que ainda falta estudar muito. “Pode surgir a sensação de que ainda não fez o suficiente ou de que precisa estudar cada vez mais, e essa pressão pode dificultar que o aluno consiga colocar em prática, no dia da prova, tudo aquilo que construiu durante a preparação”, afirma Lucas.
No Bernoulli, de acordo com ele, a preparação emocional é trabalhada ao longo de todo o processo, com acompanhamento próximo e suporte psicológico. A orientação nesta fase é preservar também momentos de descanso, convivência com a família, prática de esportes e outras atividades fora dos estudos.
Aline reforça a importância do sono e recomenda evitar comparações com o ritmo de preparação de outros candidatos. Raphael Mantovano, da Amplia, também ressalta que descanso, sono e atividade física precisam continuar na rotina, inclusive porque a ansiedade pode interferir na própria aprendizagem.







