A recente alta do Ibovespa ainda não é suficiente para afirmar que o pior já passou para a bolsa brasileira.
Especialistas consultados pela CNN Money consideram que, por ora, trata-se de um repique técnico depois das fortes perdas, com possibilidade de novas correções em meio às incertezas fiscais e eleitorais no Brasil, à trajetória dos juros americanos e à volatilidade dos mercados globais.
O movimento ganhou impulso no fim da semana passada. Na quarta-feira (19), o Ibovespa quebrou uma série de 11 pregões em queda, favorecido pelo alívio nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA.
Na última sexta-feira (21), por sua vez, o índice subiu 1,85%, aos 171 mil pontos, puxado sobretudo pelos bancos, e fechou a semana com ganho de 2,44%.
Em conversa com a CNN Money, Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, disse que a recuperação deve ser vista como um alívio tático após uma sequência severa de desvalorizações, e não como uma alteração estrutural da tendência.
“Esse fôlego comprador foi puxado principalmente por fatores externos pontuais, como a recompra de títulos pelo Tesouro americano e a elevação dos preços internacionais das commodities, que deram um suporte direto e temporário a grandes exportadoras e petroleiras de peso no índice”, explicou.
Para Nossig, no entanto, seguem presentes fatores domésticos, como fundamentos econômicos e cenário político, que impõem ventos contrários à sustentação de um ciclo prolongado de alta.
“Para que uma reversão de tendência de fato se consolide no longo prazo, o mercado precisa do retorno consistente do capital estrangeiro e de uma sinalização fiscal clara, capaz de reduzir as taxas de juros longas de maneira permanente”, afirma.
Até 18 de agosto, R$ 20,5 bilhões foram retirados da bolsa brasileira por investidores estrangeiros, conforme relatório do JP Morgan. O banco destacou que o país se encaminha para a terceira maior saída mensal de capital externo desde 2008.
“Quanto às perspectivas para os fluxos futuros, o histórico traz pouco alívio. […] Em todas as ocasiões, exceto uma (agosto de 2023), os fluxos seguiram negativos no acumulado de três meses após o evento de ‘saída extrema’. Em todos os casos, os resgates prosseguiram no mês seguinte à ‘saída extrema’”, aponta o documento.
À CNN Money, Malek Zein, analista da Suno Research, afirmou que boa parte da queda recente está ligada à movimentação global de capitais e à mudança de preferência dos investidores entre empresas de tecnologia.
Na visão dele, não houve deterioração estrutural relevante dos fundamentos do Brasil que justifique sozinha a intensidade do movimento recente.
A leitura de Nossig vai ao encontro da de Maurício Valadares, CIO da Nau Capital, que acredita que as perdas recentes tornaram o Ibovespa mais atraente e “podem ter aberto uma janela de oportunidades para compradores”.
Ele ressalta, contudo, que ainda falta um gatilho definitivo para o índice embarcar em uma trajetória de altas mais prolongada.
Na avaliação de Valadares, um arcabouço fiscal mais sólido, uma melhora das contas públicas e um ambiente externo mais favorável poderiam contribuir para sustentar o movimento.







