Em seu poema Autopsicografia, Fernando Pessoa afirmou:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Nestes poucos versos vemos espelhadas ideias do senso comum sobre quem se expressa por meio das mais variadas formas de expressão artística. Para muitos o artista é um sofredor por natureza e é graças à sua dor que surge a obra de arte.
O mês de agosto está no fim e na próxima semana começa a campanha do setembro amarelo, no qual o tema da prevenção do suicídio é evidenciado e discutido para a sua prevenção e a preservação de muitas vidas perdidas em função de um sofrimento insuportável fruto, em muitos casos, de uma fragilidade mental e psiquíca.
Os artistas, por sua exposição pessoal, têm suas fragilidades mais evidenciadas ao público em geral. Qualquer fato fora da normalidade aparece nas manchetes de jornais ou sites de notícias. Como nesta coluna tratamos de música, vamos falar de como muitos do meio musical conviveram com seu sofrimento.
É comum que se estabeleça uma relação entre criatividade e transtornos mentais. Essa relação, no entanto, não é tão direta. Não se pode dizer que uma pessoa use o seu sofrimento psíquico como uma ferramenta de criação.
Entretanto, não se pode negar que sua experiência única de vida, suas dores, euforias, angústias e percepções da realidade, tudo isso acaba se convertendo em matéria-prima e combustível para sua arte como veremos a seguir.
Ludwig van Beethoven é conhecido por sua surdez progressiva que o isolou do mundo. Essa condição levou-o a uma depressão profunda e ideações suicidas. Apesar disso, a música era sua forma de diálogo com o mundo por meio de obras como a Sinfonia No. 9, uma ode à alegria e à fraternidade humanas que transcende a escuridão.
Beethoven – 9ª Sinfonia – Ode a Alegria
As letras de Kurt Cobain (Nirvana) são um reflexo direto de sua angústia, alienação e depressão. Esse é o caso de Lithium, canção em que fala diretamente sobre os altos e baixos do transtorno bipolar. Outro exemplo encontra-se em Something in the Way na qual Cobain expõe o seu mundo interior de dor.
Nirvana – Lithium (Official Music Video)
Diagnosticado com esquizofrenia, Brian Wilson (The Beach Boys) compôs Pet Sounds, ábum considerado revolucionário na produção e complexidade emocional, em meio a um período de intensa criatividade e crise mental. Sua luta contra vozes na cabeça, sintoma do seu transtorno, e sua sensibilidade extrema são perceptíveis nas camadas intricadas de som e nas letras que falam de solidão e inadequação
I Just Wasn’t Made For These Times.
O grande Antônio Carlos Jobim, um dos grandes nomes da nossa música, também sofreu com a depressão. A bossa nova sentimental de Tom Jobim não era apenas um estilo musical, mas uma expressão de seu temperamento melancólico. Músicas como Chega de Saudade e Wave carregam uma doce tristeza, uma nostalgia profunda que muitos atribuem a seus períodos de depressão.
Tom Jobim – Chega de saudade (Ao Vivo em Montreal)
Apesar dos exemplos acima e de outros que podem vir à nossa mente durante a leitura deste texto, é importante que se evite romantizar o sofrimento mental. Embora essa condição ajude a alimentar a criatividade, o sofrimento decorrente de transtornos e fragilidades psíquicas são debilitantes e pode ser fatais. A obra produzida por esses artistas não são fruto de seu transtorno, mas um testemunho de sua resiliência e talento.
A grande maioria dos artistas citados ou buscou ou está em tratamento profissional para ajudá-los em sua condição. Para essas pessoas, a arte é uma forma de comunicação. O apoio tem sido, no entanto, essencial para sua sobrevivência.






