O atual cenário macroeconômico brasileiro, marcado por juros elevados e pelo avanço da inadimplência corporativa, impulsionou a busca por um produto financeiro até então considerado de nicho: o seguro de crédito. A modalidade funciona como uma proteção para empresas contra o não pagamento por parte de seus clientes, garantindo o recebimento integral do valor devido caso o comprador quebre ou atrase as contas.
A busca por esse mecanismo de defesa ocorre em um momento crítico. De acordo com o Banco Central, a inadimplência das pessoas jurídicas atingiu 3,24% em maio de 2026, o maior patamar desde o pico histórico de 2017, quando chegou a 4,06%.
O que está impulsionando o setor em 2026?
Mesmo com apólices mais caras devido ao aumento do risco, executivos do setor preveem que a contratação do seguro de crédito baterá recorde este ano. Os principais fatores de pressão são:
Tensões geopolíticas: Conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia encareceram matérias-primas e pressionaram o preço do petróleo, que ultrapassou a barreira dos US$ 100 antes da recente estabilização.
Custos de produção elevados: O atrito recente entre Irã e Estados Unidos alarmou fornecedores de fertilizantes (dependentes de gás e ureia), que temem o calote de produtores rurais sufocados pelos custos.
Onda de insolvências: Segundo dados da Allianz Trade, as falências e recuperações judiciais no Brasil saltaram 37% em 2024, 17% em 2025 e devem crescer mais 7% em 2026.
Quem contrata? O produto é voltado para empresas com faturamento anual a partir de R$ 20 milhões. O custo da apólice costuma variar entre 0,1% e 2% da receita anual do segurado.
No primeiro trimestre de 2026, as solicitações de cotação na multinacional Coface dispararam 47% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Setores como agronegócio, alimentos, eletroeletrônicos e material de construção lideram a procura.
O “Efeito Americanas” e a virada de chave no mercado
O grande divisor de águas para o seguro de crédito no Brasil foi o colapso da varejista Americanas no início de 2023, revelando uma dívida oculta de mais de R$ 40 bilhões. O episódio serviu como um duro alerta de que mesmo gigantes do mercado oferecem riscos graves.
O caso da varejista tornou-se o maior sinistro indenizado da história do seguro de crédito na América Latina. De um lado, gerou histórias dramáticas: um cliente da Coface, que concentrava 60% do seu faturamento na Americanas e não possuía seguro, faliu e precisou deixar o país. Por outro lado, o episódio validou o produto: a Allianz Trade registrou um crescimento de 20% em seu faturamento no ano do ocorrido, e a Coface conseguiu recuperar quase 100% do valor indenizado um ano após o escândalo.
Radiografia do risco e o perfil brasileiro
As empresas brasileiras operam sob maior exposição ao risco de crédito em comparação com os vizinhos continentais. O prazo médio de pagamento concedido aos clientes no Brasil é de 66 dias, contra 56 dias na média da América Latina.
Atualmente, o mercado monitora de perto os processos de reestruturação de grandes marcas e grupos como GPA, Raízen, Estrela e Andrade Gutierrez.
Termômetro do Mercado de Seguros:
| Indicador / Característica | Detalhes do Cenário Atual |
| Sinistralidade (Susep) | Bateu 82% em 2025, mostrando que as seguradoras gastaram quase tudo o que arrecadaram (contra 48% em 2024 e 79% em 2023). |
| Posição do Brasil | Classificado no “meio da régua de risco” pela Allianz Trade, sendo considerado nem excelente, nem péssimo. |
| Risco por Setor | Têxtil e Químico são vistos como alto risco; Energia é considerado médio risco. |
| Crédito Interno | Representa cerca de 70% das contratações na América Latina. |
Estratégias de mitigação e novos mercados
Para evitar prejuízos bilionários com a nova onda de recuperações judiciais e extrajudiciais, as seguradoras têm readequado seus preços e reduzido a exposição a empresas fragilizadas. No caso do GPA, por exemplo, tanto a Coface quanto a Allianz Trade informaram que já vinham reduzindo os limites de crédito preventivamente, evitando surpresas ou necessidade de indenizações.
Além da proteção direta a fornecedores, o seguro de crédito tem ganhado espaço no agronegócio por meio de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), blindando a rentabilidade dos investidores contra calotes no campo. Outro atrativo é que a apólice pode ser utilizada pelas empresas como garantia para tomar empréstimos bancários mais baratos.
De olho no potencial de expansão e na popularização dessa proteção, a Coface planeja lançar ainda em 2026 um produto desenhado especificamente para atender pequenas e médias empresas (PMEs).







