No início da revolução industrial, operários quebravam as imensas máquinas, como protesto de insatisfação, que as máquinas tomariam os lugares dos operários. Coincidência ou velhos hábitos, o mesmo acontece com o advento da Inteligência Artificial (IA). Muito se fala que a IA vai roubar empregos, substituir cargos que não são essenciais.
Tudo que é novo, assusta. Mas será que o problema são as novas tecnologias?
O sabão foi uma tecnologia na época que foi inventado, de certo modo ainda é uma tecnologia que facilita as nossas vidas em questão de higiene. O que quero mostrar com esse exemplo do sabão é que vivemos cercados de tecnologias que facilitam a nossa vida, e que não necessariamente são softwares, celulares e computadores. Mas então por que a IA assusta?
Do mesmo jeito que as máquinas assustaram no início da revolução industrial, a IA assusta porque vem embalada pela mesma lógica exploratória.
Com máquinas os patrões poderiam produzir mais. Com as IAs a sua empresa vai produzir mais. Esse discurso é repetitivo e tem o foco em causar competição mesmo, afinal como manter salários baixos e as pessoas aceitarem a trabalhar por migalhas se não houver um contingente de pessoas desempregadas. “Se você não quer, tem quem queira”, é a máxima dos neoliberais.
Podemos estar nas taxas mais baixas de desemprego, ou melhor de “desocupados”. Não sou eu dizendo, no site do IBGE o gráfico das taxas mostra “Ocupados”, “Desocupados”, “Fora da força de trabalho” e “Abaixo da idade de trabalhar”. Desocupados podem incluir pessoas pejotizadas, autônomos, subempregos sem registro em carteira, afinal são pessoas que trabalham, mas isso não garante dignidade. E o que isso tem haver com Inteligência Artificial?
Assim como as máquinas, a IA, como conhecemos hoje, é mais uma ferramenta para agravar desigualdades sociais. Afinal, não é porque tem pessoas “desocupadas” que do nada a desigualdade social sumiu. Todo mundo tem casa pra morar? Acabou a fome? Temos saúde e educação de qualidade para todos?
Não vamos entrar no mérito das IAs serem usadas para guerra, hiper vigilância, fake news, deepfakes, golpes, extorsões e qualquer outra coisa horrível que lembremos. Aqui quero só salientar que se a embalagem, ou se preferir “estrutura”, que vem com a IA é uma que explora, não adianta colocar flores para ficar bonitinho. Essa ferramenta (IA) vai ser usada para manter as coisas como estão e de preferência encher os bolsos de quem lucra com essa exploração.
O que quero deixar claro é que não adianta criar “tecnologias para facilitar nossa vida” se o objetivo final é, na verdade, lucro acima de tudo. Se o lucro vem em primeiro lugar, então a facilidade para nossas vidas vai para a lata do lixo. Isso pode incluir a sanidade mental de alguns, o emprego, a saúde física, o meio ambiente, nossos rios e terras. O problema não é a tecnologia em si, não foram as máquinas e não é a IA, é quem lucra com a exploração do outro. Basta ver os CEOs das grandes empresas de IA e ver os seus discursos, que cada vez mais abraçam a extrema-direita global e demoniza estrangeiros, imigrantes, todo aquele que é diferente. A não ser que você seja um bilionário, branco, cis hétero-normativo, então bem vindo aos diferentes.







