O etarismo tem um jeito curioso de operar: ele não chega gritando, ele se insinua. Quando você percebe, já está sendo medida por um número que, até pouco tempo atrás, era só um detalhe burocrático na sua certidão.
Antigamente, uma mulher de trinta anos já era chamada de “coroa”. Trinta! Uma idade que hoje, para muitas, ainda é começo, de escolhas, de reinvenções, de liberdade. Mas, se aos trinta já havia esse carimbo, aos quarenta então… não havia sequer a possibilidade. Era como se a vida, para a mulher, tivesse um prazo de validade silencioso. Como se, depois de um certo ponto, ela deixasse de ser vista como alguém em movimento e passasse a ocupar um lugar de espera, ou pior, de invisibilidade.
O tempo passou, mas a lógica não desapareceu, ela só mudou de forma.
Hoje, muitas mulheres chegam aos trinta sem casar, sem filhos, ou simplesmente sem interesse em seguir esse roteiro. E isso deveria ser visto como autonomia. Mas o julgamento continua ali, apenas com outra linguagem. Se antes a cobrança era por “já ter tudo”, agora ela vem pela escolha de não ter. Como se existisse uma linha do tempo invisível que precisa ser obedecida, e qualquer desvio vira motivo de estranhamento.
E talvez uma das faces mais irônicas disso tudo seja o etarismo vindo dos mais jovens. Existe uma espécie de amnésia do tempo, como se envelhecer fosse sempre um problema do outro. Como se eles estivessem permanentemente do lado de fora dessa conta. Mas o tempo anda. Daqui a dez anos, estarão exatamente onde muitos estão hoje, com outras marcas, outras histórias, esperando não serem reduzidos a um número.
Porque o etarismo, no fundo, não é só sobre rejeitar o outro. É sobre negar o próprio futuro.
E, no meio disso tudo, existem as pequenas violências disfarçadas de gentileza.
Teve quem dissesse que iria me “arrumar um namorado”. E os candidatos vinham sempre com pelo menos quinze anos a mais. Nada contra a diferença de idade, porque maturidade, desejo e afinidade não moram na data de nascimento. O incômodo nunca esteve neles.
Estava na intenção.
Não era apresentação; era enquadramento. Uma forma sutil de dizer: “é isso que te cabe agora”. Como se, a partir de uma certa idade, a mulher deixasse de escolher e passasse a aceitar. Como se o tempo, além de passar, também retirasse dela o direito ao desejo.
E esse tipo de situação não acontece isoladamente, ele se soma a outras camadas.
Para a minha mãe, por exemplo, foi difícil entender, ou aceitar, que, depois do meu divórcio, eu, uma mulher 40+, quisesse descobrir novos caminhos. Não só na vida profissional, mas também na pessoal. Como se recomeçar tivesse prazo. Como se a coragem de mudar fosse um privilégio da juventude.
Mas não é.
O desconforto dela não vem de maldade, vem de uma formação atravessada por outras regras, outros limites, outras renúncias. Talvez, para a geração dela, aos quarenta o movimento esperado fosse outro: estabilidade, permanência, manutenção. Não ruptura. Não reinvenção.
E é aí que o etarismo se mostra ainda mais complexo: ele não vive só nas falas cruéis ou nos julgamentos explícitos. Ele também se manifesta nas dificuldades de compreensão, nas expectativas herdadas, nos caminhos que foram ensinados como únicos possíveis.
E é curioso, ou talvez incômodo, perceber que muitas dessas vozes vêm de outras mulheres. Muitas mais jovens, ao menos no papel. Porque, na prática, idade e maturidade raramente caminham juntas.
Há quem envelheça cedo, endurecida, presa a ideias estreitas sobre o que o outro deve ser. E há quem, com o passar dos anos, expanda, fique mais inteira, mais segura, mais viva. Mulheres que deixam de caber em expectativas pequenas e, por isso mesmo, passam a incomodar.
No fim, o problema nunca foi a idade.
Foi a tentativa constante de transformá-la em régua, limite e destino.
Mas algumas mulheres não aceitam caber nisso.
E talvez seja exatamente por isso que ainda tentem tanto enquadrá-las.







