Lugar de mulher é onde ela quiser

Toda família tem um personagem que, mesmo depois de morto, continua entrando nas conversas sem pedir licença.

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Na minha família, esse personagem é uma mulher: Luiza Masson, minha tataravó.

Eu nunca a conheci. Não ouvi sua voz, não vi seu rosto se mover, não segurei suas mãos. Ainda assim, ela esteve presente em muitos dos momentos importantes da minha vida. Talvez porque certas mulheres não desapareçam. Elas se espalham pelos descendentes como uma herança invisível.

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Quando alguma de nós, meninas (eu, minha irmã e minhas primas), ficava brava, meu pai e tios não diziam nosso nome. Diziam apenas: “Luiza Masson!”

Era uma espécie de diagnóstico familiar. Curioso é que, nesse momento, ninguém a chamava pelo sobrenome do marido. Ela voltava a ser apenas ela. Luiza Masson. Como se sua identidade não coubesse dentro do casamento. Como se sua força tivesse assinatura própria.

Segundo a história que atravessou as gerações, foi ela quem decidiu que a família deixaria a Itália e atravessaria o Atlântico rumo ao Brasil. Fugia-se da guerra, do frio, da fome e da falta de perspectivas. Mas a parte mais interessante da história é que ela não precisava fugir de tudo isso.

Seu pai era um homem rico. Morava em um castelo. Ela poderia ter levado uma vida confortável, protegida dos ventos da história. Mas teve a ousadia de fazer o que tantas mulheres de sua época não podiam: escolheu. E escolheu um homem simples.

Apaixonou-se por alguém sem fortuna, sem castelo, sem herança. Um amor que lhe custou privilégios e, ao que tudo indica, também o apoio da família.

Conta-se que pouco antes da viagem ela foi buscar lenha na propriedade do pai. Ao vê-la ali, ele ordenou que os empregados a expulsassem.

Talvez tenha imaginado que estava lhe ensinando uma lição. Talvez não soubesse com quem estava lidando.

Anos depois, já instalada no Brasil, Luiza enviou uma carta ao pai. Nela dizia que aqui havia lenha suficiente para queimar a ele e à Itália inteira.

Toda vez que ouço essa história, imagino a cena. Não sei se a frase foi exatamente essa. As histórias de família costumam exagerar os detalhes e polir os diálogos. Mas isso pouco importa. Porque, verdadeira ou não, a frase traduz perfeitamente quem ela era. Uma mulher que não aceitava ser colocada para fora da própria história.

Muitos anos depois, quando me vi diante da possibilidade de uma separação, fui tomada por um medo difícil de explicar. Não era apenas o medo de perder alguém. Era o medo de caminhar sozinha. O medo de romper um roteiro. O medo de decepcionar expectativas que nem eram minhas. Foi nessa época que participei de uma constelação familiar. Sei das críticas. Sei dos exageros, dos desvios e dos charlatanismos que existem ao redor dessa prática. Mas também sei que, naquele momento específico, ela me levou até Luiza. Não a Luiza histórica, mas a Luiza simbólica. A mulher que trocou o castelo pela incerteza. A mulher que atravessou o oceano. A mulher que suportou a desaprovação do pai. A mulher que escolheu.

Quando pensei nela, meu medo diminuiu. Porque é difícil acreditar que descendemos de alguém assim e, ao mesmo tempo, imaginar que não somos capazes de seguir em frente.

Talvez o mais bonito dessa história seja perceber que os homens da minha família, mesmo mergulhados na cultura machista que moldou tantas gerações, sempre reconheceram a força das mulheres ao redor deles.

Meu pai foi um político conhecido. Daqueles que costumam ser descritos como corretos demais para a política. Participou da luta pelas Diretas Já, acreditou na democracia quando isso exigia coragem e se tornou prefeito aos 37 anos. Tinha o sonho quase ingênuo, e justamente por isso tão bonito, de mudar a vida de uma pequena cidade.

Eu cresci acompanhando seus passos. Ele nos levava para todos os lugares. Reuniões, eventos políticos, campos de futebol, almoços com autoridades, conversas sobre os rumos da cidade e do país. Éramos crianças circulando por espaços que, durante muito tempo, foram considerados masculinos.

Não me lembro do meu pai fazendo discursos sobre igualdade entre homens e mulheres. Mas lembro dele nos levando junto. Lembro dele abrindo espaço para que estivéssemos presentes. Lembro dele nos tratando como quem sabia que éramos capazes de compreender o mundo ao nosso redor. E às vezes educamos mais pelos gestos do que pelas palavras. Sem dizer exatamente isso, meu pai me ensinou que o lugar de uma mulher é onde ela quiser.

Minha mãe esteve ao lado dele durante toda essa caminhada, apoiando sonhos, enfrentando as dificuldades inevitáveis da vida pública e ajudando a sustentar a família quando as coisas apertavam. Mas, olhando para trás, percebo que uma das maiores heranças que meu pai nos deixou foi a confiança.

A confiança de que podíamos estar ali. A confiança de que podíamos participar. A confiança de que podíamos ocupar espaço.

Meu irmão também é um desses homens que não se sentem diminuídos pela força feminina. Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta, quem me levava para aventuras de infância, para escorregar de papelão nos morros gramados da cidade, como se o mundo fosse um lugar feito para ser explorado.

Mais tarde, foi ele quem insistiu para que eu dirigisse. Eu tinha medo. Medo de errar. Medo de ocupar espaço. Medo de não ser aceita em um território que, durante muito tempo, disseram não ser nosso. Quando comprei meu primeiro carro, ele preparou para mim uma seleção de músicas interpretadas por mulheres. Aretha Franklin. Nina Simone. Janis Joplin. Rita Lee. Vanessa da Mata. E tantas outras. Era um CD com o título escrito por ele: “Mulheres no volante”.

Na época achei apenas um gesto carinhoso. Hoje entendo que era uma declaração de confiança. Ele estava me dizendo, sem dizer, que eu podia seguir meu caminho. Que eu era capaz. Que não precisava pedir licença.

Penso nisso quando lembro da escola. As meninas faziam os trabalhos. Pesquisavam, escreviam, organizavam. Os meninos apresentavam.

O protagonismo parecia ter sido distribuído antes mesmo de chegarmos ao mundo. Mas a vida foi me mostrando outra coisa.

Os homens mais importantes da minha história nunca pareceram ameaçados pela força das mulheres. Talvez porque tivessem crescido observando mulheres fortes. Talvez porque, em algum lugar da memória familiar, soubessem que tudo começou com uma delas.

Hoje gosto de imaginar Luiza observando seus descendentes. Meu pai, ainda jovem, acreditando que podia transformar uma cidade.

Eu ocupando espaços que talvez não fossem considerados nossos há algumas gerações.

Meu irmão me incentivando a seguir em frente.

E eu, tentando vencer meus próprios medos.

Talvez ela sorrisse. Talvez dissesse que coragem nunca foi ausência de medo. Coragem é atravessar o oceano mesmo com medo.

No fundo, foi isso que ela fez.

E talvez seja isso que todas nós, mulheres da família, continuamos fazendo desde então.

Porque algumas mulheres não precisam ocupar o palco para mudar o rumo da história.

Elas apenas tomam uma decisão.

E, mais de cem anos depois, seus descendentes ainda estão vivendo as consequências dela.

O nome original da minha tataravó era Luigia Mazzon.

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

6 COMENTÁRIOS

  1. Uma mulher além de seu tempo, sua avó! Deixou um legado que você aprendeu a honrar. Texto potente e inspirador, não só para mulheres mas para todos os seres humanos.

  2. Uma mulher além de seu tempo, sua avó! Deixou um legado que você aprendeu a honrar. Texto potente e inspirador, não só para mulheres mas para todos os seres humanos.

  3. Um texto emocionante que mostra como a coragem e as escolhas de uma pessoa podem marcar gerações. Acho que exemplos assim, como a sua ‘bisa’, fazem refletir sobre o que herdamos da nossa família e que continuam nos inspirando ao longo da vida.

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