Crítica: Re te tei

O Retetei das Formas Animadas no Festival Aldeia

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28 de Maio de 2026 | Tropa do Balacobaco (PE)  | Aldeia SESC Ilha do Mel

O teatro de animação possui uma força que a modernidade teima em tentar plastificar. Quando a Tropa do Balacobaco, vinda diretamente de Pernambuco, invade o Festival Aldeia com o espetáculo Re Te Tei, o público capixaba é arremessado para dentro de um barracão contagiante dentro dos próprios domínios, o Sesc Glória. Comemorando dez anos de estrada em 2026, a montagem da Tropa, prova que a tradição não é uma peça de museu empoeirada, mas um organismo que quebra as paredes, rima, canta e joga água na plateia.

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O termo que dá título à peça já entrega a que veio: “retetei” significa bagunça, agito, algazarra e fofoca. É a perfeita tradução da infância e, ironicamente, às vezes, da nossa própria organização social. Há quem pense que espetáculo de bonecos é exclusividade para entreter crianças enquanto os pais checam as notificações no celular. Grande erro. Ativar a memória afetiva é um ato político. O lugar da infância não se resume a uma faixa etária na certidão de nascimento, mas reside na capacidade de se espantar com o mundo. Então, ver um grupo ocupar o espaço e agradar pessoas de todas as idades com música, piadas, bonecos esculpidos em madeira é um choque de realidade necessário.

A Tropa do Balacobaco demonstra imenso respeito pelo solo que pisa ao inserir no texto piadas locais e menções à nossa tradicional moqueca capixaba, gerando uma identificação imediata com o público local e quebrando a distância geográfica através do estômago e do riso. Excelentes piadas. As vozes dos bonecos são construídas, mas muito bem construídas dando uma carga para o que se passa na personagem (boneco).

A entrada do grupo tocando repentes no meio do público, antes mesmo de a ação principal começar no palco, rompe a quarta parede tradicional e convida a comunidade a fazer parte daquela celebração. A plateia é provocada a responder às rimas, a desviar da água e a rir do próprio espanto.

“Pode me chamar que eu vou, um viajante sertanejo eu sou.” Os atores cantam as músicas até entrarem atrás do tapume, aí entram em cena os bonecos de mamulengos. As piadas são visuais como falar dos pintos e rapidamente e sincronizado os pintos entrarem (desculpa, foi sem querer).

Então continuando, entrando na história entre Rimas e Desafios, vamos a Jornada de Chico Catolé Contra o Papa-Figo. A narrativa acompanha as peripécias de Chico Catolé (achei que Chico era uma versão alternativa da atriz capixaba Léia Rodrigues, mesmo espírito), um menino sertanejo cuja maior diversão é inventar histórias e assistir ao emaranhado de confusões que suas mentiras provocam. Filho das Três Marias, cantadoras de Samba de Coco, Chico consegue a façanha de colocar suas próprias mães uma contra a outra. A brincadeira ganha contornos dramáticos com a chegada do temido Papa-Figo. O monstro propõe um duelo de rimas onde a mentira é o passe livre para a derrota. Chico falha, perde o embate e é transformado em um pequeno Papa-Figo. Para quebrar a maldição, ele precisa cruzar o sertão em busca dos ingredientes de um remédio “desempapafigador”, deparando-se com mitos do imaginário popular.

Chico e os narradores da história | Foto: Daniel Bones

O espetáculo utiliza o mamulengo como um eficiente mecanismo que o público não se identifica passivamente com a dor de Chico; ele ri do absurdo, analisa o comportamento do mentiroso e compreende a engrenagem social da fofoca. Não se trata de uma moral da história barata e burguesa, mas de expor como as narrativas que criamos podem se voltar contra nós.

Ao mesmo tempo, as Três Marias e a estrutura familiar de Chico nos remetem à coletividade e à ancestralidade. O herói não é um indivíduo isolado em sua jornada egóica, ele depende do coro, da música e da comunidade para se restabelecer. A busca pelo ingrediente secreto do remédio funciona como a busca pelo objeto perdido, um eterno desejo que move a ação dramática e faz com que a narrativa não estagne em momento algum.

O cenário de Re Te Tei se impõe com um grande barracão que ganha vida e profundidade através de tapumes bem posicionados. O palco profundo permite que os bonecos não transitem apenas em uma linha reta previsível, mas ganhem diagonais e planos que enriquecem a movimentação cênica, tendo espaço para os bonecos se mexerem, dando profundidade, e não apenas um ângulo reto para os bonecos transitarem, isso traz mais movimentação. Numa mescla de personagens – narradores “reais” interagindo com os bonecos manipulados. Falando nisso, é um primor a manipulação dos bonecos, é de uma expressividade corporal impressionante, onde cada guinada de cabeça dialoga diretamente com as intenções do texto dramático. As vozes construídas para os personagens entregam a cadência exata do cangaço e da rima nordestina, conferindo peso e verdade estética ao universo apresentado.

O Boi Bumba e os Músicos de Re te tei | Foto: Daniel Bones

Um ponto que gerou ruído na recepção estética foi a presença de um integrante da própria equipe correndo freneticamente entre os espectadores para fotografar e filmar a cena. Dividir a atenção da plateia com um profissional de cobertura que se movimenta de forma desordenada sabota o pacto dramático. O teatro exige foco, e a produção deve lembrar que o registro da obra jamais pode ser mais importante do que a experiência imediata do público que ali está.

Por outro lado, o desenho sonoro executado ao vivo compensou qualquer deslize técnico. Ao lado do barracão, uma mesa repleta de instrumentos garantiu uma sincronia impecável com as ações físicas dos bonecos. A música em Re Te Tei não funciona como mero fundo musical ou mero elemento de transição; ela é alegórica. Uma palavra dita pelo boneco puxa um acorde, um tombo gera um efeito percussivo imediato. Os músicos se comportam como verdadeiros brincantes, reagindo visualmente e organicamente aos acontecimentos, transformando o espetáculo em uma experiência sensorial rica, e que ainda quebra a quarta parede com água sendo jogada na plateia (em alusão a baba de boi), um recurso divertido que manteve o público em estado de alerta. Quando a rádio é tocada a cena muda e vemos em cena que os músicos também são personagens.

Papa-Figo entrando em meio ao público | Foto: Daniel Bones

Se Pernambuco nos envia o Papa-Figo, nós, capixabas, temos nosso próprio repertório de assombrações que moldam nossa identidade cultural. Quem cresceu no Espírito Santo certamente já ouviu falar da Cruz de Muribeca, o Lagarto Azul, do misticismo que ronda o Cemitério de Águia Branca ou da beleza poética do Pássaro de Fogo. A figura do Papa-Figo, elemento central da peça, carrega uma carga folclórica pesada. Conhecido popularmente como o “Homem do Saco”, o personagem é alimentado pelo mito do sujeito que rapta crianças desobedientes para consumir seus fígados. O Papa-Figo é como a personificação dos nossos medos mais primitivos, que representa o perigo do mundo externo, o desconhecido que habita a floresta ou a rua escura. Trazer esse “horror folclórico” para a ludicidade do teatro infantil através do riso é uma estratégia de catarse e educação. As lendas urbanas e os mitos populares funcionam como pontes pedagógicas essenciais entre o passado e o presente. Elas ensinam as novas gerações a lidar com o perigo, a desconfiar do óbvio e a valorizar a oralidade, que é a biblioteca sem paredes da humanidade.

O espetáculo diverte porque se ancora na comédia popular, mas incomoda, a meu ver, porque escancara que nossas pequenas mentiras cotidianas criam monstros reais que nos escravizam. Ao final, quando a maldição de Chico Catolé é desfeita e ele busca o remédio “desempapafigador”, mas, o que realmente o liberta da maldição é a verdade, (“Só a verdade libertará”) o que se pode compreender que a única cura para as ilusões é o retorno à verdade das nossas raízes, também a força da nossa ancestralidade.

No contexto de Re Te Tei, o riso funciona exatamente como esse vetor de aproximação. Ao fazer piadas visuais com os bonecos e utilizar um tom coloquial e acessível, a Tropa do Balacobaco traduz conceitos profundos sobre ética, mentira e responsabilidade social sem parecer explicativo demais. O espetáculo diverte os jovens porque não os trata com condescendência; ele os desafia através da métrica do repente e do ritmo acelerado do samba de coco.

Como conclusão, o espetáculo Re Te Tei demonstra a força do teatro de animação popular ao unir mamulengo, música ao vivo, humor e lendas do imaginário nordestino em uma narrativa acessível para diferentes idades. A história de Chico Catolé, marcada por suas mentiras e pela jornada para desfazer a maldição lançada pelo Papa Figo, cria uma aventura divertida que dialoga com temas como responsabilidade, consequências dos próprios atos e amadurecimento.

O grande destaque da montagem está na integração entre músicos, atores e bonecos. A trilha executada ao vivo não funciona apenas como acompanhamento, mas como parte ativa da narrativa, reagindo às ações em cena e ampliando a expressividade dos personagens. A manipulação dos bonecos revela precisão e riqueza corporal, enquanto as canções e intervenções musicais ajudam a construir a atmosfera lúdica e envolvente do espetáculo.

Re Te Tei valoriza a cultura popular brasileira, resgata personagens do folclore e transforma tradições orais em experiência cênica vibrante, reafirmando a potência do teatro de bonecos como ferramenta de encantamento, memória e transmissão cultural.

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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