Reformar uma casa já é, por si só, uma experiência emocionalmente instável.
Tem a poeira que aparece onde você jurava que não chegaria, o orçamento que misteriosamente cresce no meio do caminho e aquela sensação permanente de que alguém está fazendo alguma coisa errada atrás de uma parede.
Mas existe uma camada extra nessa experiência quando quem está coordenando tudo é uma mulher, e, pior ainda, uma mulher sem um homem oficialmente circulando pela casa.
Eu, por exemplo, jurei solenemente, depois da última reforma, que não encosto em obra nenhuma pelos próximos anos. Nem trocar uma tomada. Nem instalar uma prateleira. Se depender de mim, essa casa envelhece exatamente como está.
Pode parecer exagero, mas o trauma é grande.
Na última experiência que tive, precisei pedir para um pedreiro interromper o serviço. A execução estava claramente errada e seguir adiante significaria gastar o dobro depois para corrigir. Parecia uma decisão racional: parar, pagar pelo que foi feito até ali e chamar outra pessoa para refazer.
Só que racionalidade nem sempre faz parte da equação.
O pedreiro queria receber o valor integral. Quando eu disse que não fazia sentido pagar por um trabalho mal feito, a conversa escalou para um nível de tensão que nenhuma mulher que mora sozinha deveria precisar administrar dentro da própria casa.
Houve ameaça. Houve intimidação. E houve aquela sensação desagradável de estar discutindo com um homem que sabe exatamente que você está ali… sozinha.
A gente aprende rápido que obra também é um exercício de cálculo de risco.
Outro dia, conversando com uma amiga sobre isso, ela me contou a estratégia dela para lidar com prestadores de serviço: sempre que precisa resolver algo em casa, ela finge ser casada.
Funciona assim: durante a conversa sobre orçamento ou execução, ela interrompe no meio e diz:
— Tá bom, deixa eu falar com meu marido e depois te confirmo.
Às vezes ela até simula uma ligação.
Depois volta e diz que “o marido” concordou ou não.
Eu fiquei olhando para ela em silêncio por alguns segundos, tentando decidir se aquilo era genial ou profundamente deprimente.
Talvez os dois.
E aí fiquei lembrando que eu mesma já fiz algo parecido algumas vezes no Uber. Fingir que estava no telefone, conversando com meu namorado, meu marido, seja lá o que for. Só para deixar no ar a ideia de que alguém estava me esperando, alguém sabia onde eu estava, alguém existia do outro lado daquela linha imaginária.
Porque, em pleno século XXI, ainda existe uma diferença brutal na forma como muitos prestadores de serviço tratam uma casa onde “tem homem” e uma casa onde aparentemente só tem mulher.
Não é só sobre negociação de preço.
É sobre tom de voz.
Sobre limites.
Sobre o quanto a sua palavra parece ou não suficiente.
Aqui em casa mesmo, o senhor que costuma fazer pequenos reparos elétricos e de encanamento outro dia se sentiu à vontade o suficiente para flertar com a minha funcionária.
Mas naquele dia eu estava trabalhando e ela estava sozinha em casa quando ele veio.
Mas é curioso como essas pequenas situações vão se acumulando.
Sozinhas, parecem detalhes.
A tentativa de te enrolar no orçamento.
A explicação técnica em tom condescendente.
A intimidação quando você questiona um serviço mal feito.
A cantada fora de lugar quando percebem que não há nenhum “marido” por perto.
Nada disso explode em um grande escândalo.
Mas vai deixando pequenas rachaduras no cotidiano.
E o curioso é que quase toda mulher que mora sozinha tem pelo menos três histórias parecidas para contar.
No fim das contas, essa talvez seja a grande dica de sobrevivência doméstica que circula entre amigas:
às vezes, para resolver um problema em casa ou para atravessar um trajeto em paz, você precisa inventar um marido que nem existe.
Não porque a gente precise de um.
Mas porque, infelizmente, ainda tem gente que só respeita quando acredita que ele está por perto.







