Nossas elites dirigentes, de diferentes matizes políticas e ideológicas, parecem ter esgotado a capacidade de pensar de forma criativa e inovadora. Paulo Hartung está incluído nesse conjunto. Do mesmo modo, as forças progressistas institucionais renunciaram ao desenvolvimento de um modelo econômico que priorize a autonomia, a autodeterminação, a redistribuição de riqueza e a justiça social, optando pelo chamado neoliberalismo progressista, marcado por políticas de inclusão social focalizada, mas pela ausência de políticas de integração pelo trabalho e pelo emprego.
Essa postura governamental, aliada à defesa de projetos econômicos rivais ao ideário neoliberal e ao gerencialismo de mercado que dominam o campo político, seus discursos, agentes e instituições, parece alimentar o processo de expansão das extremas-direitas e consolidar a vida moral-religiosa e seus dilemas como fermento das agendas e bandeiras políticas. Essa tendência foi acentuada pela emergência das redes sociais, ethos da revanche e do choque, e pelos efeitos complexos das dinâmicas econômicas, políticas, culturais e militares impostas pelo processo globalizante ao longo das últimas cinco décadas: fronteiras, migrações, regionalização e imperialismo.
Mesmo diante desse quadro de profundas transformações, nossas elites dirigentes, que se alternam no poder, demonstram aversão ao planejamento de longo prazo, preferindo ações imediatistas que limitam a capacidade de visualizar e moldar o futuro, percebido como incerto e desafiador. Assim, tornam-se reféns dos interesses rentistas e financeiros e de uma opinião de cunho quase religioso: cumpridas as medidas de austeridade, os investimentos surgiriam de forma automática. O mercado continua a ser visto como sujeito incontestável e infalível, ao qual a sociedade e o poder público devem se submeter.
Trata-se de um decisionismo de natureza econômica, justificado pelo sonho de aumento da produtividade da economia brasileira, que, no entanto, não tem cumprido suas promessas: superávit, juros baixos, desconcentração de renda e queda da dívida pública. Quando se discute o papel dessas elites, elas permanecem em silêncio ou retomam ações econômicas governadas pelo império do marketing, sem conseguir formular um projeto público de política econômica para o país que considere as transformações impostas pela reconfiguração global e pela nova divisão internacional do trabalho contemporâneo, envolvendo EUA, China, Europa e Rússia.
Com receio de serem associadas a tecnocracias ou a governos militares, preferem não refletir abertamente sobre o fato de que o último planejamento global do país foi realizado no governo Geisel e que suas diretrizes foram retomadas, ainda que de forma limitada, pelos governos do PT, orientados pelo neodesenvolvimentismo.
Nestes 40 anos de redemocratização, o Brasil segue um modelo de modernização com dependência econômica, apoiado abertamente na dimensão extrativista e rentista, tendo como base uma massa de trabalhadores que, em sua maioria, vivem com salários baixos e em condições precárias. Muitos sonham com a oportunidade de empreender e “não ter patrão”, reproduzindo a ideia tradicional de liberdade que vigora no país desde os tempos da escravidão, principal negócio que formou as primeiras elites dirigentes brasileiras.
É importante destacar que nosso desenvolvimento, tão buscado e desejado, não conseguiu conciliar a acumulação de capital com a melhoria da vida da maioria da população. Trata-se de um desenvolvimento marcado por profundas desigualdades e pelo descompasso entre interesses públicos e privados, sendo estes últimos priorizados como motor de uma modernização conservadora. Não existe redistribuição espontânea e automática de riquezas e excedentes em uma economia de mercado estratificada.
Em suma, nossas elites dirigentes não conseguem mais convencer a população de que emprego e renda trarão melhorias efetivas para suas vidas. Os cidadãos perceberam que as políticas econômicas beneficiam pequenos setores da sociedade, que controlam grande parte da riqueza nacional.
Com o sentimento de desamparo e ressentimento produzido pela ausência de melhorias materiais e simbólicas, grande parte da população passa a aderir a um projeto econômico e político que desconsidera o tempo histórico e reconhece apenas os mais aptos e competitivos. A vida passa a ser vista como um darwinismo social, uma guerra dos mais fortes, em que a função da política não é promover direitos ou cuidados, mas apenas garantir as condições dessa disputa. A competitividade entre empresas e cidadãos produziria a eficiência social e o melhor aproveitamento dos recursos, selecionando os mais aptos.
Nesses termos, o discurso neoliberal e a retórica religiosa transformam-se em uma poderosa máquina política de mobilização de votos e militantes, colocando em xeque a hegemonia das forças políticas moderadas em seus diferentes espectros. No desespero de responder ao avanço do fascismo social e religioso contemporâneo, nossas elites dirigentes não apresentam propostas capazes de gerar ganhos imediatos, especialmente junto à pequena burguesia e às classes médias urbanas, que rivalizam com a estratégia de engenharia do caos acionada pela ultradireita e pelos conservadores. Estes se fortalecem no vazio imaginativo das forças progressistas institucionais, oferecendo bandeiras e inimigos claros a serem derrotados.






