Crítica: O Rei de Quase tudo

O Teatro de Rua e a Utopia do Desapego: Uma Análise Crítica de “O Rei de Quase Tudo” no FITICA

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Grupo Rerigtiba | 24 de Maio de 2026 | FITICA

É a terceira vez que “assisto” a esse espetáculo, mas é a primeira que vejo realmente ao vivo na minha frente, pois na primeira estava fotografando o grupo. E, na segunda vez, vi de maneira online um espetáculo gravado. Agora no FITICA, o espetáculo é na rua.

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Analisar “O Rei de Quase Tudo”, espetáculo do celebrado Grupo Rerigtiba, exige de mim mais do que o meu caderno de notas. Exige fôlego para acompanhar o ritmo e a estética de uma obra que já habitou o palco italiano convencional, sobreviveu bravamente ao confinamento das telas digitais durante a pandemia e, agora, no Festival Incrível de Teatro na Infância Capixaba (FITICA), consagrou-se no seu habitat mais desafiador e legítimo: a rua.

Acompanhar essa trajetória é testemunhar a resiliência de um fazer teatral que se recusa a ser domesticado. Se na tela fria do computador a obra se oferecia como um registro heroico de tempos pandêmicos, no calor do asfalto ela se converte em um manifesto vivo. O teatro de rua, historicamente conectado às manifestações mambembes e aos saltimbancos medievais, opera sob a lógica da total vulnerabilidade. Não há cortinas para esconder a cena, muito menos o erro, nem iluminação controlada para mascarar os desafios técnicos. Há apenas o corpo, o espaço e o espectador.

A introdução da peça é um primor de recepção lúdica. De “cara limpa”, as atrizes Sara Lyra e Welida Pontes quebram a chamada quarta parede antes mesmo que o público entenda onde ela ficaria. Um ponto a se falar: mesmo que houvesse muitas crianças, havia também muitos adultos com olhos brilhantes e atentos. As atrizes, munidas de tambor, triângulo e sanfona, entoam o chamado: “Se achegue, minha gente. Uma história vou contar, somos Rerigtiba. Uma história vos ouvir, essa história seus olhinhos vão brilhar.” Essa rima inicial, longe de ser apenas algo infantil, estabelece um pacto estético e imediato com o público da rua. Introduzem-se as palavras de liberdade e reciclagem, preparando o terreno conceitual para o que virá a seguir.

As atrizes realizam uma transição didática fundamental para o público jovem: apontam para as máscaras e explicam que elas darão vida aos personagens. Essa escolha pedagógica desmistifica o fazer teatral sem roubar o encantamento, permitindo que as crianças operem na chave da convenção consciente. É o jogo cênico exposto em sua engrenagem mais pura, preparando a plateia para uma jornada de humor, sátira e profundidade filosófica.

O rei de Quase Tudo no FITICA | Foto: Daniel Bones

A dramaturgia de Sara Lyra, livremente inspirada no clássico livro de Eliardo França, ganha na rua uma agilidade bufonesca contagiante. O enredo acompanha um monarca absolutista que possui terras, ouro, comida e animais, mas que sofre da neurose do acúmulo. Ele quer tudo. Ao aprisionar flores, pássaros, estrelas e o próprio sol, o soberano depara-se com a grande frustração existencial: não se pode enclausurar o perfume, o canto, o brilho ou a luz.

O fidalgo subordinado serve de escada perfeita para o humor ácido que fisga os adultos, enquanto os pequenos se divertem com a palhaçaria física. O domínio de cena de Sara Lyra e Welida Pontes é tamanho que piadas soltas sobre o “Edital de Chamamento” da cultura e as da “Escala 6×1” surgem de forma orgânica, criticando a precarização do trabalho moderno e as relações laborais tóxicas sem desvirtuar o tom de fábula infantil. Vistos como o rei tratava seu empregado.

A concepção visual, assinada por Telma Amaral, utiliza-se da linguagem das máscaras com precisão cirúrgica. As máscaras expressivas delimitam os estados emocionais e as caricaturas do poder, aproximando a encenação da Comedia dell’Arte e das farsas medievais. Os números de mágica inseridos ao longo das buscas por comida funcionam como pontos de virada rítmica, garantindo o dinamismo necessário para prender a atenção de um público jovem.

O grande mérito técnico da produção reside nas transições musicais. O uso da trilha executada ao vivo amarra as cenas com precisão, ditando o tempo da comédia e o tom da fábula. O figurino e a cenografia mambembe são práticos, versáteis e visualmente impactantes, permitindo que a carroça de saltimbanco se transforme em palácio ou em lixeira de reciclagem com poucos gestos cênicos. Trata-se de uma inteligência estética que transforma a escassez de recursos estruturais da rua em potência poética.

Encenar em espaço aberto significa aceitar o imprevisto como coprodutor do espetáculo. Durante a apresentação, alguns incidentes testaram os limites técnicos e éticos do elenco. O primeiro foi o ruído provocado por um morador local e, em outra, uma figura moderna (para o tempo retratado em cena) apareceu: um drone, gerando poluição sonora e distração visual na cena. Em vez de ignorar o fato ou interromper a sessão, as atrizes incorporaram sutilmente o contexto urbano, mantendo a concentração e o foco da plateia através do aumento da energia corporal e vocal, e ainda incluindo o objeto dentro do texto.

O verdadeiro divisor de águas da apresentação, contudo, ocorreu quando a ficção transbordou para a realidade de forma avassaladora. Diante da tirania do rei, que confiscava tudo para si, as crianças da plateia não se contentaram com a passividade do espectador tradicional. Em uma revolta genuína e coletiva, os pequenos invadiram o espaço cênico, questionando o monarca e exigindo a devolução dos bens confiscados. O caos instaurou-se na rua, ameaçando desestruturar por completo a cronologia do texto planejado.

Nesse instante de crise, revelou-se a genialidade e a maturidade técnica do Grupo Rerigtiba. Em vez de reprimir o ímpeto infantil ou forçar o distanciamento, as atrizes tomaram uma decisão cênica brilhante: retiraram as máscaras dos personagens, voltando a ser as contadoras de história de cara limpa. Ao despir-se da ilusão teatral, elas se uniram fisicamente e verbalmente às crianças revoltadas. O texto, a meu ver, foi modificado no calor do momento para canalizar aquela indignação genuína em direção à mensagem central da peça.

O confisco do rei foi ressignificado através de conceitos práticos de reciclagem, compostagem e educação ambiental. As atrizes mostraram que tudo o que havia sido retirado da natureza poderia ser devolvido através da ação coletiva e do cuidado com o meio ambiente. Essa capacidade de improvisação transformou o que poderia ter sido um desastre técnico no momento mais emocionante e pedagogicamente potente da apresentação. Demonstrou-se, na prática, que o público infantil não é um receptor passivo, mas sim uma massa crítica inteligente, politizada e pronta para intervir quando provocada pela arte. Diga-se de passagem, crianças bem inteligentes… tanto que o Rei indagou: “Anotem o nome do fidalgo; esse será candidato ao Ministério da Agricultura.”

Para além do riso e da beleza plástica, “O Rei de Quase Tudo” oferece um campo fértil para a análise sociológica e psicológica profunda. O rei personifica o consumidor contemporâneo, preso em um ciclo infinito de satisfação tardia e desejo obsoleto. Na sociedade de consumidores, as coisas perdem o valor intrínseco e passam a valer pelo status da posse. Quando o rei descobre que ter a lua não o faz dono do luar, ele confronta a falência dessa lógica mercadológica.

O rei de Quase Tudo no FITICA | Foto: Daniel Bones

O desejo do rei é, por definição, insaciável; a posse real do objeto mata o desejo e revela a falta estrutural do indivíduo. A tristeza do monarca ao prender o sol e os pássaros evidencia o sofrimento, descobrindo que o isolamento no topo do poder é apenas outra forma de neurose. Mesmo tendo muito, ele ficou triste, pois não tinha amigos para compartilhar.

O espetáculo caminha para o seu desfecho, resolvendo o conflito com uma delicadeza poética tocante. Auxiliado por seu ajudante, o monarca compreende que a verdadeira soberania não reside no acúmulo, mas na partilha. Ao ordenar a libertação dos pássaros, o rei experimenta, pela primeira vez, o sentimento de paz. A transformação do servo em amigo e parceiro de projetos ecológicos sela o espetáculo com uma mensagem de cooperação, afeto e esperança em um mundo reconstruído pela reciclagem e pelo respeito mútuo. Ele agora tinha tudo, o que era mais importante: a amizade de seu ex-servo, que lhe deu muito além da amizade, o ensinou a reciclar e a criar um mundo novo…. Agora sim, juntos, no novo mundo, eles tinham tudo.

Essa transição da avareza para a solidariedade evoca, no contexto da peça, o rei, que passa boa parte da trama vitimizando-se em sua imensa solidão material, acreditando que o universo lhe deve satisfações. A virada humorística e filosófica da obra reside justamente em mostrar ao monarca que o mundo não vai parar para alimentar o seu ego; ele é quem precisa se mover, desapegar-se e aprender a reciclar as próprias frustrações para encontrar a verdadeira felicidade na coletividade.

O Grupo Rerigtiba entrega uma obra de relevância cênica inquestionável, unindo o rigor técnico da pesquisa corporal à sensibilidade pedagógica necessária para dialogar com as novas gerações de espectadores.

“A verdadeira soberania humana não se consolida na arrogância da posse material absoluta, mas sim na generosidade poética do desapego e na capacidade coletiva de reciclar o amanhã.”

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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