Crítica: Azul

Espetáculo “Azul” da Artesanal Cia de Teatro | 22/05/26 | FITICA

Continua após a publicidade

Fui na abertura do Festival Incrível de Teatro na Infância Capixaba, o FITICA. Fiquei me perguntando o que tinha de tão incrível, e até que me surpreendi, o Sônia Cabral não era mais totalmente o Sônia como conhecíamos, estava todo enfeitado com um designer diferente e adaptado, colorido e diverso. O teatro capixaba se vestiu de infância, mas quem ganhou o presente fomos nós, os adultos que insistem em esquecer como é olhar o mundo pela primeira vez.

Abertura do FITICA | Foto: Daniel Bones

Isso tudo para além do espetáculo, que de qualquer forma, eu sempre digo que um espetáculo não é simplesmente os atores em cena, mas todo o clima de antes e depois.

Continua após a publicidade

E desde a abertura os palhaços e a equipe de apresentação abrem os trabalhos e entretém o público e dá um “esquenta” do que virá. Palhaços, malabaristas, doces, entre outros.

Belas homenagens ao Cleverson Guerrera, e a grande história que ele tem no teatro.

O relógio bate no ponteiro. Pois bem, vamos ao espetáculo Azul. A Artesanal Cia. de Teatro não faz apenas teatro de animação; ela opera uma simbiose técnica rara. O desenho de cena estabelece uma convenção inteligente: Os pais, interpretados por atores mascarados, trazem um carisma impressionante. O uso do mascaramento exige partituras físicas rígidas, e o elenco encontra o timing perfeito entre o timbre vocal e a expressividade corporal para desenhar esses pais bobos, amorosos e profundamente humanos. Enquanto os filhos, Violeta e Azul, são representados por bonecos manipulados.

Na linguagem teatral, os atores que se apresentam sem máscaras ou elementos de ocultação são chamados de “cara limpa”. Aqui, eles dividem a cena com a animação de forma tão orgânica que o olhar do espectador flutua entre o manipulador e a criatura.

A manipulação dos bonecos atinge um nível de precisão cirúrgica. Utilizando o corpo inteiro e até os dedões dos pés (um recurso anatômico pouquíssimo usual e de execução complexa), os atores dão aos bonecos o peso, a hesitação e a leveza de crianças reais.

Azul no FITICA | Foto: Daniel Bones

A voz da boneca Violeta equilibra-se de forma magistral entre um tom “deliciosamente irritante” e a doçura típica da infância, apoiada por vozes complementares vindas da coxia que enriquecem o desenho de som da montagem. Vale ressaltar que a atriz que manipula Violeta não se esconde; ela é a própria personagem. Mesmo transferindo a ação principal para o objeto, suas expressões faciais espelham milimetricamente os sentimentos da boneca.

Apesar de vozes semelhantes, a personagem que nomeia Violeta em sua versão “adulta” não possui as características físicas da boneca da infância (como por exemplo o cabelo roxo). Longe de ser uma falha, essa escolha estética funciona perfeitamente, afinal, estamos lidando com a memória e o território fluido da fabulação, histórias vindas da mente de uma criança.

A estrutura dramatúrgica proposta pela Artesanal é cirúrgica, guiada por uma metáfora temporal que ecoa como um metrônomo. A cenografia, é um espetáculo à parte, estruturada em uma passarela com vários níveis, um relógio ao fundo e elementos que transitam entre o real e o imaginário. O universo imagético é expandido por cenografias em miniatura, como um pequeno piano e uma representação da praia. Se há um detalhe técnico a pontuar, é que a miniatura do piano poderia ter saído de cena durante o ato da praia para limpar a linha de visão, mas nada que comprometa a beleza plástica concebida na cena.

Azul no FITICA | Foto: Daniel Bones

O texto adota a perspectiva de Violeta para introduzir o público no universo de Azul. Inicialmente tomada pelo ciúme natural de primogênita aos quatro anos, Violeta gradativamente se deixa seduzir (quem tem irmãos sabe como é) pela presença singular do irmão. O espetáculo evita o didatismo panfletário ao não lançar o diagnóstico de autismo de forma abrupta; a condição de Azul é construída sutilmente através de suas reações ao lúdico, aos animais e à música.

O ritmo da peça, contudo, apresenta cenas dilatadas que esticam o tempo de duração. Nota-se que a produção investe na dilatação temporal como ferramenta estética (o tempo das ações e as partituras físicas), tentando transformar o próprio tempo em um contador de histórias próprio da cena. Embora conceitualmente refinado, esse recurso pode testar a paciência em determinados momentos. Para alguns passam despercebidos, mas, para mim deu uma agarrada em algumas cenas, no entanto, não foi de todo ruim.

A iluminação não é de grande questão, pois é simples, mas, pontual. Em momentos em que Violeta está com a cena pela visão dela, luzes roxas estão presentes, quando as cenas são dos pensamentos de Azul, luzes azuladas aparecem. Quando os pais assumem a ponta, vemos uma mescla e uma quebra de tons mais quentes.

Azul no FITICA | Foto: Daniel Bones

No palco, a música se torna a linguagem universal de conexão entre os irmãos. Quando Violeta toca o piano, o metrônomo cessa o tempo cronológico e abre espaço para o “Tempo de Kairós” (o tempo dos afetos), onde cada indivíduo se conecta com o mundo em seu próprio ritmo. Como diz a bela metáfora da peça: “As crianças não têm medo do tempo (…) Cada um tem o seu tempo”. Uma bela sacada para nos dizer diretamente que os adultos temem falar sobre o tempo, pois o deles está acabando, e, não viveram todas as histórias e fantasias que queriam; em contraponto, as crianças têm tudo a viver, portanto não tem medo. Essa frase, inclusive dita em cena, funciona como a espinha dorsal da montagem. O diretor conduz o espetáculo utilizando elementos cinematográficos no teatro, sim, os cortes de cena, o foco de luz e a trilha criam uma atmosfera quase fílmica (principalmente quando o tempo para e as duas versões de Violeta se encontram), sem perder a organicidade do palco. O grande acerto da direção é focar a narrativa no olhar de Violeta. É através da sensibilidade (e dos ciúmes iniciais) da irmã que acessamos o mundo particular de Azul. No terceiro ato, o sumiço do menino provoca o clímax: o encontro lírico de Violeta com o Tempo (Kairós), o tempo do coração, ensinando que a conexão humana não segue o relógio de parede, mas a batida dos afetos.

O texto é de uma inteligência sutil: o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é jogado de forma didática ou panfletária na cara do espectador. Ele é construído. É uma revelação em slow-motion, permitindo que o público jovem e adulto sinta o estranhamento e, posteriormente, o acolhimento junto com a protagonista.

A cor azul foi adotada por representar a calma e o equilíbrio, servindo como um porto seguro contra a sobrecarga sensorial-visual que muitos indivíduos no espectro experimentam. Assim como dito no final do espetáculo, Azul foi direcionado como a cor do espectro autista. No espetáculo, a resposta é poética: os faróis iluminam a diferença, e a luz desacelera para que a gente possa, finalmente, enxergar o outro.

“Azul” cumpre a função primordial da crítica teatral: não se limita a rotular o espetáculo como bom ou ruim, mas problematiza e medeia a recepção da obra. O espetáculo é um registro histórico importante de como a arte contemporânea pode abordar a neurodiversidade com lirismo e rigor técnico. O menino que habita em cada espectador adulto sai do Sônia Cabral provocado, tocado pela história de uma família comum que aprendeu a amar na diferença. É uma obra necessária para pais, educadores e jovens que buscam entender que o afeto não precisa de palavras para se fazer compreender, apenas de escuta e tempo.

Para mim, a Conclusão é assim: Como é o Menino Azul que Há em Mim? Azul é uma história de amor entre irmãos unidos pela diferença.  Ao usar a música como estratégia sensorial para fazer Violeta se comunicar com Azul (o menino que não fala, mas sente), a peça acende a nossa própria criança interna. Saí do teatro extremamente sensibilizado e emocionado. Ainda mais para mim, que tenho na família, pessoas dentro do espectro autista, em certos momentos, uma lágrima em meus olhos ensaiou descer, mas, me contive. O que não dava para dizer o mesmo do coração que estava pesado, e, sem saber o que dizer, sem palavras (imagina como isso é difícil para um crítico de teatro). Mas, em tempos de conexões líquidas e diagnósticos rápidos, a Artesanal Cia de Teatro nos lembra que o autismo (ou simplesmente a cor simbolizada pelo azul) não é um muro, mas um mundo singular a ser descoberto, é um tempo. O tempo do metrônomo, o tempo da vida, o Kairós, o tempo do coração… Coração que fez morada nas minhas memórias afetivas, e me permitiu desacelerar o meu próprio metrônomo: uma batida de cada vez.

Continua após a publicidade
Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
19ºC
Máxima
27ºC
Mínima
18ºC
HOJE
25/05 - Seg
Amanhecer
06:07 am
Anoitecer
05:09 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
1.03 km/h

Média
23ºC
Máxima
25ºC
Mínima
21ºC
AMANHÃ
26/05 - Ter
Amanhecer
06:07 am
Anoitecer
05:09 pm
Chuva
0.57mm
Velocidade do Vento
4.2 km/h

Romances de Época com Sotaque Carioca

Ana Morelli Nunes

Leia também