O lado oculto do grão

A saca de café que viaja do interior do Brasil para os portos e, dali, para o mundo carrega consigo uma história que nem sempre é contada nos selos de origem e nas certificações de qualidade. Por trás da fachada do país que é o maior produtor e exportador global da bebida, opera uma indústria paralela silenciosa e lucrativa. O contrabando de grãos verdes, a falsificação de cafés especiais com robusta de baixa qualidade e os sofisticados esquemas de sonegação fiscal movimentam bilhões de reais anualmente, desafiando a fiscalização e colocando em risco a credibilidade de um dos setores mais nobres do agronegócio brasileiro.

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O mercado de café especial, que pode alcançar a marca de 152 bilhões de dólares até 2030, tornou-se um alvo irresistível para criminosos. Em anos de quebra de safra, quando a oferta de grãos de alta qualidade se reduz e os preços sobrem, a tentação de adulterar o produto se torna ainda maior. A prática mais comum é a mistura de grãos arábica, valorizados por sua complexidade sensorial, com robusta ou conilon de qualidade inferior, que custam uma fração do preço. O consumidor paga por um café especial e leva para casa um blend adulterado, sem saber que está sendo enganado.

O fenômeno dos cafés falsificados, apelidados de cafakes no jargão do setor, ganhou contornos alarmantes nos últimos anos. Esses produtos são frequentemente fabricados a partir de impurezas e resíduos do beneficiamento do café legítimo, como cascas, paus e sedimentos que deveriam ser descartados. A indústria recebe o café na forma de grãos verdes, prontos para torra e moagem, mas os falsificadores utilizam materiais de baixíssimo custo para imitar a aparência do pó torrado. A Associação Brasileira da Indústria de Café alerta que esses produtos não têm registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária e podem conter substâncias extremamente prejudiciais à saúde humana. Em 2025, a Anvisa chegou a proibir a fabricação e venda de marcas inteiras por impurezas e presença de toxinas.

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O problema, no entanto, não se restringe à adulteração do produto final. A ponta do iceberg do crime no setor cafeeiro está na sonegação fiscal e no desvio de notas fiscais. Em novembro de 2025, uma operação conduzida pelo Ministério Público do Espírito Santo revelou a existência de uma organização criminosa formada por empresários, produtores rurais, contadores e até mesmo um policial civil. O grupo utilizava empresas noteiras para emitir notas fiscais falsas e simular transações de café, principalmente com destino a Sergipe. O rombo estimado aos cofres públicos foi de 400 milhões de reais, mas com multas e juros, o valor pode ultrapassar 1 bilhão de reais. Quatorze pessoas foram presas em três estados, e as empresas envolvidas terão que responder por crimes de sonegação, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

A escala do problema é impressionante. Estima-se que o volume de café exportado pelo Brasil em 2025 tenha alcançado 40 milhões de sacas, gerando uma receita recorde de 15,5 bilhões de dólares. Paralelamente, as autoridades apreenderam quantidades crescentes de drogas escondidas em carregamentos de café. Em junho de 2025, a Receita Federal interceptou cerca de 1,2 tonelada de cocaína em um contêiner carregado com sacas de café no Porto do Rio de Janeiro, com destino à Alemanha. Essa apreensão deu origem à Operação Off-Grade Coffee, deflagrada em maio de 2026 pela Polícia Federal, que desmantelou uma organização criminosa especializada em ocultar drogas em exportações de café. O grupo usava empresas de fachada, laranjas e complexas transações financeiras para simular operações comerciais lícitas.

Diante desse cenário, a indústria do café busca na tecnologia uma aliada para restaurar a confiança do consumidor e dificultar a ação dos criminosos. A rastreabilidade por blockchain emergiu como a principal ferramenta nessa batalha. A tecnologia de contabilidade distribuída permite que cada lote de café seja registrado em um livro imutável, desde a fazenda até a xícara do consumidor. Cada etapa da cadeia produtiva, da colheita à torra e ao empacotamento, fica registrada em blocos criptografados que não podem ser alterados retroativamente. O consumidor, munido de um código QR ou de um aplicativo, pode verificar a origem exata do grão, a data da colheita, o lote e até mesmo as condições de transporte.

Em abril de 2025, uma exportação de café orgânico brasileiro para o Japão utilizou cem por cento de tecnologia blockchain para apresentar todas as informações de rastreabilidade. A experiência foi bem-sucedida e abriu caminho para que a prática se torne padrão no mercado de cafés especiais. Mais de cem mil sacas de café já foram rastreadas por essa tecnologia no Brasil, e a tendência é que o número cresça exponencialmente nos próximos anos. A blockchain, ao eliminar a possibilidade de falsificação de documentos e de adulteração de informações, torna o contrabando e a sonegação muito mais difíceis de serem executados sem deixar rastros.

A luta contra o crime no setor cafeeiro, no entanto, não se vence apenas com tecnologia. A fiscalização precisa ser intensificada, as penas para os crimes de sonegação e falsificação precisam ser endurecidas, e a cooperação entre os órgãos de controle, como a Receita Federal, a Polícia Federal e os Ministérios Públicos estaduais, precisa ser ampliada. A cadeia do café é longa e complexa, envolvendo produtores, cooperativas, torrefadores, exportadores e varejistas. Cada elo dessa corrente é uma oportunidade para a ação criminosa, mas também é uma oportunidade para o controle e a transparência.

O café brasileiro é um patrimônio nacional, reconhecido em todo o mundo por sua qualidade e diversidade. A imagem do país como fornecedor confiável de grãos especiais é um ativo intangível que levou décadas para ser construído e que pode ser destruído em poucos anos por ações criminosas. A rastreabilidade por blockchain, somada a uma fiscalização rigorosa e a uma conscientização do consumidor, é o caminho mais promissor para garantir que o café que chega à xícara seja exatamente o que o produtor colheu e o que o consumidor escolheu. O combate ao contrabando e à falsificação não é apenas uma questão de justiça fiscal ou de saúde pública, mas de sobrevivência de um dos setores mais importantes da economia brasileira.

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