A sinistralidade do plano de saúde corresponde à relação entre os gastos da operadora com o uso do plano — consultas, exames, terapias e internações — e o valor que ela arrecada em mensalidades. Nos planos empresariais, esse índice é a principal variável do reajuste anual: quanto mais a sinistralidade ultrapassa a meta estabelecida no contrato, maior tende a ser o aumento.
A saúde mental costuma entrar nesse cálculo de forma tardia, quando o sofrimento já se transformou em ida ao pronto-socorro, em exames para sintomas sem causa física aparente ou em internação. Ao longo dos próximos parágrafos, mostra-se onde esse custo aparece, onde ele não aparece e o que muda quando o cuidado é avaliado pelo desfecho, e não pelo acesso.
O que é sinistralidade do plano de saúde?
O cálculo é feito da seguinte maneira: custo assistencial dividido pela receita de mensalidades, multiplicado por 100. Em um exemplo hipotético, se uma empresa paga R$ 1 milhão por ano ao plano e o uso das pessoas cobertas soma R$ 800 mil, a sinistralidade chega a 80%.
Todo contrato coletivo empresarial estabelece uma meta técnica de sinistralidade. Se o índice fica acima dessa meta, a operadora ganha argumento para solicitar um reajuste maior. Se fica abaixo, a empresa passa a ter argumento para negociar.
Como a sinistralidade afeta o reajuste do plano empresarial?
Nos planos coletivos empresariais, o reajuste não obedece ao teto que a ANS define para os planos individuais. Ele é negociado entre a empresa e a operadora com base em dois componentes principais: a variação dos custos médico-hospitalares do período e a sinistralidade do próprio contrato. Para contratos com menos de 30 vidas, a ANS determina que o reajuste seja calculado em agrupamento, somando contratos pequenos da mesma operadora.
Quando o reajuste vem alto, a área financeira costuma contar com três alavancas: trocar de operadora, aumentar a coparticipação ou rever coberturas. São escolhas legítimas e, em alguns casos, necessárias. O problema é que todas olham para o preço do plano, e nenhuma se volta para o motivo pelo qual as pessoas estão usando tanto.
Saúde mental pesa na sinistralidade?
Pesa, e quase sempre de maneira indireta. O sofrimento psíquico que não recebe cuidado precoce raramente chega ao plano com o nome correto. Ele surge como idas frequentes ao pronto-socorro por dor no peito que, na verdade, era crise de ansiedade; como uma série de exames para queixas físicas; como uso de medicação sem acompanhamento e, nos casos mais graves, como internação. Quando finalmente é identificado, já chegou tarde.
O custo mais elevado, no entanto, não está no plano. O Anuário do Censo de Saúde Mental Vittude organiza o custo do adoecimento em seis frentes: presenteísmo, afastamentos, turnover, passivos trabalhistas, reputação e erros operacionais. A sinistralidade é apenas a parte que tem fatura.
O presenteísmo é o maior exemplo. No Censo, com ano-base 2025, 174.475 respondentes em 35 empresas, o presenteísmo médio foi de 32%. Na leitura financeira do Anuário, a cada R$ 100 pagos em salários, R$ 32 não se convertem em trabalho efetivo. Esse valor não aparece em nenhum relatório de operadora. O modo de medi-lo está detalhado no artigo sobre presenteísmo.
Os afastamentos também ficam fora da fatura do plano. O Brasil registrou 546.254 afastamentos por transtornos mentais em 2025, alta de 15,6%. Quando o afastamento tem nexo com o trabalho, ele pesa no Fator Acidentário de Prevenção (FAP), multiplicador que varia de 0,5 a 2,0 sobre a alíquota do RAT e incide sobre a folha inteira. É assim que o prejuízo se dilui no orçamento: a sinistralidade fica em uma linha, o FAP em outra e o presenteísmo em nenhuma.
Acesso não é cuidado: por que só oferecer o plano não resolve
A maior parte das empresas já oferece algum tipo de acesso à saúde mental, seja pela cobertura do plano, por um programa de apoio ao empregado ou por uma plataforma de terapia. Trata-se de um avanço real em relação a dez anos atrás.
O problema é que acesso mede a porta aberta, não o que acontece depois dela. Uma sessão feita uma única vez e abandonada, uma rede com longa espera ou um atendimento que não acompanha a evolução do quadro geram custo sem produzir desfecho. Somado a um ambiente que continua gerando sofrimento, o programa vira enxugar gelo: trata quem adoeceu enquanto o trabalho segue adoecendo os próximos.
Cuidado que não gera desfecho é desperdício, mesmo quando a sessão é barata. Por isso a pergunta do financeiro precisa mudar de foco: quanto custa a sessão ou quanto custa a pessoa que não melhorou?
O que empresas mediram quando trataram o tema como programa
Dois cases inscritos no Vittude Awards 2025 mostram o outro lado da conta. São resultados dessas empresas, nos períodos que elas relataram, e não uma promessa para nenhuma outra.
O Grupo HEINEKEN, com 13 mil colaboradores e dependentes cobertos, estruturou a Jornada da Felicidade, que inclui serviços de suporte psicológico, uma rede de mais de 1.200 embaixadores e uma diretoria dedicada ao tema. No período relatado, a empresa registrou 72% de adesão aos atendimentos psicoterapêuticos e psiquiátricos via operadora de saúde, redução de 66% dos casos graves e ROI de 115,7% nos investimentos em saúde mental, com mais de R$ 400 mil aplicados em atendimentos.
A Suzano, com mais de 23 mil colaboradores próprios e 15 mil parceiros, potencializou em 2024 o programa Faz Bem, que integrou um censo psicossocial aos exames periódicos. Até junho de 2025, a plataforma de saúde mental do programa somava 7.482 sessões com NPS de 85. O investimento, superior a R$ 2 milhões por ano, apresentou ROI positivo.
O que os dois casos têm em comum não é o fornecedor nem o tamanho do orçamento. É que ambos mediram. Sabiam quanto investiam, quantas pessoas usavam e o que mudou no indicador que importava.
Como medir o retorno de um programa de saúde mental
Antes de começar, é preciso registrar a linha de base. Sem o “antes”, nenhum “depois” convence o financeiro. Em seguida, devem ser acompanhadas quatro famílias de indicadores, sempre de forma agregada:
- Acesso e adesão: quantas pessoas usam o cuidado oferecido e quantas seguem até o fim do acompanhamento.
- Desfecho: evolução clínica agregada e redução de casos graves, medidas por quem presta o cuidado e entregues à empresa sem identificar ninguém.
- Custo: sinistralidade associada à saúde mental, número e duração de afastamentos, evolução do FAP e turnover.
- Ambiente: riscos psicossociais, segurança psicológica e presenteísmo, medidos com instrumento validado, porque é o ambiente que define quantas pessoas vão precisar de cuidado no ano seguinte.
Dois cuidados evitam conclusões erradas. Compare períodos equivalentes, com a mesma população. E não peça dado individual: a empresa tem direito à inteligência sobre o conjunto, não à intimidade de cada pessoa. Conectar esse acompanhamento ao restante da gestão de saúde exige considerar o que é saúde ocupacional e por que o cansaço mental é um problema que a empresa precisa levar a sério.
Perguntas frequentes
O que é sinistralidade do plano de saúde?
Trata-se da relação entre o custo gerado pelo uso do plano e o valor pago em mensalidades, expressa em porcentagem. Se a empresa paga R$ 1 milhão e o uso soma R$ 800 mil, a sinistralidade é de 80%.
Como a sinistralidade afeta o reajuste do plano empresarial?
Nos planos coletivos empresariais, o reajuste é negociado e leva em conta a variação dos custos médico-hospitalares e a sinistralidade do contrato. Quanto mais o índice ultrapassa a meta técnica, maior tende a ser o reajuste.
Saúde mental pesa na sinistralidade?
Sim, em geral de forma indireta, por meio de idas ao pronto-socorro, exames para sintomas físicos e internações quando o sofrimento não é cuidado cedo. O custo maior, como presenteísmo e afastamentos, fica fora da fatura do plano.
O que a empresa pode fazer além de trocar de operadora?
Tratar a saúde mental como programa: mapear os riscos do ambiente, oferecer cuidado que acompanhe a evolução das pessoas e medir desfecho, custo e ambiente de forma agregada.
Como medir o retorno de um programa de saúde mental?
Registrando a linha de base e acompanhando acesso e adesão, desfecho clínico agregado, custo (sinistralidade, afastamentos, FAP, turnover) e ambiente (riscos psicossociais, segurança psicológica, presenteísmo) em períodos equivalentes.
A conta completa
Olhar a sinistralidade apenas no momento do reajuste é como olhar o extrato do cartão sem saber o que foi comprado. O número chega, mas a decisão que o produziu já passou. Esperar o afastamento para agir é como esperar o infarto para cuidar do coração.
O Anuário do Censo de Saúde Mental Vittude reúne a conta inteira, com presenteísmo, burnout, segurança psicológica e o custo do adoecimento em 35 empresas de grande porte.
Fontes
- Censo de Saúde Mental Vittude, ano-base 2025 (N = 174.475 respondentes, 35 empresas). Anuário Censo Vittude: https://empresas.vittude.com/anuario-censo-saude-mental/
- Presenteísmo medido pelo Work Limitations Questionnaire, Short Form (WLQ-SF), conforme o Anuário
- Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), regras de reajuste de planos coletivos e agrupamento de contratos com menos de 30 vidas
- Ministério da Previdência Social: 546.254 afastamentos por transtornos mentais em 2025 (+15,6%), dado citado por Tatiana Pimenta em “O que a NR-1 vai mudar (e o que não vai)”, Época Negócios, março de 2026
- eBook Vittude Awards 2025: cases Grupo HEINEKEN (Jornada da Felicidade) e Suzano (programa Faz Bem)







