Com a previsão de que o aquecimento global ultrapasse 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, tornam-se necessárias reduções urgentes e ambiciosas das emissões de gases de efeito estufa. O objetivo é diminuir a intensidade e a duração dessa ultrapassagem e permitir que a temperatura global volte a 1,5 °C até o fim do século, conforme conclui um novo relatório do PNUMA divulgado na quarta-feira (21).
O Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2026: O Ponto de Retorno examina um cenário de ultrapassagem mínima do limite de 1,5 °C. Nesse cenário, o pico de aquecimento por volta de meados do século fica limitado a 1,7–1,8 °C, e a temperatura global retorna a 1,5 °C ou menos até 2100, com cerca de 50% de probabilidade.
Para seguir essa trajetória, as emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) precisariam cair 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, sempre em relação aos níveis de 2025.
Em contrapartida, a implementação integral das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) reduziria as emissões em apenas 5% a 8% até 2030 e em 11% a 15% até 2035, também comparado aos níveis de 2025.
“Ultrapassar a meta não significa desistir. Ainda podemos limitar ao máximo o aumento da temperatura, reduzir o tempo em que ela permanecerá acima de 1,5 °C e fazer com que as temperaturas voltem a ficar abaixo desse patamar até o fim do século”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em mensagem sobre o relatório.
“O novo Relatório sobre a Lacuna de Emissões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostra o que será necessário para isso: reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa em 18% até 2030 e em 45% até 2035, em comparação com os níveis de 2025.”
Ainda assim, o relatório conclui que existem mais oportunidades do que nunca para acelerar a ação climática. Desde a adoção do Acordo de Paris, a geração de energia renovável cresceu rapidamente, o aumento da oferta total de energia proveniente do carvão e do petróleo foi menor do que o projetado, e políticas climáticas reduziram as emissões em muitas regiões do mundo.
“Cada fração de grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5 °C aumentam os impactos e riscos climáticos, como as enchentes, ondas de calor e incêndios florestais letais que afetaram muitos países neste ano”, disse Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA.
“Por isso, precisamos mobilizar todos os esforços para minimizar o pico de aquecimento e fazer com que a temperatura global retorne a 1,5 °C até o fim do século. Isso é possível.”
“Temos inúmeros casos de sucesso que mostram que as emissões podem ser reduzidas rapidamente. Agora, cabe às nações implementar com urgência políticas capazes de promover reduções rápidas, profundas e contínuas das emissões, colocando o mundo no caminho certo para um clima mais estável e economias e sociedades mais estáveis.”
Projeções de temperatura continuam elevadas
O relatório conclui que, mantidas as políticas atuais, o aquecimento global poderá chegar a 2,8 °C neste século e continuar aumentando depois. Se todas as NDCs forem implementadas e esforços semelhantes forem mantidos, o aquecimento ficaria limitado a 2,6 °C.
Esses resultados são mais desfavoráveis do que as projeções apresentadas no ano passado, por causa da retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e da revisão das estimativas de emissões históricas. As novas NDCs apresentadas desde a publicação do relatório anterior tiveram impacto desprezível nessas projeções.
Mesmo no cenário mais otimista, em que todas as NDCs e as metas adicionais de neutralidade de emissões líquidas sejam cumpridas, o aquecimento global ainda ficaria limitado a apenas 2,1 °C neste século.
Sem ações urgentes, manter o pico de aquecimento abaixo de 1,7 °C a 1,8 °C logo se tornará impossível. A cada cinco anos de emissões de CO₂ nos níveis atuais, o pico do aquecimento sobe cerca de 0,1 °C.
Além disso, o cenário de menor ultrapassagem possível da meta de 1,5 °C exige a remoção e o armazenamento permanente de aproximadamente 320 gigatoneladas de CO₂ da atmosfera ao longo deste século. Esse volume equivale a cerca de oito anos das emissões globais de CO₂ registradas em 2024. Contudo, desafios socioeconômicos e tecnológicos tornam incertas as chances de alcançar esse objetivo.
Iniciativas climáticas bem-sucedidas precisam ser ampliadas
Voltar a 1,5 °C ou menos ainda é possível, sobretudo porque há evidências crescentes de que políticas climáticas adotadas em diferentes partes do mundo podem, e de fato têm conseguido, reduzir as emissões. O relatório associa a implementação ou o fortalecimento de políticas climáticas a dezenas de mudanças estruturais em países desenvolvidos e em desenvolvimento, com reduções significativas das emissões.
Mais de 220 avaliações de políticas públicas oferecem evidências adicionais sobre quais medidas funcionam. As políticas avaliadas no setor de eletricidade reduziram as emissões em uma média de 9%, enquanto instrumentos econômicos, incluindo sistemas de comércio de emissões e impostos sobre carbono, alcançaram reduções de 5% a 13% em diferentes setores durante os períodos analisados.
Ainda assim, esses sucessos continuam concentrados em setores, países e períodos específicos. Para colocar o mundo na trajetória de menor ultrapassagem possível da meta de 1,5 °C, é preciso replicar, ampliar e sustentar esses resultados positivos.
Acelerar a implementação das metas do Balanço Global
Na primeira edição do Balanço Global (GST), os países concordaram em triplicar a capacidade de energia renovável e dobrar a taxa anual de melhoria da eficiência energética até 2030, além de promover a transição para longe dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos, reduzir as emissões não relacionadas ao CO₂, interromper e reverter o desmatamento e a degradação florestal, entre outras medidas.
No entanto, as taxas recentes de variação em todos os indicadores que acompanham as emissões absolutas de GEE apontam na direção errada. Isso inclui as emissões de CO₂ dos sistemas energéticos, as emissões do transporte rodoviário e as emissões não relacionadas ao CO₂, especialmente as de metano. Embora os cenários baseados nas políticas atuais projetem que algumas dessas emissões se estabilizem até 2030, nenhum deles indica reduções na velocidade e na escala necessárias para minimizar a magnitude e a duração da ultrapassagem da meta de 1,5 °C.
A segunda edição do GST pode avançar a partir dos compromissos assumidos na primeira ao reafirmar as áreas prioritárias de ação para mitigação, ampliar as metas quantitativas para 2035 e 2040 e tornar as ações já previstas mais concretas, por meio de objetivos mais claros e, sempre que possível, quantificados.
O relatório apresenta uma avaliação preliminar dessas possíveis extensões para 2035 e 2040, alinhadas ao cenário de menor ultrapassagem possível da meta de 1,5 °C.
Para alcançar a meta de triplicar a capacidade global de energia renovável e dobrar a taxa anual de melhoria da eficiência energética, uma extensão desse objetivo até 2035 implicaria, no mínimo, triplicar a capacidade de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis e reduzir a intensidade energética primária do PIB em pelo menos 30% em relação aos níveis de 2025. Para 2040, essas estimativas aumentariam para, no mínimo, 4,5 vezes e pelo menos 40%, respectivamente.
A boa notícia é que, desde a adoção do Acordo de Paris, a capacidade global de geração de eletricidade renovável cresceu em um ritmo três vezes superior ao previsto, enquanto a expansão da energia solar fotovoltaica aumentou sete vezes mais do que o antecipado.
A continuidade dessas tendências, apoiada por políticas adicionais, colocaria o mundo na trajetória necessária para triplicar a capacidade de energia renovável até 2030 e elevar a participação da energia eólica e solar na geração de eletricidade a níveis compatíveis com o cenário de menor ultrapassagem possível da meta de 1,5 °C.
Ampliar a meta relacionada à transição para longe dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos exigiria, globalmente, uma redução da participação de carvão, petróleo e gás na oferta total de energia em, no mínimo, 55%, 15% e 5%, respectivamente, até 2035, em comparação com 2025. Para 2040, seriam necessárias reduções de pelo menos 75%, 30% e 35%, respectivamente.
Ao mesmo tempo, a geração de eletricidade a partir do carvão teria de cair pelo menos 75% até 2035, em relação aos níveis de 2025, e ser praticamente eliminada em escala global até 2040.
As emissões de metano precisariam ser ao menos 25% inferiores aos níveis de 2025 até 2035 e ao menos 40% inferiores até 2040.
O que pode ser feito
A mudança climática não é uma ameaça distante.
É uma realidade que impacta o presente e o futuro da humanidade na Terra, lar compartilhado de todos.
Todas as pessoas podem apoiar a #AçãoClimática e ajudar a minimizar os impactos da mudança global do clima em comunidades, cidades e na natureza.
Algumas orientações das Nações Unidas incluem:
- Pressionar as autoridades a adotarem políticas e práticas para a redução das emissões de gases de efeito estufa e a investirem nas capacidades de adaptação das cidades aos efeitos da mudança do clima.
- Fazer escolhas sustentáveis no dia a dia e colocar em prática os cinco pilares do conceito #ResíduoZero: repense, recuse, reduza, reutilize, recicle.
- Buscar mais informações sobre as cadeias de produção e dar preferência a produtos e empresas que adotam práticas sustentáveis, incluindo a proteção dos ecossistemas e da biodiversidade.
- Informar-se e compartilhar conhecimento com pessoas próximas e familiares. A conscientização é o primeiro passo para a mudança.
- Apoiar e participar de iniciativas e organizações que atuam na restauração de ecossistemas degradados pela ação humana.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) é a principal voz global em questões ambientais. A organização exerce liderança e promove parcerias em prol da proteção do meio ambiente, inspirando, informando e capacitando países e povos a melhorar sua qualidade de vida sem comprometer o bem-estar das futuras gerações.






