A Copa do Mundo fez crescer o número de apostadores e elevou o valor médio dos depósitos nos sites de apostas, as bets. O resultado, no entanto, ficou abaixo do que o setor projetava, em parte pela eliminação precoce da seleção brasileira e pela crise de imagem provocada pelas propagandas exibidas durante as transmissões.
Segundo Leonardo Baptista, CEO da Pay4Fun, instituição de pagamentos especializada em apostas, os maiores avanços ocorreram no número de pessoas apostando e na quantidade de depósitos, mas o valor depositado por pessoa não subiu de forma significativa. Enquanto a Pay4Fun e a H2 Gambling Capital, principal consultoria do setor, ainda consolidam os dados sobre apostas no país, informações preliminares da plataforma financeira Klavi indicam que o número de apostas avançou quase 300% durante a Copa, na comparação com maio, mês sem partidas do torneio.
O setor viveu picos históricos de transações durante a competição, e as instituições de pagamento já haviam se preparado para essa demanda, segundo Baptista. Ele descreve que, cerca de uma hora antes dos jogos, o volume de transações cresce continuamente até um minuto antes da partida, e cai assim que a bola rola. De acordo com o levantamento da Klavi, o valor médio dos depósitos subiu de R$ 188 antes do mundial para R$ 245,05 durante o campeonato, com picos acima de R$ 400 nas vésperas dos jogos do Brasil. No dia da final entre Espanha e Argentina, no domingo, dia 19, o valor caiu para R$ 172.
Baptista afirma que 60% dos apostadores depositam menos de R$ 100, com base em dados do Ministério da Fazenda, e que a maior parte dos gastos se concentra nos 10% que mais depositam. Ele pondera que nem todos esses apostadores têm dependência, já que existem pessoas com recursos maiores disponíveis para apostar.
Outro ponto de tensão para o setor foi a reação do governo Lula, além de estados e municípios, contra a publicidade de jogos de azar durante a Copa. Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias, afirma que algum nível de restrição já era esperado às vésperas das eleições, mas o setor teme que os anúncios recentes sejam o início de uma onda de retaliações que desconsidera os efeitos negativos das restrições. As bets, assim como a Advocacia-Geral da União, argumentam que limitar a publicidade dos operadores autorizados, que pagam impostos e uma licença de R$ 30 milhões, pode fortalecer o mercado clandestino de apostas ao reduzir a visibilidade dos sites licenciados.
Ainda antes da Copa, Ed Birkin, CEO da H2 Gambling Capital, já havia alertado que o mercado brasileiro apresentava excesso de publicidade e patrocínios combinado à falta de normas, o que resultaria em reação de políticos e da população, com restrições publicitárias previsíveis. Foi Birkin quem estimou que o evento da Fifa geraria um excedente de R$ 20 bilhões em depósitos nas bets neste ano, projeção que ele agora avalia ter ficado um pouco abaixo do previsto.
Segundo o Ministério da Fazenda, a experiência do torneio nos Estados Unidos mostrou oportunidades de aperfeiçoamento das normas já existentes. A pasta editou duas portarias para reforçar as regras de publicidade do setor e ampliar os deveres dos agentes envolvidos na divulgação de apostas, criando mecanismos adicionais de informação e proteção ao consumidor, sem alterar os princípios que orientam a regulamentação federal desde 2023. Desde a sexta-feira, dia 17, toda ação de comunicação, publicidade ou marketing de apostas precisa trazer uma das frases de advertência definidas pelo ministério sobre os riscos de dependência e de perda financeira.
Apesar das críticas frequentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva às casas de apostas, o tratamento do tema pelo governo mudou quando chegou ao Ministério da Justiça, motivado pela repercussão negativa nas redes sociais dos anúncios de bets na CazéTV e por reclamações de consumidores. A primeira evidência em um processo administrativo da Secretaria Nacional do Consumidor foi uma página de memes vista mais de 2 milhões de vezes. O influenciador Hugo Freitas, da conta FilosofiaInfinita, afirmou que o canal estaria induzindo 3 milhões de pessoas a apostar, com base em análise dos anúncios de jogos de azar em 16 partidas. A CazéTV, que teve três bets entre suas patrocinadoras na transmissão da Copa, nega irregularidades e argumenta que seus anúncios respeitaram os limites do produto oferecido pelas casas de apostas, e que análises esportivas feitas por narradores e comentaristas não configuram publicidade nos termos das normas aplicáveis.
O episódio teve efeito cascata nas redes sociais. O número de menções a bets nas plataformas bateu recorde em junho, com pico de 73 mil menções no dia 25, segundo levantamento do Projeto Brief.
Para Luã Cruz, diretor de litigância estratégica da entidade de direitos digitais Ctrl+Z, o episódio guarda semelhança com o efeito gerado pelo vídeo Adultização, do influenciador Felca, sobre a regulação de redes sociais para proteção de crianças e adolescentes. Depois que o documentário ultrapassou 30 milhões de visualizações no YouTube, o Congresso aprovou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. Segundo Cruz, é um padrão recorrente da regulação digital, avanços costumam vir só depois de um escândalo abrir brecha para mudanças, como também ocorreu com a aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados após o caso Cambridge Analytica. Para o advogado, o avanço no caso das bets ainda é limitado. O movimento Brasil Contra as Bets pede a aprovação de um projeto de lei suprapartidário para impedir que casas de apostas impulsionem publicações nas redes sociais e patrocinem atletas, clubes, transmissões ou eventos esportivos.
A pressão também ocorre na Justiça. A 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor pede a suspensão dos anúncios da bet Blaze veiculados pela influenciadora Virgínia Fonseca, que tem 56 milhões de seguidores. A Justiça do Distrito Federal negou o pedido de antecipação de tutela na última quinta-feira, dia 16, por não identificar desrespeito flagrante às normas de divulgação de jogo de azar. O promotor Paulo Roberto Binicheski, autor da ação civil pública por propaganda abusiva, afirma que o Ministério Público trabalha em conjunto com a Fazenda e com a Senacon para promover mudanças substanciais no atual marco regulatório.






