A política na pauta musical

Vivemos, no Brasil e no mundo, um momento em que se realizam várias eleições. Além dos dois turnos em nosso país, tivemos as midterms nos Estados Unidos, a nova formação no parlamento Israelense e, no fim deste mês, a Espanha passará por seu processo eleitoral.

Continua após a publicidade

Durante esse tempo muitas pessoas comuns usaram as redes sociais para se manifestar de um lado ou de outro no espectro político. Artistas e celebridades também fizeram o mesmo, apesar de muitos acharem que a neutralidade seria a melhor postura em ocasiões como essas. Não se pode negar, no entanto, que até o não posicionamento é uma forma de manifestação política.

Todos sabem que a música sempre serviu como uma poderosa ferramenta de expressão política, protesto e mobilização social. Ao longo da história, diversos artistas utilizaram sua arte para questionar governos, denunciar desigualdades, defender direitos humanos ou apoiar ideologias específicas.

Continua após a publicidade

Sempre que tocamos nesse assunto, nos lembramos dos anos de chumbo da ditadura militar. Naquele tempo, a censura era rigorosa e exigia dos artistas muita criatividade e jogo de cintura para verem seus trabalhos liberados pelos censores.

A canção Cálice, de Gilberto Gil e Chico Buarque, por exemplo, valeu-se de uma passagem bíblica para tentar escapar da censura e criticá-la. Apesar de ser composta em 1973 e ser apresentada no festival Phono do mesmo ano, Cálice foi censurada e só voltou a ser tocada nas rádios cinco anos depois.

Chico Buarque e Gilberto Gil – Cálice (áudio censurado) Phono 73

Quando se fala em engajamento político, não podemos deixar de mencionar Para não dizer que não falei de flores. De autoria de Geraldo Vandré, a música se transformou em um verdadeiro hino de resistência pacífica contra o autoritarismo nos anos 60. Ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968, mas teve a execução pública proibida pelo famigerado Ato Institucional nº 5.

Geraldo Vandré (ao vivo no Maracanãzinho)

Logo após o processo de redemocratização, a censura caiu, mas os artistas não baixaram a guarda. A liberdade conquistada deu vazão a uma série de canções de conteúdo crítico ao cenário político e social. As primeiras “vítimas” dessa onda foram instituições ligadas à repressão militar do regime autoritário no Brasil. É o caso de Polícia, dos Titãs, e Veraneio vascaína, do Capital Inicial.

Polícia

Veraneio Vascaína

Na música clássica, a manifestação política mais conhecida foi uma sinfonia escrita por Ludwig van Beethoven em homenagem a Napoleão Bonaparte. Trata-se da Sinfonia número 3 em mi bemol maior, opus 55, Eroica.

Naquela época, final do século XVII e início do XIX, a Europa passava por transformações políticas. Em 1789, houve a Tomada da Bastilha e a Revolução Francesa. A notícia dos dois eventos chegou a Beethoven carregada de entusiasmo em torno de ideias como liberdade e direitos individuais.

Por estar exposto a esse ambiente de efervescência, Beethoven passou a acompanhar com interesse os desdobramentos dos fatos em desenvolvimento na França. Naquele momento, a ascensão de Napoleão Bonaparte parecia representar a concretização desses ideais, e suas campanhas militares e sua rápida ascensão política despertaram admiração em toda a Europa.

Beethoven via em Napoleão a superação da velha ordem aristocrática e a promessa de uma nova era baseada em mérito e liberdade. Essa admiração fez com que o compositor alemão dedicasse a Sinfonia número 3 a Bonaparte.

Isso tudo, porém, mudou quando chegou a notícia de que Napoleão se proclamou imperador da França. A indignação de Beethoven diante desse relato foi tanta que ele retirou a dedicatória feita ao novo monarca francês.

Beethoven: 3. Sinfonie (»Eroica«) ∙ hr-Sinfonieorchester ∙ Andrés Orozco-Estrada

Independentemente da época ou do país, o fato é que os músicos fazem parte de uma sociedade e participam de sua dinâmica. Logo, não é de se estranhar que suas músicas reflitam seu modo de ver o mundo e suas perspectivas políticas, mesmo que aparentem uma certa neutralidade.

Continua após a publicidade
Ulisses Mantovani
Ulisses Mantovani
Bacharel em Música da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), violeiro, compositor e Servidor Público Estadual

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
27ºC
Máxima
28ºC
Mínima
23ºC
HOJE
07/11 - Sáb
Amanhecer
04:56 am
Anoitecer
05:53 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
18.5 km/h

Média
24ºC
Máxima
27ºC
Mínima
21ºC
AMANHÃ
08/11 - Dom
Amanhecer
04:55 am
Anoitecer
05:53 pm
Chuva
17.3mm
Velocidade do Vento
40.82 km/h

Nada deu errado

Ludimila Nunes Mantovani

Leia também