Nesta terça-feira, os norte-americanos compareceram às urnas para as eleições de meio de mandato, que funcionarão como uma avaliação do segundo mandato do presidente Donald Trump. Pesquisas e analistas independentes apontam os democratas como favoritos a retirar dos republicanos o controle da Câmara dos Representantes, enquanto o controle do Senado segue indefinido.
A briga pelo Senado ocorre em quase 10 disputas acirradas espalhadas pelo país, a maior parte delas em redutos republicanos.
O histórico joga contra os republicanos de Trump: o partido do presidente perdeu espaço no Congresso em todas as eleições de meio de mandato desde a Segunda Guerra Mundial, com apenas duas exceções. A aprovação de Trump oscila perto dos menores patamares já registrados, afetada pela insatisfação profunda dos eleitores com a guerra contra o Irã e pelo consequente aumento dos preços dos combustíveis.
Não resta dúvida de que o pleito deste ano tem Trump como centro, já que ele está há quase dois anos em seu segundo mandato. O próprio Trump repetiu a apoiadores o pedido para “fingirem que eu estou na cédula”, mensagem que os líderes democratas ecoaram com satisfação.
Em entrevista à televisão na manhã desta terça-feira, Trump destacou o que apresentou como suas conquistas e demonstrou otimismo em relação aos correligionários.
Em declarações que pareciam destinadas a influenciar eleitores insatisfeitos com o apoio dos EUA a Israel, Trump anunciou a intenção de suspender o financiamento anual prometido de US$3,8 bilhões a Israel após o fim deste ano, mas não ficou claro como faria isso, já que uma lei de 2020 define os níveis de financiamento.
A aliança estreita entre EUA e Israel tem sido foco especial em Michigan, onde o democrata progressista Abdul El-Sayed conduz uma campanha ao Senado acompanhada de perto.
O presidente tem buscado mobilizar sua base com mais de duas dúzias de comícios desde o início de outubro, a maioria em Estados onde venceu com facilidade em 2024. Ele também ofereceu um incentivo inédito: a proposta de um cheque de US$5.000 para cada adulto norte-americano caso os republicanos mantenham o controle do Congresso, que teria de aprovar esse pagamento.
Liderados por Trump, os republicanos têm retratado os candidatos democratas como radicais, antiamericanos e até comunistas.
Mas as pesquisas de opinião mostram que os eleitores estão mais preocupados com o custo de vida e desaprovam a forma como Trump tem tratado essa questão. Suas tarifas amplas sobre importações, muitas delas consideradas ilegais pela Justiça, e sua decisão de atacar o Irã em fevereiro elevaram os preços para os consumidores. Ao mesmo tempo, candidatos republicanos têm encontrado dificuldade para se distanciar de um presidente que exige lealdade e raramente admite erros.
Em um centro de votação de um bairro de maioria negra no noroeste de Detroit, Natalia Towns, 34 anos, disse não considerar sinceros os esforços de Mike Rogers, candidato republicano ao Senado, para conquistar os eleitores negros, e afirmou sentir que El-Sayed precisa fazer mais para reduzir os custos.
“Eu realmente sinto que a saúde é importante, os preços da gasolina estão altos, os alimentos estão muito caros”, disse.
Trump envia observadores eleitorais
Observadores jurídicos e democratas alertaram que Trump, que há muito tempo alega falsamente que as eleições nos EUA são fraudadas, pode tentar contestar os resultados desta terça-feira caso os republicanos percam.
O Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA informou nesta terça-feira que mobilizaria 1.000 monitores e observadores eleitorais para todos os 50 Estados, no que chamou de maior iniciativa de monitoramento do dia da eleição da história.
Os democratas criticaram o plano, considerando-o uma potencial forma de intimidação aos eleitores. Em cerca de dois terços das jurisdições listadas pelo departamento, os eleitores apoiaram a democrata Kamala Harris em vez de Trump na eleição presidencial de 2024, segundo uma análise da Reuters.
Todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados dos EUA estão em jogo, além de 35 das 100 cadeiras do Senado, embora a maioria das disputas não seja considerada acirrada.
Os democratas têm pouca margem para erros. O partido precisa defender todas as suas cadeiras atuais e, ao mesmo tempo, conquistar pelo menos dois Estados que votaram em Trump por uma margem de dois dígitos há dois anos: Alasca, Iowa, Kansas, Nebraska, Ohio, Carolina do Sul e Texas.
As pesquisas de opinião mostram que os democratas têm uma vantagem estreita ou estão a uma distância mínima nesses Estados.
A disputa pelo Senado em Michigan entre El-Sayed, de 42 anos, e Rogers, de 63, representa um teste de grande visibilidade para verificar se os ataques dos republicanos com base na identidade — El-Sayed seria o primeiro senador muçulmano do país — se mostram eficazes em um Estado decisivo.
Uma vitória de El-Sayed, que enfrentou gastos de milhões de dólares por parte de grupos ligados a Israel e defende políticas como o sistema universal de saúde, também seria vista como um impulso para a ala esquerda do Partido Democrata antes da eleição presidencial de 2028.
Sandra Riley, moradora de Detroit de 60 anos que usava uma camiseta com a imagem de John Lewis, ícone dos direitos civis, disse que apoiar El-Sayed era um voto no “menor dos dois males”, embora tivesse prestado atenção às preocupações de alguns líderes judeus sobre as críticas contundentes de El-Sayed à ocupação militar de Israel nos territórios palestinos e à guerra em Gaza.
“De jeito nenhum o Mike Rogers fala em nome da população negra da cidade de Detroit, que é onde eu moro”, disse Riley. “Ele tem outros interesses, então votei no Abdul El-Sayed.”
A disputa pelo Senado no Alasca entrou em turbulência após o New York Times noticiar que a campanha da candidata democrata Mary Peltola, de 53 anos, ajudou a recrutar um terceiro candidato que tem o mesmo nome e sobrenome de seu adversário republicano, Dan Sullivan, de 61 anos.
Peltola negou qualquer envolvimento. O Departamento de Justiça de Trump iniciou uma investigação criminal sobre as alegações e entrou com uma ação judicial para impedir a certificação dos resultados eleitorais, embora a Justiça tenha indeferido essa última medida.
Além das ações no Alasca, o Departamento de Justiça de Trump entrou com uma ação na Califórnia para bloquear cédulas que, segundo ele, podem ser inválidas — um rompimento com décadas de prática destinada a proteger as eleições de interferência política. A Suprema Corte dos EUA rejeitou rapidamente o pedido do governo por uma liminar no caso.
No Texas, o candidato democrata ao Senado James Talarico, de 37 anos, fez seu partido voltar a sonhar em vencer no maior Estado de tradição republicana após décadas de decepções. Seu adversário, o procurador-geral republicano Ken Paxton, de 63 anos, envolvido em escândalos, beneficiou-se de centenas de milhões doados em seu nome pelo homem mais rico do mundo, Elon Musk, que gastou pesadamente para impulsionar os republicanos.
Há 47 disputas pela Câmara dos Deputados dos EUA amplamente consideradas acirradas, de acordo com uma análise da Reuters com base nas principais previsões eleitorais. Se todas as outras disputas ocorrerem conforme previsto, os democratas precisariam vencer apenas 13 dessas disputas para garantir a maioria.
Por Agência Brasil







