Abrir a geladeira e esquecer o que se foi buscar, procurar as chaves sem lembrar onde foram deixadas e perder a palavra óbvia no meio de uma reunião importante são cenas conhecidas. À noite, o corpo pede descanso, mas os olhos se abrem às 3 da manhã e custam a fechar. Ao acordar, surge uma vontade incomum de chorar.
Se isso soa familiar, não se trata de uma exceção. Lapsos de memória, falta de concentração, sono picado e irritação são queixas frequentes entre mulheres de 40 a 50 anos. Queixas que costumam ter uma origem em comum: a queda do estrogênio no organismo e a chegada da menopausa.
Esse hormônio tem múltiplas funções — pode ser comparado, sem nenhum rigor científico, a uma Fernanda Montenegro do organismo, numa comparação livre.
Além de ter papel fundamental para a saúde sexual e reprodutiva, ele atua como coadjuvante no fortalecimento dos ossos, na elasticidade da pele, no fluxo sanguíneo e, como a neurociência vem desbravando e jogando cada vez mais holofote, na atividade cerebral.
Sim, a saída de cena do estrogênio mexe demais com o cérebro. Isso porque as células ali têm fechaduras para uma série de substâncias-chave, incluindo o hormônio feminino. Uma vez que ocorre essa conexão, uma série de reações acontece — ou deixa de acontecer, como a menopausa há de comprovar.
A reportagem percorre os seguintes temas:
- Como o estrogênio age no cérebro
- Névoa mental, ansiedade e mudanças no cérebro
- Por que a culpa não é só dos hormônios
- Muito além do desejo: o que se sabe sobre o estrogênio
- Fogachos, insônia e apneia: o sono na menopausa
- A névoa mental passa? E o risco de Alzheimer?
- Reposição hormonal protege o cérebro?
- Hábitos que protegem o cérebro na menopausa
- Como ressignificar essa fase
- Os incômodos da menopausa em números
Como o estrogênio age no cérebro
O interesse pelo tema vive uma efervescência, principalmente depois das descobertas de pesquisadores como a ítalo-americana Lisa Mosconi, autora do best-seller O Cérebro e a Menopausa (HarperCollins Brasil). Essa ligação do estrogênio com os neurônios tem consequências diretas no bem-estar emocional e na saúde cognitiva.
De acordo com a neurologista Sonia Brucki, coordenadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP, com essa atuação o hormônio participa da regulação de processos ligados à memória, ao humor e ao sono.
Não só: instiga a liberação de mensageiros químicos importantes (os neurotransmissores) e a formação de novas células nervosas e de conexões entre elas. “Ele favorece a plasticidade neuronal, a capacidade de o cérebro se adaptar e mudar, permitindo novos aprendizados”, explica a médica.
Névoa mental, ansiedade e mudanças no cérebro
Não é à toa que, quando as taxas começam a despencar, a cabeça da mulher pode entrar em pane. Isso se manifesta no dia a dia com o chamado “nevoeiro mental”, por trás de falhas de memória e lentificação do raciocínio, e no maior risco de desenvolver ansiedade e depressão.
A prova vem de um novo estudo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, feito com cerca de 125 mil mulheres. Ele indica que a menopausa causa transformações na própria estrutura cerebral.
Além de colherem relatos de insônia e transtornos mentais entre as participantes, os cientistas observaram, por meio de exames de imagem, uma redução na porção da massa cinzenta responsável pela capacidade de tomada de decisão e gestão das emoções.
Os pesquisadores ainda notaram que as regiões mais afetadas são justamente as primeiras atingidas pelo Alzheimer, a exemplo do hipocampo, o que pode ajudar a explicar a maior propensão à demência a partir da pós-menopausa.
A seguir, um panorama de como a queda hormonal desorganiza o cérebro:
Névoa mental
Oscilações de estrogênio e progesterona afetam áreas ligadas à memória e à atenção. O resultado são esquecimentos e sensação de raciocínio mais lento.
Mau humor
A queda do estrogênio reduz a disponibilidade de serotonina, neurotransmissor que regula o humor. Daí a irritabilidade, a impaciência e a baixa tolerância a frustrações.
Ansiedade e depressão
Hormônios sexuais modulam serotonina e dopamina. Quando caem, aumenta o risco de ansiedade e depressão sobretudo em fases de transição, como a perimenopausa.
Insônia
Fogachos, idas frequentes ao banheiro à noite e outros desconfortos atrapalham o sono, assim como a queda da progesterona, hormônio de efeito calmante.
Fadiga
Noites maldormidas, comuns na menopausa, deixam o corpo sem tempo de se recuperar. O resultado é cansaço persistente, falta de disposição e exaustão ao longo do dia.
Por que a culpa não é só dos hormônios
Contudo, não dá para jogar toda a culpa desse rebuliço na carência hormonal. Especialistas ressaltam que os sintomas mentais do climatério dependem de múltiplos fatores, combinando mudanças esperadas do envelhecimento com efeitos fisiológicos e sociais da menopausa.
Exemplos ajudam a visualizar melhor. Uma mulher de 45 anos abarrotada de trabalho, com filhos para criar e contas a pagar, precisa só da gota d’água da queda de estrogênio para entrar em parafuso. Outra que convive com a pressão alta ganha mais um fator de risco para o declínio cognitivo. E por aí vai.
“Claro que existe o impacto da flutuação hormonal, mas a menopausa é também o momento em que deparamos com questões do envelhecimento, mudanças na aparência, adoecimento dos nossos pais…”, elabora a psiquiatra Elisa Brietzke, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Portanto, esse é o palco de um verdadeiro caldeirão de transformações. Felizmente, a medicina já está entendendo os bastidores da história e como mudar esse roteiro.
Muito além do desejo: o que se sabe sobre o estrogênio
A palavra estrogênio vem do grego oîstros, que designava a mutuca, inseto conhecido por causar agitação em gados, e, em sentido figurado, a ideia de “frenesi” ou “desejo”.
Em latim, virou oestrus e passou a nomear o “estro”, período de cio das fêmeas de mamíferos. Já o sufixo “gênio” significa “que produz”, ou seja, o estrogênio é “o que gera o estro”.
Quando o hormônio foi isolado, em 1929, o nome pareceu vir a calhar, já que lhe atribuíram apenas o papel de promover o desejo e a saúde sexual feminina. Agora, porém, sabe-se que ele faz muito mais do que isso.
Existem evidências, por exemplo, de que, no útero, o estrogênio materno influencia o crescimento de diferentes regiões do cérebro do bebê. Também se sabe que alterações nos níveis desse hormônio podem agravar enxaquecas e outros sintomas neurológicos.
E o grande trunfo desses avanços é que os relatos de milhares de mulheres deixaram de ser encarados como uma mera impressão subjetiva. “Existe um fenômeno biológico real”, diz o neurologista Diogo Haddad, professor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Mas ainda há muito a ser explorado, incluindo os fatores além do déficit de estrogênio que justificam os efeitos da menopausa no cérebro. “Durante a perimenopausa, mais do que uma queda contínua do estrogênio, existe uma grande oscilação hormonal”, comenta Haddad.
Com isso, o cérebro precisa se adaptar repetidamente a essas mudanças, o que também ajuda a entender as manifestações neurológicas.
Além disso, apesar dos avanços em pesquisas, a ciência ainda não consegue responder bem por que algumas mulheres passam por essa fase sem sentir quase nada, enquanto outras enfrentam sintomas cognitivos muito incômodos.
A explicação pode estar na genética e nos outros componentes de estresse da menopausa, como despertares frequentes, que fragmentam o sono, ansiedade e fadiga, que, por si sós, podem comprometer a atenção e a memória.
Fogachos, insônia e apneia: o sono na menopausa
O sono é, de fato, um capítulo à parte nesse enredo — e é impossível falar dele sem evocar as famigeradas ondas de calor e outros perrengues físicos do período.
Segundo a ginecologista Helena Hachul, chefe do Setor do Sono da Mulher da Unifesp, no climatério a insônia é mais comum devido aos fogachos e idas mais frequentes ao banheiro à noite, por exemplo.
Tem mais: com o ganho de peso e o envelhecimento, outro distúrbio dá mais as caras, a apneia do sono. “Com tudo isso, a gente não alcança o sono profundo. E aí, no dia seguinte, o que é que tem? Cansaço, falta de memória, névoa mental…”, reflete a especialista.
É durante o sono que o cérebro organiza os arquivos da mente e consolida as lembranças, reprisando os aprendizados do dia e produzindo as estruturas responsáveis por guardá-los.
E, fora o fator biológico, questões de foro íntimo e social têm um peso importante. Trata-se de uma fase em que filhos podem sair de casa, pais exigem mais cuidados, há separações, perda ou troca de emprego, a autoimagem se transforma… Tudo que pode literalmente tirar o sono e abalar a concentração.
“Muitas mulheres lidam com pelo menos uma dessas grandes questões”, reforça Brietzke. É o cérebro em profunda ebulição.
A névoa mental passa? E o risco de Alzheimer?
Mas esse período de provação tem fim? Para muitas mulheres, existe melhora dos sintomas depois que a fase de maior instabilidade hormonal termina, principalmente quando também melhoram o sono, as ondas de calor e o humor.
Isso é importante de levar em conta inclusive para não confundir abalos como a névoa mental com doenças mais sérias, a exemplo do próprio Alzheimer. “Ela não significa que uma doença neurodegenerativa esteja começando”, frisa Haddad.
Por falar em Alzheimer, o neurologista esclarece uma dúvida recorrente: por que as mulheres apresentam os maiores índices do problema? Parte significativa da resposta está simplesmente no fato de que elas vivem mais do que os homens.
Reposição hormonal protege o cérebro?
Se a queda do estrogênio tem tanta relação com a cabeça, repor o hormônio não ajudaria a apaziguar as coisas? Esse é um ponto ainda nebuloso, em que é preciso separar expectativas de evidências.
A terapia hormonal é uma importante aliada para aliviar fogachos, insônia, secura vaginal, entre outros sintomas, mas, até agora, não há comprovação de que atue de forma direta no cérebro. “Definitivamente não é um tratamento para esse tipo de queixa”, afirma Brucki.
O estudo de Cambridge que documentou os danos à massa cinzenta na pós-menopausa, por exemplo, observou que a reposição hormonal não preveniu nem atenuou essa perda ou mesmo os sintomas de saúde mental nas mulheres.
A porta, porém, não está fechada. Existe, entre outras teorias, a hipótese da “janela de oportunidade”, segundo a qual a idade de início, a proximidade da menopausa, a formulação hormonal e o contexto clínico podem interferir nos efeitos do tratamento.
“É um campo legítimo de investigação, mas não podemos dizer às pacientes que conseguimos prevenir Alzheimer com esses recursos”, sublinha Haddad. Em outras palavras, hormônios devem ser prescritos para aquilo que realmente a ciência assina embaixo — e não são poucas coisas.
Hábitos que protegem o cérebro na menopausa
A boa notícia é que o destino do cérebro também depende de escolhas individuais. Por meio de alguns hábitos e escolhas diárias, é possível obter ganhos de curto e longo prazo.
Evitar o celular antes de deitar pode melhorar o sono; matricular-se em um novo curso estimula os neurônios; praticar exercícios regularmente, cuidar da qualidade da alimentação e manter as consultas médicas em dia ajuda a resguardar a massa cinzenta da perda cognitiva.
A seguir, hábitos que ajudam a proteger a cognição:
Vida ativa
Exercícios aeróbicos e de força melhoram a circulação e a saúde dos vasos sanguíneos, fatores importantes para preservar a memória e outras funções cognitivas.
Senso de propósito
Trabalho, hobbies, estudos e relações sociais ajudam a conservar a saúde mental, o que é essencial para um bom funcionamento cognitivo.
Ginástica cerebral
Aprender coisas novas desafia o cérebro e amplia as conexões neurais. Ler, tocar um instrumento, desbravar um idioma, fazer palavras cruzadas são boas opções.
Dieta equilibrada
O padrão mediterrâneo, rico em hortaliças, frutas, grãos integrais, azeite, castanhas e peixes, é associado a melhor saúde cerebral e cardiovascular, inclusive no climatério.
Tratamento médico
Embora não haja evidências de proteção cerebral direta, a terapia hormonal auxilia a controlar sintomas que afetam o bem-estar. Mas a prescrição é individualizada.
Como ressignificar essa fase
Por fim, é preciso mudar o mindset e ressignificar essa fase de transição. A professora Elisa Brietzke aponta três passos nessa direção.
O primeiro é conceitual: entender a menopausa é aprender melhor o que é ser mulher, espantando inclusive preconceitos inconscientes que alimentam o etarismo. O segundo é psicossocial: cultivar afetos. “Amizades são um dos principais protetores da mente na velhice”, afirma a psiquiatra.
E o terceiro é motivacional: cultivar ou resgatar o que dá propósito e alegria de viver, seja com a espiritualidade ou com o trabalho voluntário, seja com um hobby.
E lembrar que, se o sofrimento está machucando, é hora de procurar suporte profissional. Porque essa é uma fase única e especial. “E há coisas lindas que só vivemos nesse período e jamais aconteceriam aos 20 anos.”
Os incômodos da menopausa em números
- Relatam dificuldades cognitivas como problemas de memória e concentração 53% das mulheres na transição menopausal;
- Apresentam sintomas de depressão 30% da população na peri ou pós-menopausa;
- Afirmam ter insônia 4 em 10 mulheres na pós-menopausa;
- Convivem com ansiedade na pós-menopausa 39% das mulheres.






