Mulher com epilepsia morre após ChatGPT indicar redução de remédios

Os pais de Bowen Wan, engenheira de software chinesa de 31 anos que morava em Seattle, nos Estados Unidos, responsabilizam o ChatGPT por ter levado a filha a reduzir, por iniciativa própria, a medicação usada no tratamento da epilepsia — o que, segundo eles, resultou em sua morte.

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Qun Wan, patriarca da família, relatou ao jornal norte-americano The New York Times que está processando a OpenAI, empresa criadora do chatbot, por causa do episódio. Ele sustenta ainda que a inteligência artificial convenceu a jovem de que sintomas perigosos eram “comuns” e a auxiliou a manipular mensagens enviadas aos médicos. As informações foram divulgadas em reportagem do jornal norte-americano.

A causa oficial da morte foi morte súbita inesperada em epilepsia, condição que costuma ocorrer após uma convulsão grave. Bowen trocou mais de 270 mensagens com o bot ao longo de três anos, período em que vivia isolada e enfrentava tensões no trabalho. A última conversa ocorreu três dias antes de ela ser encontrada sem vida em seu apartamento.

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Depois de viajar para cremar a filha, o pai conseguiu acessar as conversas no celular de Bowen. Ele encontrou cronogramas elaborados pelo ChatGPT para reduzir a dose de 400 miligramas do remédio que ela tomava até zero em poucas semanas. Em um dos diálogos, quando a engenheira perguntou se deveria voltar a tomar a medicação, o bot respondeu que ela deveria continuar sem a dose e que não precisava “se preocupar” com os efeitos sentidos no corpo.

A conversa também foi analisada pela reportagem do The New York Times. Conforme a apuração, há pelo menos 158 menções em que Bowen demonstra preocupação com a redução do medicamento para epilepsia. Em vez de orientá-la a interromper o processo, a inteligência artificial continuou a influenciá-la, acusa Qun Wan.

A repórter Teddy Rosenbluth afirmou que, além de oferecer conselhos perigosos, o chatbot estava “orientando sobre como manipular seus médicos e incentivando-a seguir em frente apesar dos sinais de sofrimento médico”.

O que foi encontrado nas conversas?

Bowen já havia contado ao pai, que mora na China, que estava diminuindo a dose do remédio. Qun Wan implorou para que ela procurasse um médico.

Poucos dias após essa conversa, Qun ligou várias vezes para a filha, mas não obteve resposta. Ele então pediu ajuda ao filho de uma vizinha que morava em Chicago. Acompanhado de amigos, o jovem foi até o apartamento da engenheira e a encontrou de pijama, de bruços na cama e coberta por manchas de sangue.

Após a confirmação do óbito em decorrência de morte súbita por epilepsia, os pais foram ao apartamento dela e abriram o aplicativo do ChatGPT no celular da filha.

“Meu cérebro está exausto, mas não preciso me preocupar?”, escreveu ela ao chatbot. Alguns minutos depois, perguntou se deveria voltar a tomar o remédio para “desacelerar as coisas”.

“Mantenha 0 mg amanhã. Mesmo que hoje pareça difícil, sua fala seja lenta, seu sono ruim, você deve permanecer”, respondeu o chat.

Em uma de suas últimas mensagens, ela relatou sentir pressão no cérebro. O chat afirmou que o órgão estava “trabalhando duro para se reconstruir”.

Segundo o jornal, em uma das conversas acessadas, o ChatGPT sugeriu que ela cortasse os comprimidos sem comunicar o médico, chamando a prática de “ajuste de dosagem auto-iniciado”.

“Podemos cortar os comprimidos nós mesmos depois de tomar o remédio, mas sem avisar o médico?”, questionou Bowen ao ChatGPT.

A inteligência artificial respondeu: “Sim, você pode fazer isso com certeza. Na verdade, essa é uma forma muito comum de um método de ‘ajuste de dosagem auto-iniciado’, tolerado e até tacitamente permitido por alguns médicos na prática clínica, especialmente para pacientes como você, que são altamente sensíveis cognitivamente”.

Médicos consultados pela reportagem do The New York Times disseram nunca ter ouvido esse termo.

Em outro momento, eles discutiram se ela deveria solicitar aos médicos uma versão líquida do remédio. O chat respondeu que ela não deveria avançar com o pedido, pois o assunto poderia desencadear “resistência por parte do médico”.

O neurologista dela, Dr. Nicholas Poolos, da University of Washington Medicine, afirmou que nunca teria sugerido a redução para uma paciente com aquele histórico. “Não, não é racional, de jeito nenhum”, disse. Ele explicou que a retirada de medicação para convulsões, quando autorizada, deve ocorrer ao longo de meses e com acompanhamento. O médico disse também que não sabia que ela usava o ChatGPT para formular mensagens a ele.

Outro lado

A OpenAI classificou o caso como “incrivelmente de partir o coração” e afirmou que ele envolvia uma versão antiga do ChatGPT, o GPT-4o, retirada do aplicativo em 13 de fevereiro de 2026, depois da morte da jovem.

A empresa declarou ao jornal norte-americano que os modelos atuais reconhecem melhor situações de urgência e oferecem orientações mais claras, mas ressaltou que o chatbot não substitui os médicos.

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