China avalia riscos de um governo Flávio Bolsonaro

Uma eventual vitória do candidato Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições brasileiras, marcado para 25/10, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), poderia trazer consequências para a cooperação Brasília-Pequim em setores estratégicos, além de alterar o papel que o país sul-americano desempenha no BRICS. Essa é a avaliação de especialistas consultados por Opera Mundi, que apontam o risco de uma maior aproximação com Washington afetar as decisões da política externa do país e conduzir a uma atuação mais alinhada aos interesses norte-americanos por causa da proximidade com Donald Trump.

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Para Jiang Shixue, professor da Universidade Normal de Hangzhou e ex-diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS, na sigla em inglês), independentemente do resultado eleitoral brasileiro, a China, maior parceira econômica do país, deverá buscar a manutenção do nível atual de cooperação bilateral. Contudo, segundo o docente, uma provável mudança na política interna do Brasil não deve ser avaliada como irrelevante para os interesses chineses, uma vez que o estreitamento dos laços com os Estados Unidos poderia reduzir não somente a disposição brasileira de promover uma agenda multipolar, como também restringir a cooperação com a China, principalmente em áreas como telecomunicações e minerais críticos.

“Os fatos mostram que os Estados Unidos estão implementando a ‘Nova Doutrina Monroe’ na América Latina de forma abrangente, por meio de três vias: subversão militar (na Venezuela), interferência eleitoral e outras categorias de pressões”, destacou Jiang. “Uma vitória de Flávio poderia tornar o papel do Brasil no BRICS mais passivo ou negativo, enfraquecendo a voz coletiva do grupo no desafio à dominância do dólar e às sanções unilaterais”.

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A importância do Brasil para a estratégia norte-americana está relacionada tanto ao peso econômico do país quanto à sua capacidade de articulação internacional, de acordo com a avaliação do professor. A maior economia da América Latina não apenas mantém relações comerciais profundas com a China, como também participa de iniciativas como o BRICS, que buscam ampliar a autonomia dos países em desenvolvimento.

China poderia ser excluída de certos projetos

Na mesma linha, para Ruben Gonzalez-Vicente, professor associado de Economia Política da Universidade de Birmingham, os Estados Unidos têm dois objetivos principais: ampliar o número de governos alinhados à sua política regional e limitar a influência chinesa. Um eventual governo Flávio Bolsonaro poderia facilitar a implementação da agenda norte-americana, inclusive em questões nas quais os interesses dos dois países não necessariamente coincidam.

O docente, porém, lembrou que, durante o governo de Jair Bolsonaro (pai de Flávio), quando o Brasil estava politicamente alinhado ao primeiro mandato presidencial de Trump, o país sul-americano continuou negociando com a China. Segundo Gonzalez-Vicente, os vínculos econômicos bilaterais com Pequim são profundos e seria pouco realista esperar que qualquer governo brasileiro excluísse completamente a nação asiática da economia nacional.

Segundo ele, não seria do interesse de alguns dos setores econômicos mais importantes do Brasil, particularmente o agronegócio e os exportadores de soja, romper laços com a China. Também avaliou ser improvável que os investimentos chineses existentes fossem simplesmente desmantelados.

O maior risco, portanto, está na possibilidade de as decisões brasileiras em setores estratégicos passarem a ser orientadas por considerações geopolíticas que convêm aos Estados Unidos, mesmo quando isso não representar a alternativa economicamente mais vantajosa para o país. “Um governo brasileiro mais pró-EUA poderia favorecer fornecedores alternativos, mesmo quando empresas chinesas oferecerem propostas economicamente mais atraentes. A China também poderia ser excluída de certos projetos de grande visibilidade ou politicamente sensíveis”.

O professor também considera importante distinguir a ascensão da extrema direita na América Latina da disputa entre Washington e Pequim. Segundo ele, fatores internos, como estagnação econômica, desemprego, pobreza, insegurança e desconfiança nos partidos tradicionais, ajudam a explicar o avanço dessas forças políticas. Por sua vez, a importância da China estaria principalmente na dimensão geopolítica, já que lideranças alinhadas a Washington podem defender uma ordem internacional centrada nos Estados Unidos e se opor à influência da gigante asiática na região.

Relações comerciais não significam parceria estratégica

A coordenadora para a Ásia do Instituto Tricontinental, Tings Chak, entende que o Brasil tem uma importância particular porque sua capacidade industrial, seus recursos estratégicos e sua participação em mecanismos de integração regional permitem ao país ampliar sua autonomia na esfera internacional.

“É um dos principais articuladores do BRICS, do Mercosul e da cooperação regional. Abriga a maior parte da Amazônia, possui recursos minerais estratégicos e capacidades industriais e tecnológicas próprias. Um Brasil comprometido com a integração latino-americana e a cooperação Sul-Sul amplia a margem de ação de toda a região. Um Brasil submetido à estratégia estadunidense faz o contrário”, afirmou a pesquisadora.

Chak também destaca a importância dos recursos minerais brasileiros para a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Segundo ela, não basta possuir minerais críticos, como as terras raras: é necessário desenvolver capacidade de processamento, tecnologias próprias e uma estrutura industrial que permita ao país transformar esses recursos em instrumentos de desenvolvimento nacional.

Nesse contexto, uma eventual aproximação do Brasil com Washington poderia afetar não apenas suas relações com Pequim, mas também corroer as possibilidades de desenvolvimento tecnológico e industrial da própria nação.

Com relação a um possível retorno da família Bolsonaro ao Executivo, Chak destacou o contraste entre os governos Lula e Jair Bolsonaro. Enquanto o atual presidente aprofundou a cooperação com o líder chinês Xi Jinping, o governo anterior provocou tensões diplomáticas, especialmente durante a pandemia de Covid-19. Mesmo com a manutenção das relações comerciais bilaterais, o desgaste político demonstrou que os interesses econômicos compartilhados não são suficientes para garantir uma parceria estratégica.

“A questão, portanto, não é apenas como Pequim reagiria [a uma eventual vitória eleitoral de Flávio], mas que relação o Brasil pretende construir com a China: uma parceria capaz de fortalecer seu desenvolvimento e sua soberania ou uma relação limitada aos interesses comerciais de determinados setores econômicos”, afirmou.

O que está em jogo para o BRICS

O futuro do BRICS é um dos pontos de preocupação diante da possibilidade de uma mudança na política externa brasileira. Embora uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro não signifique necessariamente a saída do país do grupo, ela poderia alterar a disposição de Brasília de promover iniciativas de cooperação com seus integrantes.

Para os especialistas, o enfraquecimento da participação brasileira no bloco poderia ocorrer mesmo sem uma saída formalizada.

Chak também considera que o papel originalmente desempenhado pelo Brasil no BRICS está relacionado à possibilidade de o país ampliar sua autonomia internacional e contribuir para uma ordem mundial menos concentrada no poder dos Estados Unidos. “A existência de diferentes centros de poder pode abrir espaço para projetos nacionais de desenvolvimento e maior soberania, mas tudo depende das forças políticas e sociais que dão direção a esse processo”, disse.

As eleições brasileiras ocorrem em um momento de intensificação da disputa entre Washington e Pequim e da onda da extrema direita tomando conta de diversos países da América Latina. Nesse cenário, a pesquisadora avalia que um eventual retorno da família Bolsonaro ao Executivo brasileiro poderia resultar no comprometimento dos avanços na integração regional, na cooperação Sul-Sul e na busca por maior autonomia diante das pressões externas.

Por fim, Chak destacou que é nesse contexto que se deve compreender a importância política de Lula. Segundo ela, seu governo tem contribuído para ampliar a autonomia internacional do Brasil, fortalecer o BRICS e aprofundar relações estratégicas com países como a China. A questão não é Lula como indivíduo, mas a possibilidade de um Brasil soberano, capaz de construir alianças e tomar decisões fora da esfera de influência de Washington.

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