Sentir-se sozinho pode ter um preço alto para a saúde. Um estudo da Escola de Saúde Pública e Medicina Tropical da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos, divulgado no início de outubro, concluiu que a solidão e o isolamento social estão associados à perda de quase seis anos de vida sem transtornos mentais como depressão e ansiedade. A pesquisa também aponta que os dois problemas são bastante comuns no país. Cerca de metade dos adultos norte-americanos relata sentir solidão, e uma parcela semelhante vive em isolamento social.
Os pesquisadores compararam pessoas de 50 anos que enfrentavam ao mesmo tempo solidão e isolamento com aquelas que não tinham nenhuma das duas condições. Entre os homens, a diferença foi de 5,8 anos a menos de vida livre de transtornos mentais e de 1,7 ano a menos sem as doenças físicas analisadas. Entre as mulheres, a perda foi de 3,7 anos sem transtornos mentais e de 2,4 anos sem as doenças físicas avaliadas. Os números não indicam necessariamente uma vida mais curta, mas sim menos anos vividos sem o desenvolvimento dessas doenças.
Embora pareçam a mesma coisa, solidão e isolamento são conceitos diferentes. O isolamento social diz respeito à falta concreta de contatos e de convivência, enquanto a solidão é a sensação dolorosa de que os vínculos existentes não são suficientes. Uma pessoa pode estar cercada de gente e se sentir sozinha, assim como pode viver isolada sem sofrer com isso. Quando as duas situações se somam, o risco para a saúde aumenta.
O impacto ocorre por dois caminhos que se reforçam. No corpo, a solidão prolongada tende a manter o organismo em estado de alerta, como se estivesse diante de uma ameaça permanente. Esse estresse contínuo pode alterar a produção de cortisol, favorecer processos inflamatórios e enfraquecer o sistema imunológico, o que, ao longo do tempo, aumenta o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. No comportamento, quem se sente sozinho costuma dormir pior, se exercitar menos, se alimentar de forma inadequada e descuidar de consultas e tratamentos.
O problema não se restringe aos Estados Unidos. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que uma em cada seis pessoas no mundo convive com a solidão e associou a condição a cerca de 871 mil mortes por ano. Mesmo assim, o tema ainda recebe pouca atenção como questão de saúde pública, em parte porque, durante muito tempo, foi tratado como uma questão apenas emocional e cercado de estigma.
A boa notícia é que a solidão pode ser revertida, assim como parte de seus efeitos. Estimular alguém a sair de casa ou frequentar lugares cheios, porém, nem sempre resolve. Em muitos casos, o acompanhamento psicológico ajuda a mudar pensamentos negativos sobre si mesmo e sobre as relações, recuperar a autoconfiança e desenvolver habilidades sociais. Atividades físicas em grupo, trabalho voluntário, participação em associações e projetos comunitários também ajudam, especialmente quando criam oportunidades para relações próximas e significativas. Mais do que a quantidade de contatos, o que protege a saúde é a qualidade dos vínculos.






