Um destino turístico não se resume a paisagens, atrativos e gastronomia. Sua identidade também está presente nas histórias, nos saberes e nas tradições de quem vive naquele território. O artesanato expressa parte dessa riqueza em peças que carregam referências culturais, abrem oportunidades de renda e aproximam os visitantes das comunidades locais.
Essa relação passa, ainda, por reconhecer as diferenças entre artesanato e trabalho manual — atividades que compartilham técnicas e habilidades, mas que podem apresentar características próprias.
Artesanato e trabalho manual não significam a mesma coisa. O trabalho manual abrange atividades em que as mãos participam diretamente da produção de objetos, como montagem, costura, pintura, decoração e personalização. Já o artesanato também envolve o fazer manual, mas costuma reunir aspectos como domínio de técnicas, criação autoral, transmissão de saberes e referências culturais vinculadas a um território.
Tais características não criam uma fronteira absoluta entre as duas práticas. Uma peça artesanal não precisa ser tradicional: novas técnicas, materiais e linguagens podem renovar a produção. Do mesmo modo, nem todo produto feito à mão está necessariamente atrelado a uma tradição cultural.
Tanto o artesanato quanto o trabalho manual têm valor econômico e criativo. Reconhecer suas particularidades, respeitar a autoria e comunicar com clareza o que está sendo oferecido são passos importantes para valorizar quem produz.
Quando o artesanato encontra o turismo
Promovido em Foz do Iguaçu desde 2006, o Festival Internacional de Turismo Cataratas (FITCataratas) reúne diferentes segmentos da cadeia turística e cria ocasiões de encontro entre destinos, empresas, instituições e profissionais do setor. Nesse cenário, a produção artesanal pode fortalecer a ligação entre a oferta turística e a identidade cultural dos territórios.
Para 2026, uma iniciativa do IDESTUR vinculada ao Festival das Cataratas previu a seleção de até 15 artesãos do Brasil, do Paraguai e da Argentina, levando em conta critérios como autoria, originalidade, qualidade técnica e identidade cultural trinacional. A proposta colocou em evidência a diversidade da região de fronteira e a possibilidade de aproximar produtores de um público ligado ao turismo.
Ações como essa mostram o potencial dos eventos turísticos para dar visibilidade à produção artesanal e estimular novas conexões comerciais. Ao conhecer esses produtos, profissionais do setor podem identificar oportunidades de parceria e incorporar referências culturais à oferta de seus destinos. Para os artesãos, essa aproximação pode significar acesso a novos públicos e mercados.
Em Foz do Iguaçu e na região trinacional, essa relação ganha um significado adicional. A produção artesanal é capaz de expressar a diversidade de um território marcado pelo encontro entre diferentes povos, histórias e tradições. Valorizar essas criações ajuda a ampliar a percepção do destino para além dos atrativos mais conhecidos e coloca em destaque as pessoas que também fazem parte de sua identidade.
Turismo de base comunitária: valorizar quem produz
A ligação entre artesanato e turismo também dialoga com o turismo de base comunitária, modelo que procura ampliar a participação das comunidades na construção das experiências turísticas e na distribuição dos benefícios econômicos gerados pela atividade.
Oficinas, visitas a ateliês e vivências conduzidas pelos próprios produtores permitem que os visitantes conheçam as técnicas, os materiais e as histórias por trás de cada criação. A experiência deixa de se restringir à compra de uma lembrança e passa a envolver o contato com as pessoas e os conhecimentos que compõem a identidade local.
Para que essa relação produza benefícios duradouros, é essencial respeitar a autoria, reconhecer os conhecimentos tradicionais e garantir condições justas de participação e remuneração. A valorização cultural precisa se converter em oportunidades concretas para quem produz, sem reduzir tradições e saberes a meros argumentos de venda.
Como espaço de encontro entre diferentes atores do turismo, o FITCataratas pode contribuir para aproximar produtores e profissionais do setor e reforçar a importância da cultura na construção de destinos mais diversos e conectados às suas comunidades. O desenvolvimento turístico também depende de reconhecer as pessoas que preservam conhecimentos, criam produtos e compartilham a identidade de seus territórios.
Afinal, um destino se torna mais interessante quando consegue compartilhar não só suas paisagens, mas também suas histórias. E, quando o turismo abre espaço para quem produz, uma simples lembrança pode se transformar em uma conexão duradoura entre o visitante, a cultura e o território.
*Paulo Angeli é idealizador e CEO do Festival Internacional de Turismo Cataratas (FITCataratas).







