Grande parte dos jovens brasileiros convive com crises de autoimagem que envolvem desde a insatisfação com o espelho até questionamentos sobre a própria capacidade intelectual.
Essa é a conclusão do Panorama da Saúde Mental 2026, levantamento nacional conduzido pelo Instituto Cactus e pela AtlasIntel.
Conforme o estudo, 62,4% dos entrevistados de 16 a 24 anos — seis em cada dez — afirmaram ter se sentido feios ou pouco atraentes nas duas semanas que antecederam a pesquisa. Além disso, 58,2% declararam se perceber pouco inteligentes.
O fenômeno, no entanto, não fica restrito aos mais novos. Na população geral, 49,2% disseram se sentir mal com a própria aparência, enquanto 36,3% relataram ter duvidado da própria capacidade intelectual no mesmo período.
O levantamento reuniu dados de mais de 4 mil entrevistados em todo o país e também identificou associação entre essas experiências e uma pior saúde mental.
O Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), régua criada pelo Instituto Cactus para medir de zero a mil o bem-estar psicológico, ficou em 549,2 pontos entre quem se sentiu pouco atraente.
Esse número é bem inferior aos 789,4 pontos registrados entre os participantes que não relataram essa sensação.
A queda é ainda mais acentuada quando a dúvida recai sobre a capacidade intelectual: quem se julgou pouco inteligente obteve média de apenas 503,1 pontos no ICASM, contra 766,9 daqueles que não relataram esse sentimento.
Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus e mestre em Saúde Pública, explica que o ICASM é um índice numérico que permite comparar indicadores de saúde mental entre diferentes grupos da população e identificar fatores associados a resultados melhores ou piores.
A ferramenta, porém, não estabelece faixas fixas para classificar a saúde mental como boa, ruim ou preocupante. Em vez disso, possibilita perceber grupos com maior comprometimento em relação à saúde mental ou hábitos associados a uma saúde mental pior, segundo Rae.
Além desses números, o Panorama da Saúde Mental observou outros indicadores sobre a mente dos brasileiros, como sensação de solidão, uso de inteligência artificial e plataformas de apostas, além de preocupação com as finanças.
Solidão e saúde mental
A solidão é um problema importante para a saúde mental dos brasileiros. Para o estudo, 36,5% relataram ter se sentido sozinhos ao menos uma vez nas duas semanas anteriores à pesquisa.
Entre quem vivenciou esse sentimento três vezes ou mais, o ICASM foi de 383 pontos — contra 782 pontos de quem não se sentiu só.
Trata-se de uma queda de 51%, a maior diferença identificada entre todos os hábitos e comportamentos avaliados no levantamento.
Nem todo mundo é afetado da mesma forma. Entre os solteiros, 51,7% relataram ter se sentido sós nas últimas semanas, enquanto a taxa caiu para 26,6% entre os casados.
O dado também é diferente para quem já convive com algum diagnóstico de transtorno mental: 52,5% encararam a solidão no período, contra 32,5% de quem não tem diagnóstico.
Quem esteve com os amigos nas duas semanas anteriores à pesquisa garantiu um ICASM de 736,9 pontos — um salto em relação aos 539 pontos registrados por quem ficou sem o encontro.
Além disso, o uso intenso de redes sociais aparece de mãos dadas com a sensação de isolamento: 46,8% das pessoas que passam três horas ou mais por dia rolando a tela relataram solidão, um contraste com os 26,1% registrados entre quem usa o feed com moderação.
Rae ressalta que, apesar dos achados, não é possível atribuir aos dados uma relação de causalidade com o mal-estar. Segundo ela, não se pode dizer, com base nessas informações, que estar sozinho piora o bem-estar psicológico, afinal, uma saúde mental pior também leva a mais solidão.
Ainda assim, os números apontam para estratégias que podem ser trabalhadas para melhorar a qualidade de vida. A especialista avalia que os dados mostram a importância de trabalhar a criação de vínculos e conexões como fator protetor para a saúde mental.
Preocupação financeira lidera as queixas
Embora a solidão seja o comportamento mais associado aos baixos níveis no ICASM, a preocupação com os boletos está no topo das inquietações dos brasileiros.
Na pesquisa, 78,1% dos participantes disseram sentir apreensão por causa de dinheiro ao menos uma vez nas duas semanas anteriores ao levantamento.
Quem passou o período sem esquentar a cabeça com as finanças garantiu 825,3 pontos no indicador de saúde mental do Instituto Cactus. Entre quem vive constantemente preocupado, o índice caiu para 557,6 pontos.
O estudo também avaliou dados relacionados à restrição alimentar. 17,2% dos entrevistados afirmaram ter deixado de se alimentar por falta de dinheiro ao menos uma vez no período.
Para esse grupo, o bem-estar psicológico desceu para 502,5 pontos, em forte contraste com os 706,1 pontos registrados por quem não enfrentou a privação alimentar.
Rae comenta que, mais uma vez, as questões sociais que atravessam a população também podem afetar a saúde mental.
Assédio, preconceito e apostas
A nova edição do Panorama da Saúde Mental trouxe dados inéditos. Pela primeira vez, o material questionou os respondentes sobre assédio, preconceito, apostas e uso de IA.
O medo da violência urbana atinge 62,5% da população, mas essa insegurança, isolada, não impactou o bem-estar psicológico.
Já o assédio (verbal, moral ou sexual) e o preconceito — embora menos frequentes — levaram o indicador de saúde mental dos participantes para 457,9 pontos e 486,2 pontos, respectivamente.
A febre das bets também entrou na conta. Cerca de 9,2% dos brasileiros apostaram nas últimas duas semanas, registrando um ICASM médio de 586,7 pontos.
E o maior perigo é a bola de neve: entre os apostadores frequentes (três vezes ou mais), 77,6% relataram viver em constante preocupação com a própria situação financeira.
Uso de inteligência artificial
Segundo a pesquisa, 86,4% dos brasileiros de 16 a 24 anos já usaram alguma IA para qualquer finalidade.
Além disso, o levantamento mostra que 9,1% da população usou chatbots como terapeutas. Ao todo, 15% já recorreram à IA em momentos de crise emocional e 8,8% a utilizaram especificamente para se sentirem menos sozinhos ou terem alguma interação.
O uso de IA em busca de companhia foi visto em 32,1% dos respondentes no grupo dos que vivenciaram a solidão três vezes ou mais em duas semanas.
A adesão à “terapia por chatbot” segue a mesma rampa, subindo de 4,8% entre quem não se sente só para 25,3% conforme a solidão se intensifica.
Disponibilidade 24 horas, custo zero (ou reduzido) e o medo de encarar julgamentos foram os principais motivos apontados para preferir o algoritmo ao divã com terapeuta humano.
A geração Z é a cara dessa mudança. Segundo o panorama, 81,3% dos jovens de 16 a 24 anos usam geradores de conversa (como ChatGPT e Gemini) e 71,4% utilizam ferramentas de IA com frequência.
Esse avanço rápido, contudo, divide gerações: enquanto só 25,6% dos jovens dizem se preocupar com o futuro da IA, a apreensão atinge 62,3% das pessoas com 60 anos ou mais.
Um panorama da mente brasileira
O Panorama da Saúde Mental também estabelece uma série histórica para acompanhar a evolução do bem-estar psicológico dos brasileiros ao longo dos anos.
Em 2026, o índice geral chegou a 671,1 pontos, contra 635,3 na primeira edição da pesquisa, realizada em 2023. Isso representa um aumento de 35,8 pontos em três anos. Do ano passado para cá, não houve diferença significativa.
Pessoas com 60 anos ou mais tiveram os melhores índices de saúde mental, enquanto os resultados mais baixos apareceram entre adultos de 25 a 44 anos.
Com os dados em mãos, segundo Rae, a principal mensagem do Panorama é alertar para a importância de olhar para o contexto em que o indivíduo está inserido. A especialista afirma que é preciso observar a saúde mental não só do ponto de vista do diagnóstico.
Para ela, compreender como o cotidiano e o ambiente afetam o bem-estar psicológico é fundamental para ampliar o debate e pensar em estratégias de prevenção e promoção da saúde mental, sem esperar que o sofrimento se transforme em doença para buscar cuidado.
Dessa forma, segundo Rae, é possível dar conta do aumento de problemas psicológicos que tem acontecido e oferecer amparo às pessoas.







