Infância: entre sentir e entender o que se sente

Durante a infância, sentir algo e conseguir explicar o que está acontecendo nem sempre são processos que ocorrem ao mesmo tempo. A habilidade de reconhecer uma emoção, ligá-la àquilo que foi vivido e encontrar palavras para nomeá-la vai se desenvolvendo aos poucos. Enquanto esse repertório não se amplia, boa parte do que a criança sente pode se manifestar por meio de mudanças de comportamento.

Continua após a publicidade

Aprender a identificar o que se sente passa por perceber as próprias reações e começar a compreender de onde elas vêm. Aos poucos, a criança também descobre que essas experiências podem ser compartilhadas. Esse entendimento oferece referências para enfrentar situações que ainda são difíceis de elaborar sozinha.

Karla Viana, coordenadora da área de programas do ChildFund, explica que abrir oportunidades para reconhecer e nomear emoções contribui para que a criança desenvolva uma percepção mais clara sobre o que sente e sobre as situações que despertam determinadas reações.

Continua após a publicidade

A forma como os adultos respondem também integra esse aprendizado. A criança constrói seu repertório emocional a partir do espaço que encontra para falar, das reações que recebe e do jeito como as pessoas próximas lidam com aquilo que sentem.

Escutar antes de tentar resolver

O modo como o adulto reage ao que a criança conta influencia o rumo que aquela conversa vai tomar. A pressa em explicar, corrigir ou resolver pode encerrar um assunto que ela ainda estava tentando compreender.

Para Karla, a confiança se constrói também pela expectativa que a criança cria sobre essa resposta. “Ela precisa saber que será ouvida sem julgamento. Se a criança associa falar do que sente a levar bronca ou a ser corrigida, esse espaço se fecha, mesmo quando a intenção do adulto é ajudar.”

O repertório do próprio adulto tem peso nessa relação. Quem teve pouco espaço para compreender as próprias emoções pode encontrar mais dificuldade para lidar com o sofrimento de uma criança. Karla ressalta que reconhecer e nomear o que se sente amplia as condições de perceber o que acontece com a criança e de acompanhá-la nesse processo.

Isso não exige que pais e responsáveis encontrem sempre a reação certa. A maneira como lidam com as próprias emoções já oferece referências sobre o que fazer diante de experiências desconfortáveis.

A melhor maneira de uma criança entender como lidar com algo vai além da conversa: passa também pelo exemplo. Quanto mais você mesmo buscar aprender a entender, lidar e comunicar o que sente, mais isso pode ajudar os pequenos a fazerem o mesmo.

Crescemos em uma sociedade que enaltece a força e a resiliência, como se elas se opusessem à vulnerabilidade e à sensibilidade. Mostrar que está tudo bem sentir, falar e chorar também cria um ambiente mais seguro para que a criança se sinta confortável em tentar se abrir.

Outras formas de dizer o que se sente

Nem toda experiência consegue ser organizada imediatamente em palavras. Na infância, a brincadeira e outros recursos lúdicos podem facilitar uma expressão que ainda encontra dificuldade em uma conversa direta.

A Caixa de Primeiros Socorros Emocionais, metodologia desenvolvida pelo ChildFund, utiliza cartas que apresentam emoções e situações do cotidiano para conduzir esse contato. Durante as atividades, recursos como desenhos ou histórias também podem ser usados para que a criança expresse aquilo que está sentindo.

O interesse desse tipo de mediação está em ampliar as formas de comunicação. Uma pergunta direta como “o que você está sentindo?” pressupõe que a criança já consiga identificar e formular uma resposta. Um recurso visual ou uma brincadeira pode ajudá-la a chegar a essa compreensão por outro caminho.

Esse espaço também reduz a expectativa de que toda conversa sobre saúde emocional precise chegar rapidamente a uma solução. Escutar envolve dar tempo para compreender o que a criança está tentando comunicar e observar como aquela experiência aparece. Se surgirem mudanças persistentes ou sinais mais graves de sofrimento, essa atenção passa a cumprir outra função.

O contexto muda o significado de um comportamento

Uma birra isolada ou um período de isolamento não indicam, por si só, que exista um transtorno. Karla chama atenção para a frequência com que determinada mudança aparece, sua intensidade e o tempo que dura. Também importa perceber o quanto ela começa a interferir no cotidiano.

Uma alteração passageira tem um peso diferente de uma mudança que se prolonga e modifica a relação da criança com atividades ou pessoas que faziam parte de sua rotina. Por isso, um comportamento ganha significado a partir do contexto e da comparação com a maneira habitual daquela criança de agir.

Algumas situações pedem avaliação profissional com mais urgência. Karla cita comportamento suicida e lesões autoprovocadas como sinais para encaminhamento imediato. Alterações importantes no sono ou na alimentação, assim como mudanças bruscas de comportamento, também merecem atenção. Observar esses sinais ajuda a reconhecer o momento em que o apoio cotidiano precisa ser acompanhado por profissionais, sem atribuir à família ou à escola a responsabilidade de chegar a um diagnóstico.

Os registros de atendimento ajudam a dimensionar esse cenário, embora não expliquem sozinhos o que está acontecendo com crianças e adolescentes. Dados do Ministério da Saúde reunidos pelo ChildFund mostram que os atendimentos por transtornos de ansiedade no SUS entre crianças de 10 a 14 anos passaram de 1.850, em 2014, para 24.367, em 2024. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, foram de 1.534 para 53.514 no mesmo período. Os números mostram um crescimento nos atendimentos registrados, o que não permite concluir que a prevalência de transtornos tenha aumentado na mesma proporção.

O reconhecimento das próprias emoções se desenvolve ao longo do tempo e continua mudando conforme novas experiências aparecem.

Dar esse espaço para as crianças elaborarem e aprenderem a reconhecer o que sentem é fundamental, porque essa parte não tem como ser feita por elas. Da mesma forma que ninguém consegue fazer isso por nós, esse movimento de autoconhecimento deve ser constante.

Continua após a publicidade
Redação
Redação
Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
24ºC
Máxima
29ºC
Mínima
22ºC
HOJE
16/10 - Sex
Amanhecer
05:09 am
Anoitecer
05:43 pm
Chuva
0.73mm
Velocidade do Vento
5.54 km/h

Média
24.5ºC
Máxima
27ºC
Mínima
22ºC
AMANHÃ
17/10 - Sáb
Amanhecer
05:08 am
Anoitecer
05:43 pm
Chuva
12.22mm
Velocidade do Vento
20.77 km/h

Utopia democrática e popular sequestrada

Igor Vitorino da Silva

Leia também