Por muitas décadas, o Robusta ficou à sombra do arábica no Brasil, empregado em blends e distante das prateleiras dos cafés especiais. Essa leitura vem mudando, e boa parte dessa virada nasce na Amazônia. Na quarta-feira (14), em Cacoal (RO), a Rituais Cafés Especiais, do Grupo 3corações, premiou os melhores cafés da 8ª edição do Concurso Tribos. O campeão, Manasses Oykoeter Suruí, da comunidade Paiter Suruí, alcançou 91,11 pontos, bem acima da marca de 80 pontos que caracteriza um café especial. A edição deste ano recebeu 150 amostras, superando o recorde não apenas de inscrições, mas também de mulheres indígenas participantes, além de atingir o maior volume de cafés com 90+ pontos na história do concurso.
A premiação reforça o ciclo sustentável do Projeto Tribos que, desde 2019, aproxima quem produz de quem consome e busca oferecer protagonismo e oportunidades aos produtores. Alinhado aos pilares de protagonismo indígena, produção de cafés de qualidade e proteção da floresta, o projeto destina 100% do lucro às comunidades indígenas e, hoje, reúne 169 famílias de 35 aldeias e sete etnias, com impacto em cerca de 2.000 indígenas, somando R$ 20 milhões em investimentos totais.
“O Concurso Tribos não premia apenas xícaras extraordinárias, ele celebra a autonomia, a dedicação e o orgulho dos produtores indígenas que transformaram suas comunidades através da cafeicultura na Amazônia. Chegar ao patamar de 90+ pontos prova que, quando unimos empreendedorismo, conhecimento e um ciclo sustentável, não há limites para a prosperidade fruto do Robusta Amazônico”, ressalta Patricia Carvalho, Líder do Projeto Tribos no Grupo 3corações.
Cultivado nas matas de Rondônia, o Robusta Amazônico vencedor do concurso mostrou na xícara um café raro, com notas de jasmim, chá verde, cacau, doce de leite e ameixa em calda, além de especiarias, caramelo e chocolate branco, corpo cremoso, acidez agradável e refrescante e finalização persistente e doce.
Parcerias e manejo adequado elevaram o Robusta ao topo
Nas Terras Indígenas Sete de Setembro e Rio Branco, o Robusta foi plantado há décadas, mas, durante muito tempo, seguiu sem o manejo adequado na comunidade. Um novo capítulo dessa história teve início em 2019, com o Grupo 3corações e o Projeto Tribos. A parceria se tornou o principal divisor de águas na relação das comunidades com o café, e os indígenas passaram a contar com melhores condições de infraestrutura, parcerias, reconhecimento, acesso à capacitação técnica e inovação e, somados aos saberes locais, a transformação chegou ao topo com raros cafés especiais valorizados. Reflexo do êxito da iniciativa, o Projeto Tribos já conquistou o prêmio de melhor café canéfora do mundo, com 100 pontos na edição de 2024.
“O Projeto Tribos representa muito bem os diferenciais da Rituais Cafés Especiais – nossa marca premium dentro do Grupo 3corações – que tem como essência unir cafés especiais de qualidade excepcional, com origem e cadeia sustentável, a um alcance nacional, através de nossa estrutura. Temos muito orgulho de fomentar projetos como este, que valorizam a diversidade e excelência brasileira”, destaca Anderson Spada, Head de Marketing do Grupo 3corações.
O projeto conta com a parceria de Funai, Cooperativas indígenas (Coopaiter, Garah Itxá, Coopsur e Coopirb), Embrapa, Emater-RO, AGRICAFÉ, Semagri, AGROCAF, Armazém de Café Cacoal, Cafeama e Câmara Setorial do Café de Rondônia. Desde o 1º ano de ação, a compra integral da safra das comunidades parceiras soma mais de 730 toneladas.
O Concurso
A programação reuniu três competições: o Concurso Tribos, que avalia o máximo potencial de qualidade alcançado na safra do café; a Copa Barista, criada a partir do entendimento das necessidades das próprias comunidades, para incentivar a sucessão familiar e envolver os jovens na cafeicultura, formando-os como baristas; e a Copa Harmonizações, continuidade dessa formação, que desafia os baristas a criarem receitas com o Robusta Amazônico. Juntas, elas estimulam a busca por qualidade a cada safra e mobilizam diferentes gerações em torno do café.
A cerimônia de premiação teve a presença de mais de 600 indígenas, representando as 169 famílias que integram o Projeto Tribos, além de suas lideranças, parceiros da iniciativa e especialistas, com abertura do presidente do Grupo 3corações, Pedro Lima, e do cacique geral Almir Suruí. A avaliação do Top 10 foi conduzida pelo head judge Silvio Leite, uma das maiores autoridades de cafés especiais do mundo.
A premiação para os dez finalistas somou mais de R$ 130 mil, assegurando a compra das sacas com valorização e remunerando financeiramente os vencedores. O campeão teve as sacas adquiridas por R$ 5.000 cada, valor cerca de cinco vezes maior que a média do café commodity nesta safra (R$ 900 por saca) e aproximadamente duas vezes o praticado entre cafés especiais já valorizados no mercado. Além dessa valorização na compra, os três primeiros colocados receberam um prêmio extra em dinheiro: o campeão levou R$ 25.000; o segundo colocado, que teve as sacas compradas a R$ 4.500 cada, recebeu R$ 15.000; e o terceiro, com sacas a R$ 4.000, recebeu R$ 10.000. Do 4º ao 10º lugar, as sacas foram compradas a R$ 3.000 cada, com prêmios extras de R$ 5.000 (4º), R$ 4.000 (5º) e R$ 1.500 (6º ao 10º). Além do Top 10, todos os indígenas que enviaram suas amostras e cumpriram o regulamento terão seus cafés comercializados de forma personalizada na linha Rituais.
“É uma grande alegria para mim e para a minha família, porque é o resultado de um trabalho que fazemos desde o plantio até a colheita, até chegar à xícara. A iniciativa do Grupo 3corações tem nos motivado bastante a trabalhar na cafeicultura, porque nos mostra que podemos fazer um produto de qualidade”, celebra Manasses Oykoeter Suruí.
Em 2026, o concurso passou a contar com a chancela da BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais) que, junto ao Head Judge Silvio Leite e ao time de juízes, recebeu as amostras e operacionalizou o resultado do concurso. Desde a primeira edição, em 2019, o Concurso Tribos já adquiriu mais de 1.200 sacas de raros microlotes. O projeto busca o máximo potencial de qualidade, mas a parceria de Rituais com os indígenas é completa: a marca garante a compra de 100% da safra, com valorização (ágio) de acordo com a qualidade alcançada.
Do preparo à criação: Copa Barista e Copa Harmonizações
A Copa Barista nasceu a partir da troca entre os coordenadores do Projeto Tribos e as lideranças indígenas, com o objetivo de profissionalizar os jovens como baristas, capacitando-os para uma nova carreira na cadeia do café e permitindo que atuem de forma completa e com maior conhecimento. Ao todo, já são 56 jovens indígenas formados nas duas edições, que terão a chance de ampliar sua profissionalização no universo do café.
Já a Copa Harmonizações é a continuidade dessa formação. Diante do engajamento da primeira turma, quem competiu na Copa Barista no ano passado voltou em 2026 com o desafio de criar receitas autorais com o Robusta Amazônico. A competição teve dois ganhadores: Thomas Oypagawaromb Flegler Suruí, de 19 anos, com o drink Aurora Tropical, que combina café coado, suco de laranja, xarope de maçã verde e água com gás; e Pamasoe Sameiwai E Waled Ibikayed Estéfane Suruí, de 24 anos, que apresentou o drink Pamasoe, feito com café, suco de coco, xarope de pêssego, água tônica e limão. “É um nome em Tupi-Mondé e está relacionado ao sentido de ‘nosso saber’ ou ‘nossa sabedoria’. Acho que combina bastante com o drink porque é um nome meu também”, conta o barista.
Top 10 do Concurso Tribos 2026
- 1º – Manasses Oykoeter Suruí – 91,11 pontos
- 2º – Joel Oyyeter Suruí – 90,68 pontos
- 3º – Goemanhama Rifate Suruí – 90,57 pontos
- 4º – Iremar Suruí – 90,29 pontos
- 5º – Denilson Suruí – 90,07 pontos
- 6º – Eleno Suruí – 89,86 pontos
- 7º – Maria Kawangawa Cinta Larga Suruí – 89,86 pontos
- 8º – Motira Labiway Suruí – 89,71 pontos
- 9º – Wilson Suruí – 89,68 pontos
- 10º – Ferrari Suruí – 89,61 pontos







