Ainda é fevereiro e já se tem um forte concorrente para o título de melhores leituras do ano: A vida dela – contos de Toshiko Tamura definitivamente me surpreendeu. A obra foi apresentada em um post no Instagram, informando sobre a disponibilização de uma tradução inédita para o português e seu acesso gratuito em PDF pelo Grupo de Pesquisa Pensamento Japonês da Universidade de São Paulo. Em uma matéria que anunciava o livro, um breve resumo sobre a vida e obra da autora indica que ela é uma precursora do feminismo na literatura japonesa.
Nunca havia ouvido falar de Tamura e decidi baixar o livro, sem expectativas, apenas como uma opção a ser lida durante os intervalos na academia. O primeiro treino foi razoável para passar pelos textos introdutórios, mas no segundo dia, ao ler os primeiros parágrafos do primeiro conto, a reação foi intensa: PUTAQUEPARIU PUTAQUEPARIUPUTAQUEPARIU.
Essa foi a intensão da reação.
O conto Sangue vivo foi uma excelente escolha para abrir esta coletânea. A narrativa traz uma situação aparentemente simples: uma mulher enfrenta uma crise em relação à sua falta de perspectiva com o amante. Após uma noite juntos, a presença do homem se transforma em uma realidade opressora, como um odor insuportável. Sem conseguir se expressar claramente, ela se vê sufocada com pensamentos confusos, mas não antes de desabafar de maneira violenta contra um peixinho dourado.
Este primeiro texto serve como um convite para o que está por vir na coletânea: um livro que apresenta protagonistas femininas cujas existências são impactadas por estruturas sociais opressoras, com personagens multifacetadas e pensamentos ambíguos que enriquecem a dimensão de suas realidades interiores. Assim como no primeiro conto, os demais também exploram o sofrimento que muitas vezes é manifestado em ações ou pensamentos violentos, libidinosos, contraditórios, egoístas, vingativos e até delirantes. As mulheres aparecem como vítimas, mas possuem agência, mesmo diante da escassez de recursos.
Os contos são narrados sob a perspectiva das protagonistas. É possível acessar seus pensamentos, e as narrativas são apresentadas a partir dessa visão. Chamou a atenção que Tamura mantém sempre o foco na narrativa para transmitir os sentimentos. Muitas vezes, pequenas observações da personagem ou eventos simples provocam uma ação interior intensa. Em aspectos, a leitura de A vida dela remete à experiência de ler outro autor japonês, Yasunari Kawabata, que já foi resenhado anteriormente. Além disso, a proximidade da leitura com Kitchen, de Banana Yoshimoto, deixou uma sensação de insatisfação devido às metáforas muito simples e até um tanto superficiais.
Toshiko Tamura viveu entre 1884 e 1945, um período em que o Japão tentava alinhar-se a uma concepção ocidental de modernidade. Na década de 1910, teve contato com ideias feministas e integrou um grupo pioneiro de escritoras que se sustentaram através de sua escrita, recuperando certa notoriedade no século XX. É importante ressaltar que, segundo o prefácio, o Japão do século X tinha políticas públicas que favoreceram o surgimento de escritoras, algo que foi se perdendo com a influência da cultura confucionista da China. Contudo, Tamura também esteve sujeita aos efeitos da sociedade patriarcal.
Um dos contos presentes em A vida dela, de tom totalmente autobiográfico, narra a experiência de uma escritora que é compelida pelo marido – um escritor com talentoso, mas inequivocamente menos dotado – a finalizar uma obra às pressas para que ela seja submetida a um prêmio. A escritora vence (com o mesmo destino que Tamura enfrentou em situações similares) e o marido se vangloria de ser o responsável pelo sucesso, ao mesmo tempo em que a menospreza. Muitos outros contos também surgem a partir de histórias mal resolvidas entre amantes, adicionando um toque de autobiografia.
Em um determinado conto, a personagem feminina é retratada unicamente como vítima, o que não surpreende: uma criança é vítima de abuso sexual na comunidade, confiando em um adulto que aparentava ser gentil. A violência vai além do ato em si, pois a menina deve também lidar com as reações da família e vizinhos, refletindo a clássica inversão de culpa que frequentemente ocorre em situações desse tipo.
A vida dela se destaca como uma coletânea de contos com uma homogeneidade impressionante, apresentando textos de altíssima qualidade que despertaram um desejo de conhecer mais sobre a autora. Para os interessados, o PDF pode ser baixado gratuitamente (o arquivo também será disponibilizado ao final deste texto). Ter um exemplar físico deste livro seria um desejo, e espera-se que alguma editora considere a publicação de outras obras de Toshiko Tamura.
É relevante mencionar que o Grupo de Pesquisa Pensamento Japonês da Universidade de São Paulo opera na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH, ou féféléchi) e recebe apoio do CNPq, inserido na estrutura de uma universidade pública estadual, financiada por um programa federal que apoia a ciência. As traduções são realizadas por Daniela Motano Patrocínio, Igor T. Yamanaka, Karen Kazue Kawana, Mariane Andrade, Pedro Malta Chicaroni e Thais Diehl Bresolin.






