O cinema brasileiro contemporâneo tem demonstrado excelência em vários longas-metragens lançados nos últimos anos. Entre eles está “Virtuosas”, que integrou a programação da 49ª Mostra Internacional de São Paulo e agora chega, por fim, ao circuito comercial.
Na marcante estreia em longa-metragem de ficção da diretora catarinense Cintia Domit Bittar, três jovens são escolhidas por sorteio para um retiro do qual supostamente sairiam virtuosas, prontas para desempenhar o papel social que parte da população brasileira considera ideal.
Personagens em foco
Quem comanda o retiro é Virgínia Heinzel, virtuosa por excelência, papel que rende a Bruna Linzmeyer sua atuação mais expressiva até agora. Trata-se de uma mulher bem-sucedida, que manipula as demais e não hesita diante das consequências para conquistar seus objetivos. A interpretação de Linzmeyer faz com que o olhar da personagem transmita uma crueldade mascarada de acolhimento.
Uma das sorteadas é Lorena, interpretada por Juliana Lourenção. Famosa e casada com um deputado, vive uma crise repleta de medos e inseguranças. Ela comparece com o bebê e acredita que uma bruxa o está assombrando, já que a criança não para de chorar. Curiosamente, é quem mais se aproxima do ideal de mãe e, por isso, sua participação no grupo se torna essencial.
A segunda é Barbara, vivida por Sarah Motta. Funciona como uma espécie de curinga: por vezes se inclina à submissão total, por outras parece desconfiar de algo, ainda que se mostre facilmente manipulável — uma inocente útil para a vilania que se instalará.
A terceira sorteada, Germina, vivida com talento por Maria Galant, parece um corpo estranho naquele ambiente. Desde o começo, a direção a posiciona como antagonista e, portanto, como voz questionadora fundamental para a crítica que o longa exibe por meio de imagens irônicas. Germina suspeita que algo estranho acontece ali e planeja produzir uma reportagem sobre o que observa na casa.
Existe ainda uma quinta mulher, Goreti, interpretada por Brisa Marques. Assistente de Virgínia, ela aparenta ser a típica jovem ingênua que, no entanto, pode esconder algumas intenções, como um desejo carnal pela patroa.
O início do longa se assemelha a outras produções que satirizam o conservadorismo brasileiro atual, a exemplo de “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro, ou o recente “Todo o Sentimento”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa. Acompanhamos uma palestra repleta de discursos de autoajuda, música de gosto duvidoso, comoção forçada e outros elementos do gênero.
À medida que a trama avança, os contornos se tornam nítidos; a imersão no cinema de gênero se anuncia mais decidida e promissora do que em outras produções recentes, que frequentemente apenas tangenciam o terror, pois seus diretores receiam aprofundar de fato um gênero mais comercial.
Passada meia hora, as máscaras — tanto dos personagens quanto do próprio filme — começam a cair. Surpreendentemente, a trama se torna ainda mais envolvente, indo na contramão do que costuma ocorrer nesse tipo de narrativa. O longa remete a outros filmes, mas isso não é demérito, pois a maioria deles fica bem abaixo do que a diretora alcança aqui com estilo apurado.
Direção, estilo e crítica
“Virtuosas” apresenta soluções de direção pouco comuns no cinema atual: o copo posicionado diante de Lorena, distorcendo seu corpo durante uma revelação, ou pistas das intenções de cada personagem pelo uso do foco, que pode recair no fundo do quadro, em um canto da imagem ou até no reflexo das mulheres na vidraça.
Numa cena de tensão, Lorena se ergue como um fantasma, na cama, às costas de Germina enquanto esta fotografa o bebê. Em outra passagem, Germina espia a conversa entre Virgínia e Lorena pelo reflexo de um pequeno espelho. São artifícios estilísticos frequentemente empregados por Brian De Palma. Consciente ou não, a cineasta seleciona bem suas referências.
A sátira ao conservadorismo contemporâneo funciona muito bem porque os diálogos primam pela inteligência, pelas ironias e pelas trocas de olhares. Aproxima-se de uma simplificação, mas apenas na medida necessária para reforçar o retrato daquelas mulheres e da situação. O acerto de tom é notável.
A elegância da encenação, sobretudo nos primeiros minutos, é essencial pelo contraste que estabelece com o que virá a seguir, quando o longa enfim se entrega ao gênero.
Trata-se de um filme de mulheres, no qual os homens são meros acessórios — quando não intrusos na dinâmica estabelecida. Mulheres aparentemente submissas, porém capazes de praticar maldades e traições. A falsidade é a moeda de troca.







