A diversidade gastronômica do Brasil é amplamente reconhecida, resultado não apenas da variedade de ingredientes disponíveis no território, como também da contribuição de diferentes povos que ajudaram a formar sua identidade cultural. Imigrantes italianos, japoneses, árabes e muitos outros deixaram heranças que, com o passar do tempo, foram incorporadas e ajustadas à mesa dos brasileiros.
No caso da culinária árabe, essa influência ultrapassa o tradicional quibe e a esfiha. Receitas, ingredientes, técnicas e hábitos foram integrados à gastronomia nacional e ganharam novas versões por aqui. Mas o que levou os sabores do Oriente Médio a conquistarem um espaço tão expressivo no Brasil?
Em entrevista à Itatiaia, a especialista em Pesquisa Gastronômica do Senac em Minas, Vani Pedrosa, explicou que a culinária árabe influenciou bastante a brasileira devido às semelhanças entre elas. Não apenas em relação aos ingredientes, mas também na forma de compreender a comida. Segundo Vani, a maneira como o brasileiro percebe a alimentação é herança da influência árabe. Nas duas culturas, os alimentos são tratados com respeito, e os momentos das refeições são importantes para reunir famílias e fortalecer vínculos.
“A cultura árabe teve grande influência na formação alimentar da cultura brasileira principalmente pelo modo estrutural com que eles veem a comida. Por exemplo, a comida como centro da família, comida como um ‘encontro’, como uma festa. Essa herança vem muito da forma dos árabes enxergarem a comida”, detalha.
Outra semelhança entre as culturas está nas combinações. Tanto brasileiros quanto árabes costumam unir ingredientes distintos em busca de novos sabores e harmonizações. Um exemplo é o uso recorrente de ervas frescas como hortelã, salsa e coentro. Além disso, o pão e o uso intenso de farinhas são outros elementos comuns às duas gastronomias.
Adaptações
Ainda que os pratos típicos árabes façam bastante sucesso no Brasil — a ponto de o quibe dividir a mesa de festas com a “brasileiríssima” coxinha — as receitas nem sempre conservam a forma original por aqui, passando frequentemente por adaptações, seja pelo paladar local, seja pela ausência de algum ingrediente.
“A cozinha árabe no Brasil é uma das mais bem preservadas, mas mesmo assim conta com adaptações. Por exemplo, a troca da carne de cordeiro pela carne de boi”, exemplifica.
Na região de origem, a carne de cordeiro é uma das mais tradicionais devido à criação do animal realizada há anos, tornando-se base histórica da culinária local. Enquanto no Brasil, a carne de boi se consolidou como símbolo da gastronomia do país.
Além da escolha da carne, o preparo das receitas também sofre alterações. Segundo Vani, o clássico quibe e a esfirra que conquistaram os brasileiros são bem diferentes quando feitos de forma mais tradicional. “Os quibes e as esfihas que comemos são adaptações de versões muito mais complexas. Por exemplo, nós temos o quibe cozido árabe. Que é tradicionalmente cozido em coalhada, chama-se labanie, praticamente você não vê aqui. Temos também as esfihas abertas, que são feitas de massa folhada, mas aqui no Brasil não é comum”, exemplifica.
Apesar das adaptações, Vani Pedrosa afirma que a culinária árabe está entre as mais bem preservadas no Brasil e que essas mudanças são necessárias para a difusão de uma cultura alimentar. “É muito natural que essas cozinhas sofram adaptações … essas diferenças existem e elas são adaptações que precisam ser feitas para exportação de uma cultura alimentar”.
Na visão da especialista, a preservação da gastronomia árabe vai além da valorização do alimento: representa um ato de resguardo cultural para um povo marcado por conflitos frequentes e instabilidades geopolíticas. “O mundo árabe atravessa e sempre atravessou muitos conflitos. A cozinha árabe é uma forma dessas pessoas recomeçarem em outros lugares, para onde elas migram. Então, a cultura árabe é uma unidade familiar, afetiva e econômica … preservam o gosto, a memória e a lembrança dessa terra”, reflete.







