Quem vai redesenhar a Grande Vitória: o poder público ou o investimento privado?

As cidades raramente mudam por causa de uma única grande obra. Elas se transformam pela soma de centenas de decisões que acontecem simultaneamente.

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Um edifício substitui uma antiga residência. Um terreno vazio recebe um condomínio. Uma avenida é requalificada. Uma nova estação melhora o acesso a determinado bairro. Um comércio aparece onde antes não havia movimento. Pouco a pouco, o valor da terra muda, novos moradores chegam e a própria dinâmica urbana começa a se reorganizar.

É justamente esse processo que a Grande Vitória vive hoje.

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De um lado está o investimento privado. A região chegou a 2026 com cerca de 18,9 mil unidades em construção, segundo dados divulgados pelo Sinduscon-ES. Uma parcela expressiva desse estoque está concentrada nos segmentos de médio e alto padrão, ao mesmo tempo em que apartamentos compactos também ganharam espaço na produção imobiliária recente.

Do outro lado está o poder público, responsável pelas decisões que tornam determinadas transformações possíveis — ou não.

Um exemplo recente está no Centro de Vitória. Em julho, o município instituiu o Programa de Reabilitação da Área Central, com medidas voltadas à simplificação de licenciamentos, retrofit, novos empreendimentos e atração de moradores. A estimativa divulgada pela Prefeitura é de mobilizar mais de R$ 6 bilhões em investimentos privados na região.

O exemplo revela uma característica fundamental do desenvolvimento urbano: investimento público e privado dificilmente funcionam de maneira completamente isolada.

O mercado pode construir apartamentos, lojas, hotéis e escritórios. Mas sua decisão normalmente considera ruas, transporte, segurança, saneamento, legislação, equipamentos públicos e qualidade urbana.

Da mesma forma, uma prefeitura pode requalificar calçadas, alterar parâmetros urbanísticos e investir em infraestrutura. Mas dificilmente conseguirá revitalizar grandes áreas da cidade apenas com recursos públicos.

A cidade contemporânea nasce justamente dessa relação.

O risco aparece quando um lado avança sem que o outro acompanhe.

Grandes empreendimentos sem infraestrutura podem gerar sobrecarga viária e urbana. Grandes investimentos públicos sem atividade econômica e ocupação podem resultar em espaços caros de manter e pouco utilizados.

Por isso, talvez não seja necessário escolher quem irá redesenhar a Grande Vitória.

A pergunta mais importante é como esses investimentos serão coordenados.

Serra, Vitória, Vila Velha, Cariacica e Viana continuarão recebendo novas moradias, empresas e infraestrutura. E muitas das decisões tomadas agora produzirão efeitos durante décadas.

Eleições acontecem a cada quatro anos.

Empreendimentos podem permanecer por cinquenta, setenta ou cem.

Quando discutimos construção civil, legislação urbana e investimento, portanto, não estamos falando apenas sobre prédios.

Estamos decidindo, pouco a pouco, qual Grande Vitória será deixada para as próximas gerações.

E o planejamento da Grande Vitória precisa ser pensado justamente dessa forma.

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Marcos Paulo Bastos
Marcos Paulo Bastos
Com 28 anos, é microempresário, CEO da Edificar Gestão em Projetos Civis, Técnico em Edificações (CRT-ES) e graduando em Arquitetura e Urbanismo. Com foco em temas como desenvolvimento urbano, arquitetura, projetos civis. Marcos busca trazer uma visão abrangente sobre o potencial transformador da arquitetura na vida das pessoas e na construção das cidades.

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