Redescubra o amor na terceira idade

Durante grande parte da vida, observou-se uma avó dedicada a cuidar dos filhos, maridos e netos. Todas as refeições eram servidas na mesa, as roupas estavam sempre organizadas e a casa se mantinha impecável. Contudo, o falecimento de seu parceiro e o crescimento dos filhos para a vida adulta mudaram sua rotina.

Continua após a publicidade

Após um período, foi feita uma pergunta sobre o desejo de retomar a vida amorosa, que foi recebida com uma risada tímida e a resposta: “Estou velha demais para isso”, disse, aos 63 anos. Embora houvesse um desejo evidente, algo parecia enraizado nela, como se fosse errado encontrar alguém e flertar não fosse mais uma possibilidade.

A avó se reflete em muitas outras mulheres que são viúvas ou divorciadas com quem se conversa. É provável que também se conheça alguém nessa situação — ou até se identifique com essa narrativa.

Continua após a publicidade

Cuidar, agradar e se colocar em segundo plano

Dedicando-se a cuidar da família ao longo da vida, a identidade da mulher frequentemente é impactada. “Uma pergunta que parece simples — ‘E você, do que gosta?’ — pode se tornar surpreendentemente difícil de responder”, afirma a psicóloga Adriana Santiago.

Na prática, a especialista relata que frequentemente atende mulheres que desde cedo aprenderam a cuidar, agradar e sustentar emocionalmente a todos, enquanto suas próprias necessidades ficam em segundo plano. Isso pode acarretar um preço alto, gerando padrões psicológicos de autossacrifício e submissão. “Ela se torna excelente em perceber o que todos ao seu redor precisam e, ao mesmo tempo, quase uma estranha em relação aos seus próprios desejos.

A boa notícia é que nunca é tarde para recomeçar, visto que o cérebro continua sendo plástico, relacional, capaz de aprender, criar vínculos e experimentar novas formas de prazer. “Costumo brincar que não existe uma notificação chega aos 60 ou 70 anos dizendo: ‘Prezada senhora, informamos que seu desejo foi aposentado’”.

Este processo pode começar de forma gradual. “Não é necessário romper uma relação ou tornar-se viúva e, de imediato, fazer paraquedismo, mudar de país e comprar uma moto”, brinca a especialista. O primeiro passo pode ser simplesmente redescobrir a curiosidade sobre si mesma. Sem se deixar guiar pelas preferências do marido ou pelo que os filhos acham adequado, vale a pena perguntar: o que eu gosto neste momento da minha vida?

Iniciar atividades prazerosas, como aulas de dança, cursos, viagens, ou sair para conhecer novas pessoas e cuidar da própria aparência também faz parte da jornada. Contudo, principalmente, Adriana sugere experimentar tomar pequenas decisões sem consultar a “assembleia” familiar em sua mente.

“É fundamental reconstruir uma identidade com diversos pilares: eu sou mãe, talvez avó, profissional, amiga, mulher, alguém que deseja, pensa, cria, aprende, se diverte e ainda tem muito a explorar”, afirma a especialista.

Entretanto, esse processo pode ser desafiador e, quando acompanhado de sentimentos intensos de culpa, medo ou sofrimento, a terapia pode ser um espaço importante para compreender a origem dessas crenças e desenvolver novas formas de visualizar a vida.

Se apresentar ao mundo nesta fase

Geracionalmente, aprendemos a ver o homem mais velho como interessante, charmoso e experiente. “Por sua vez, as mulheres mais velhas frequentemente precisam quase formular um requerimento para dizer: ‘Com licença, eu ainda posso desejar e ser desejada?’ É a interseção do etarismo com o machismo”, observa Adriana.

Essa construção cultural propicia a sensação de que é necessário parecer jovem para ser notada, quando a atração é algo mais complexo e envolve cheiro, segurança, humor, inteligência e intimidade. “Ainda bem, porque se não, o amor dependeria exclusivamente da iluminação de camarim.”

Contudo, é vital não restringir a relação consigo mesma à aparência, mas também considerar a experiência física: força, movimento, sensualidade, conforto e presença. “Nosso corpo não é apenas algo que deve ser observado pelos outros; é o espaço onde vivemos a vida”, afirma a psicóloga. A partir dessa mudança de perspectiva, a questão deixa de ser “como escondo minha idade?” e passa a ser “como desejo me apresentar ao mundo nesta fase?”.

Questionar o que foi aprendido

O etarismo não se manifesta unicamente no olhar dos outros. Pensamentos como “estou velha para isso”, “não deveria estar namorando” ou “sexo nesta fase da vida não é adequado” demonstram como um julgamento socialmente construído pode ser internalizado.

Para desafiar essas crenças limitantes, Adriana sugere submetê-las a um tipo de interrogatório: quem disse isso? De onde essa regra provém? Eu ainda concordo com essa percepção? Isso melhora ou empobrece a minha vida?

Além disso, a especialista destaca um ponto crucial: filhos adultos não são o “conselho administrativo” da vida amorosa da mãe. Eles podem experimentar sentimentos de estranheza ou receio, sobre os quais é possível dialogar. Entretanto, a autonomia afetiva deve sempre pertencer a ela.

Ampliar as possibilidades

Um novo relacionamento na maturidade pode assumir formas distintas daquelas vividas anteriormente. E, assim como em qualquer fase, há várias opções: algo casual, um namoro em que cada um mantém sua própria residência, uma relação duradoura ou temporária.

“Talvez, portanto, a questão não seja ‘será que ainda dá tempo de viver um amor?’, mas ‘agora que compreendo melhor quem sou, que tipo de relação eu gostaria de estabelecer?”

Isso se deve ao fato de que uma mulher mais velha traz a um encontro décadas de vivências, humor, cicatrizes, inteligência emocional, referências, escolhas, erros e acertos. Com o tempo, ela pode desenvolver uma compreensão mais clara sobre o que deseja e, principalmente, sobre o que já não quer mais.

Algumas, inclusive, após anos cuidando dos outros, encontram prazer na liberdade e na autonomia. Por tal motivo, optam por viver sem um parceiro, e essa também é uma escolha legítima. Afinal, envelhecer pode representar a ampliação das possibilidades e a construção de uma vida que faça sentido, seja em um relacionamento ou fora dele.

Continua após a publicidade
Redação
Redação
Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
29ºC
Máxima
28ºC
Mínima
22ºC
HOJE
22/09 - Ter
Amanhecer
05:30 am
Anoitecer
05:37 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
8.23 km/h

Média
23ºC
Máxima
24ºC
Mínima
22ºC
AMANHÃ
23/09 - Qua
Amanhecer
05:29 am
Anoitecer
05:37 pm
Chuva
1.93mm
Velocidade do Vento
5.05 km/h

A metáfora da cela (Cenário, Espaço, Lugar e Ambiente)

Sidnei Vicente

Leia também