Quando abrimos um livro de Kazuo Ishiguro, já sabemos que seremos convidados a olhar para o mundo de uma maneira diferente. Em Klara e o Sol, o autor britânico vencedor do Nobel nos presenteia com uma das narradoras mais fascinantes e singulares da literatura contemporânea: Klara.
Contada em primeira pessoa, a história nos apresenta um universo futurista que mistura ficção científica com o tom reflexivo de obras no estilo de Black Mirror. A grande sacada do livro está no fato de que Klara não é humana; ela é uma Inteligência Artificial, especificamente um AA (Amigo Artificial) projetado para fazer companhia a jovens.
Um Olhar Inocente sobre um Mundo Complexo
Como Klara passa os primeiros momentos de sua existência confinada a uma vitrine de loja observando o mundo exterior através de fragmentos e luzes, ela mesma está descobrindo a realidade aos poucos. Não espere explicações mastigadas ou termos técnicos complexos logo de cara. Acompanhamos a narrativa absorvendo o ponto de vista peculiar da protagonista, que traduz o comportamento humano e as dinâmicas sociais daquele futuro com uma mistura de ingenuidade, perspicácia e profunda observação.
Enquanto a trama se desenrola — revelando os mistérios do enredo daquele jeito sutil que só Ishiguro sabe fazer —, somos puxados para uma rede de reflexões profundas. Mais do que uma simples distopia tecnológica, o livro funciona como uma grande alegoria sobre:
- O afeto e a solidão: O que somos capazes de fazer para evitar nos sentir sós?
- A essência humana: O que nos torna únicos e especiais?
- As relações e a fé: Questões sobre amizade, amor, desigualdade social e até sobre a figura de “deus” e a busca por consolo.
Uma Companhia Difícil de Deixar para Trás
É impossível não se apegar à doçura e à inocência de Klara. É daquelas leituras que, ao chegarmos perto das páginas finais, dá até um aperto no peito e uma ponta de dó por ter que se despedir dos personagens. Ao fechar o livro, fica aquela clássica sensação de “acabou”, misturada com a certeza de que é uma obra feita para ser revisitada — uma, duas, três vezes —, onde cada nova leitura certamente revelará camadas que passaram despercebidas na primeira passada de olhos.
Se você gosta de histórias que unem sensibilidade, ficção científica instigante e personagens inesquecíveis, esta é uma indicação indispensável.
“Outra palavrinha muito repetida neste livro é ‘solidão’. O que somos capazes de fazer (ou imaginar fazer) para não nos sentirmos sós? Será possível seguir em frente quando perdemos a pessoa mais importante de nossas vidas?”
Ficha Técnica:
Título: Klara e o Sol
Autor: Kazuo Ishiguro
Tradução: Ana Guadalupe
Editora: Companhia das Letras, 2021
Páginas: 330
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