Ler Kazuo Ishiguro é sempre um exercício de imersão em universos onde o tempo parece ter uma consistência própria. Depois de me encantar com obras como Os Vestígios do Dia, Não me Abandone Jamais e O Gigante Enterrado, chegou o momento de me render a uma vertente mais íntima e cadenciada do autor: os contos. Em Noturnos – Histórias de Música e Anoitecer, o Nobel de Literatura nos convida a uma degustação literária onde a música não é apenas um tema, mas a própria alma que embala as páginas.
O livro reúne cinco narrativas que encontram na música o seu primeiro grande elo. No entanto, à medida que avançamos pelas páginas, percebemos que há outro fio condutor costurando essas histórias: relacionamentos em crise e casamentos desgastados pelo tempo ou pelas expectativas. Seja no embalo melancólico de Veneza em “Crooner” ou na calmaria aparente de “Malvern Hills”, a música funciona como um catalisador para que as personagens exponham suas vulnerabilidades, frustrações e delicadas tentativas de reconciliação com a própria vida.
Apesar de carregar o “anoitecer” no subtítulo — uma atmosfera que de fato brilha intensamente em contos como o homônimo “Noturno” —, o que realmente fascina é a habilidade de Ishiguro em transformar o cotidiano em algo extraordinário sem recorrer a grandes grandiloquências. As tramas são prosaicas, feitas de pequenos acontecimentos, mas pontuadas por momentos de puro inusitado e, em alguns instantes, por um humor refinado e hilário — é impossível passar imune à cena da bota fervendo na panela para fingir cheiro de cachorro em casa!
O grande triunfo do volume, contudo, reside na maestria dos diálogos. Ishiguro constrói páginas e páginas conduzidas quase inteiramente por travessões e conversas que revelam mundos interiores complexos em poucas pinceladas. É um domínio da linguagem tão absoluto que nos faz sentir embalados pelos improvisos aparentes de um solista de jazz.
Noturnos é uma leitura que pede calma. Não é um livro para ser devorado às pressas, mas sim saboreado aos pouquinhos, sorvendo cada detalhe e cada personagem. Fica a dica imperdível para quem deseja descobrir uma faceta mais leve, musical e profundamente humana de um dos maiores autores da nossa atualidade.
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