Professora Léa Brígida encantou-se: A vanguardista que abriu caminho na história econômica capixaba

A comunidade acadêmica do Espírito Santo perdeu, nos últimos dias, uma de suas mais importantes historiadoras. Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa, professora que dedicou décadas de sua vida ao Departamento de História do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), faleceu deixando um legado que ultrapassa os limites da academia e se impõe como parte constitutiva da própria memória capixaba e com grande relevância para campo da história econômica brasileira.

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Chamá-la de vanguardista não é força de expressão, nem bajulação acadêmica, nem retórica de despedida, mas reconhecimento de fato do seu protagonismo, num contexto de dominação masculina e vigilância diligente dos órgãos de repressão e controle da Ditadura Militar e dos seus colaboradores voluntários e involuntários, visíveis e invisíveis. 

Léa Brígida foi a primeira docente da Ufes a concluir mestrado e doutorado em História, em um tempo no qual pesquisar significava vasculhar arquivos desorganizados, sem os recursos tecnológicos que hoje facilitam o trabalho de qualquer historiador. Tudo estava por construir, como Léa Brígida enuncia ao narrar passagem pelo Departamento de História da UFES, como aparece no documentário “Entre o Ontem, o Hoje e o Amanhã: 70 anos de História na UFES” compartilho no Youtube! 

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Coube a ela, ainda nos anos 1970, abrir uma trilha até então inexistente: a da história econômica do Espírito Santo, campo que, até sua dissertação sobre a Estrada de Ferro Vitória a Minas, permanecia praticamente inexplorado em profundidade e pesquisa. Depois se dedicou com paixão e esforço à investigação da política mineral brasileira, que era e é um dos pilares da formação do capitalismo dependente e periférico que se constitui no Brasil, tendo o Espírito Santo como seu grande suporte e articulador dependente, oferecendo governos locais favoráveis e colaboracionistas, mão de obra, portos, estradas e ferrovias. 

Não é exagero dizer, se for peço de antemão desculpas acadêmicas,  que Léa Brígida abriu caminho numa verdadeira floresta fechada, a floresta da historiografia capixaba, onde pouquíssimos se aventuravam. Sua obra sobre a EFVM e sobre a exportação do minério de ferro entre 1910 e 1942 tornou-se referência obrigatória, ancorada no diálogo com autores como Gabriel Augusto de Melo Bittencourt, Ivan Borgo, Maria da Penha Smarzaro Siqueira, Renato Pacheco, Caio Prado Júnior e Celso Furtado, e permanece atual sempre que o tema das ferrovias volta ao noticiário capixaba, como ainda ocorre hoje.

Sua trajetória acadêmica e intelectual, contudo, não se resume à pesquisa  e à docência universitária. Léa Brígida também se dedicou à construção de materiais didáticos  voltados ao ensino de história regional, contribuindo para que gerações de estudantes capixabas pudessem reconhecer sua própria história nas salas de aula. Foi, além de pesquisadora, professora no sentido mais pleno da palavra: alguém que formou pessoas, não apenas produziu conhecimento e entregou relatórios de pesquisa.

É justo, neste momento de despedida, lembrar também que sua trajetória se insere em um campo historiográfico que ainda hoje precisa enfrentar assimetrias de reconhecimento entre historiadores e historiadoras. Léa Brígida abriu caminho não apenas para um tema, mas para outras mulheres que, como ela, dedicaram suas vidas à pesquisa histórica no Espírito Santo, muitas vezes sem o devido destaque público.

Neste ano em que se completam 120 anos da chegada da EFVM a Colatina, 30 anos de uma das obras mais importantes sobre o ciclo madeireiro capixaba e 50 anos de sua dissertação seminal, a coincidência das efemérides quase parece um convite do destino para revisitarmos sua obra e reafirmarmos sua importância.

Léa Brígida deixa filhos, netos, uma biblioteca valiosa e, sobretudo, um campo de estudos consolidado que muitos hoje seguem cultivando graças ao caminho que ela abriu. Cabe a nós, que ficamos, a tarefa de não deixar essa trilha se fechar novamente: dar continuidade à pesquisa, à formação de novos historiadores e ao reconhecimento devido a quem, como ela, colaborou e promoveu da história do Espírito Santo um campo de conhecimento significativo, plural e aberto.

Além disso, cabe lembrar que militou no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo no qual conquistou a presidência da entidade, tornando-se a primeira mulher a governá-la. Também foi confreira da Academia Feminina Espírito-santense de Letras – AFESL ocupando a Cadeira 19, cuja Patrona é Hilda Pessoa Prado, participando com afinco e protagonismo nas atividades culturais, científicas e sociais da instituição literária.

À família, aos amigos e à comunidade acadêmica capixaba, os nossos sinceros sentimentos.

No documentário “Entre o Ontem, o Hoje e o Amanhã: 70 anos de História na UFES” (https://www.youtube.com/watch?v=zJzMZ34JnGI&t=1705s), podemos ouvir uma das últimas entrevistas dadas por Lea Brígida contando sua  história de vida profissional  como professora e pesquisadora no Departamento de História da UFES. O registro documental encontra-se entre os minutos 2:46-4:24 do documentário.


Fontes:

Documentário no YouTube
BORGES, Vinicius. Entre o Ontem, o Hoje e o Amanhã: 70 anos de História na UFES – DOCUMENTÁRIO. [S. l.]: YouTube, 30 out. 2024. 1 vídeo (aproximadamente 1h). Publicado pelo canal Vinicius Borges. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zJzMZ34JnGI. Acesso em: 11 set. 2026.

Página da UFES

HISTÓRIA UFES. Falecimento da Profa. Dra. Léa Brígida Rocha Alvarenga Rosa. [S. l.]: História UFES, [2026]. Disponível em: https://historia.ufes.br/pt-br/conteudo/falecimento-da-profa-dra-leia-brigida-rocha-alvarenga-rosa. Acesso em: 11 set. 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO. Ufes comunica com pesar o falecimento da professora aposentada Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa. Vitória: Ufes, 9 abr. 2026. Disponível em: https://www.ufes.br/conteudo/ufes-comunica-com-pesar-o-falecimento-da-professora-aposentada-lea-brigida-rocha-de. Acesso em: 11 set. 2026.

Matéria do Tribuna Online
MORRE Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa, referência da história e cultura do ES. Tribuna Online, Vitória, 4 set. 2026. Disponível em: https://tribunaonline.com.br/cidades/morre-lea-brigida-rocha-de-alvarenga-rosa-referencia-da-historia-e-cultura-do-es-329991. Acesso em: 11 set. 2026.

Artigo da Revista de História (USP)
PAULA, Eurípedes Simões de. Noticiário. Revista de História, São Paulo, v. 51, n. 101, p. 461-496, 1975. DOI: 10.11606/issn.2316-9141.rh.1975.132937. Disponível em: https://revistas.usp.br/revhistoria/article/view/132937. Acesso em: 11 set. 2026.

Posts no Instagram
ADUFES.Publicação no Instagram. [S. l.], [2026]. Instagram: @[perfil]. Disponível em: https://www.instagram.com/p/Dc9qp_qD2Ow/. Acesso em: 11 set. 2026.

IHGES.Publicação no Instagram. [S. l.], [2026]. Instagram: @[perfil]. Disponível em: https://www.instagram.com/p/Dc2DRWPsDd7/. Acesso em: 11 set. 2026.

 

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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