O Brasil acumula eventos extremos enquanto a ciência alerta para um El Niño de grande intensidade.
Algumas lembranças permanecem porque poderiam ter acabado de outra forma.
Na infância, uma enchente obrigou minha família a deixar a cidade em uma embarcação do Corpo de Bombeiros. O rio havia transbordado e a água avançou por quilômetros.
Décadas depois, outra experiência trouxe a mesma sensação de vulnerabilidade. Em julho deste ano, deixamos o Rio de Janeiro na noite anterior a uma forte ventania. Alguns dos lugares que pretendíamos visitar seriam atingidos horas depois.
O episódio deixou duas mortes, desabamentos, resgates, quedas de árvores e interrupções no fornecimento de energia elétrica.
Segundo a Agência Brasil, as rajadas chegaram a 105 km/h no Aeroporto Tom Jobim (Galeão) e mais de 510 mil imóveis ficaram na escuridão.
Há uma razão para olhar esses acontecimentos com atenção.
Em 1º de setembro, sete órgãos federais divulgaram conjuntamente um novo boletim sobre o fenômeno, entre eles, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e a Defesa Civil. O documento informa que há mais de 90% de probabilidade do fenômeno El Niño se configurar como muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro deste ano.
O cenário previsto é desigual. A Região Sul, especialmente o Rio Grande do Sul, além de partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul, apresenta maior probabilidade de chuva acima da média.
Áreas do Norte e do Nordeste aparecem entre as regiões com tendência de condições mais secas. Na Região Sudeste, Minas Gerais e Espírito Santo aparecem entre as regiões com maior probabilidade de chuva abaixo do normal. As temperaturas, segundo o boletim, devem permanecer acima da média em grande parte do país.

É nesse cenário que surge a pergunta central desta reportagem:
O que acontece quando fenômenos ambientais capazes de produzir desastres encontram uma sociedade que nem sempre está preparada para enfrentá-los?
O risco começa antes do desastre. O problema não está apenas no fenômeno que chega. Está também nas condições que ele encontra.
O INPE relaciona o aquecimento global a alterações na frequência e intensidade de chuvas, inundações, mas também a tempestades severas, vendavais, ondas de calor e secas prolongadas.
Isso não significa que toda chuva forte, todo vendaval ou toda seca tenha como causa direta a mudança climática.
Significa que o clima está sendo observado em transformação. E os extremos fazem parte dessa discussão científica.


Ao mesmo tempo, o território também muda. Cidades crescem. Áreas naturais são ocupadas. Superfícies que absorviam água passam a ser cobertas por asfalto, concreto ou construções.
Isso pode aumentar a exposição da população quando determinado fenômeno acontece.
O professor doutor Maurice Barcellos, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), tem experiência na área de Engenharia Agrícola, com ênfase em Recursos Hídricos, Irrigação e Drenagem e Manejo de Bacias Hidrográficas. Para ele, o desastre precisa ser compreendido pela relação entre o fenômeno e as condições encontradas no território.
Em resposta à reportagem ele explicou:
“Não podemos atribuir os desastres exclusivamente à chuva. O risco resulta da combinação entre ameaça climática, características ambientais do território e vulnerabilidade social e urbana”, disse o professor.
A afirmação direciona o olhar científico para outro ponto. Não se pergunta somente quantos milímetros choveu. É preciso observar onde a chuva caiu e qual era a condição do solo para absorver.
Água x mapa político
Uma chuva pode atingir uma área muito maior do que os limites de um município.
O mesmo acontece com os rios. Uma bacia hidrográfica pode interligar diferentes cidades. A água percorre o território independentemente das divisões administrativas. Por isso, decisões tomadas em um município podem produzir consequências em outro ponto da mesma bacia.

A ocupação urbana também interfere nesse percurso.
Quando a chuva encontra terra e vegetação, parte da água penetra no solo. Quando encontra asfalto, concreto, casas e outras superfícies impermeáveis, uma quantidade maior escorre rapidamente pela superfície.
Se o sistema de drenagem não consegue conduzir esse volume, a água pode se acumular nas áreas mais baixas.
Nas encostas, a ocupação também pode aumentar a exposição de pessoas a determinados riscos.
Significa que as características do território podem influenciar de forma importante a dimensão de um dano.
Uma chuva não conta toda a história
O volume de chuva é apenas uma das informações necessárias para compreender um evento. Uma mesma quantidade de água pode produzir respostas diferentes dependendo do período em que cai.
Maurice usa um exemplo para explicar essa diferença: uma chuva de 50 milímetros distribuída ao longo de 24 horas pode produzir uma resposta muito diferente daquela provocada pelo mesmo volume concentrado em apenas 30 minutos.

Sinais no Brasil
Os acontecimentos recentes ajudam a dimensionar a discussão.
Em julho/2026, um vendaval atingiu o Rio de Janeiro. Na capital, duas pessoas morreram após o desabamento de um muro. Ao todo, houve cinco desabamentos no estado e os bombeiros resgataram 31 pessoas, segundo a Agência Brasil.
Em agosto, tempestades atingiram 114 municípios do Rio Grande do Sul. A Defesa Civil estadual informou uma morte, cinco feridos e 2.306 pessoas desalojadas.
Em Santa Catarina, tempestades severas acompanhadas de granizo, ventos fortes e alagamentos atingiram municípios da região oeste. A Defesa Civil estadual identificou indícios de tornado em Campo Erê e iniciou avaliação técnica sobre o fenômeno.
Os casos citados são acontecimentos diferentes, provocados por sistemas meteorológicos diferentes. Não devem ser tratados como uma única causa.

Mas, eles revelam algo concreto:
Eventos severos já estão produzindo consequências sobre cidades e populações, enquanto os órgãos de monitoramento projetam um El Niño de intensidade muito forte para os próximos meses.
Ciência: antecipação de risco
O Brasil dispõe de estruturas capazes de acompanhar fenômenos meteorológicos e ambientais antes que eles produzam seus efeitos mais graves.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) produzem informações que ajudam a identificar condições de risco.
Em julho/2026, por exemplo, o Cemaden registrou 157 alertas relacionados a riscos hidrológicos e geológicos e 77 ocorrências.

O conhecimento disponível permite identificar áreas suscetíveis a determinados riscos e acompanhar sua evolução.
Maurice destaca justamente essa possibilidade.
“Podemos utilizar informações sobre relevo, características do solo, ocupação urbana, cobertura vegetal, comportamento dos rios, histórico de chuvas e modelos climáticos e hidrológicos para construir mapas de risco e cenários futuros”, informou o professor.
O problema que essa reportagem passa a investigar não está, exatamente, nos fenômenos que estão alarmando a nossa sociedade. A pergunta é outra:
O que há entre os dados produzidos pela ciência e a proteção da população?
O alerta de risco meteorológico precisa chegar às pessoas. Precisa ser compreendido. E precisa permitir que essas pessoas tomem uma decisão sobre o que fazer.
Quando o alerta encontra a realidade, é nesse intervalo que a preparação ganha importância.
Quem será avisado?
Como a informação chegará?
Qual área poderá precisar ser evacuada?
Onde estarão as pessoas?
Como serão atendidos idosos, crianças e pessoas com mobilidade reduzida?
Como continuarão funcionando os serviços essenciais?
São perguntas que não deveriam começar a ser respondidas, por exemplo, quando a água já entrou nas casas.
Maurice defende que o conhecimento produzido pela ciência precisa chegar às decisões públicas e à população. Em uma de suas respostas, resumiu o desafio na necessidade de transformar “conhecimento em decisão e ação”, afirmou.
A expressão é curta, mas traduz uma das questões centrais da prevenção. Saber que existe risco é diferente de estar preparado para enfrentá-lo.
O impacto não termina na rua. Ele chega ao corpo.
Desastre x Saúde
A professora doutora Ethel Maciel, epidemiologista e docente da UFES, foi Secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde entre 2023 e 2025.
Ela faz uma análise dos eventos extremos sobre a saúde pública.
Sobre as enchentes, ela chama atenção para doenças relacionadas à água e também para acidentes provocados por obstáculos submersos, quedas e ferimentos.

Deslizamentos, quedas de árvores e choques elétricos podem produzir outros tipos de trauma.
Secas e queimadas apresentam riscos diferentes, especialmente pela deterioração da qualidade do ar e pelo aumento de problemas respiratórios.
O desastre, portanto, pode pressionar os serviços de saúde de várias maneiras ao mesmo tempo. E existe uma segunda questão: os próprios serviços podem ser afetados.
Estradas e ruas podem ser interrompidas. A energia elétrica pode faltar. Profissionais podem ter dificuldade para chegar. Uma unidade de saúde pode também estar dentro da área atingida. O abastecimento de medicamentos pode ser prejudicado.
Preparar o sistema de saúde significa, portanto, preparar não apenas o atendimento às vítimas, mas a continuidade do próprio serviço.
O que a destruição não mostra
Uma fotografia consegue mostrar uma casa destruída, mas nem sempre consegue mostrar o que aquela casa significava. Ali estavam documentos, roupas, medicamentos, objetos pessoais, ferramentas de trabalho e lembranças.
Quando uma família perde sua residência, pode perder também parte da autonomia e do registro de sua história. Se perde o trabalho, pode perder a renda. Se perde vizinhos e referências comunitárias, pode perder parte do grupo social que sustentava sua rotina.

É nessa dimensão que aparece uma consequência menos visível: a saúde mental.
Ethel chama atenção justamente para esse aspecto, quando diz:
“A gente tem lesões principalmente quando temos impactos de inundação, deslizamento, mas acredito que o impacto que fica pouco visível é a questão da saúde mental.
Há uma questão de saúde mental que acaba aumentando muito a necessidade de atendimento nesses eventos extremos”, afirmou a docente.
O sofrimento psicológico pode estar relacionado ao luto, à perda da casa, ao deslocamento e à ruptura da vida cotidiana.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que emergências podem interromper famílias, meios de subsistência, redes sociais e serviços essenciais. Segundo a organização, quase todas as pessoas afetadas por emergências experimentam algum grau de sofrimento psicológico, embora na maioria dos casos ele melhore com o tempo.
Sobreviver não significa estar recuperado
O resgate termina quando a pessoa está fora do perigo imediato. A recuperação começa depois. Uma pessoa pode ter sido retirada de uma área inundada e continuar sem moradia.
Pode ter recebido atendimento médico e continuar sem trabalho. Pode estar fisicamente segura e ainda enfrentar o luto. Pode retornar para casa e encontrar uma vida que já não funciona como antes.

A revista científica Cadernos de Saúde Pública publicou, em 2026, um estudo com 2.494 adultos do Rio Grande do Sul sobre os impactos das enchentes de 2024. A pesquisa identificou uma relação entre a intensidade dos impactos causados pelo desastre e a maior ocorrência de sintomas de ansiedade e depressão.
O estudo utilizou dados do “Estudo Prospectivo sobre Saúde Mental e Física em Adultos” (PAMPA), que reúne e acompanha participantes para analisar como diferentes situações e experiências podem afetar sua saúde física e mental.
Entre as pessoas que precisaram deixar suas casas, os pesquisadores também observaram maior probabilidade de apresentarem esses sintomas.

O resultado não significa que toda pessoa atingida por uma enchente desenvolverá um transtorno mental. Mas mostra que as consequências psicológicas podem ser medidas e, portanto, precisam ser consideradas no planejamento.
Calor também é um risco
Nem todo evento extremo produz imagens de destruição.
O calor intenso pode representar risco sem derrubar uma árvore ou destruir uma casa. Grupos de pessoas podem ser mais sensíveis.
Ethel defende que a preparação dos serviços de saúde inclua o acompanhamento das pessoas mais vulneráveis durante períodos de calor extremo.
“A gente precisa orientar em momentos de seca, ou de baixa umidade. A gente precisa orientar nos casos de calor extremo, que é um evento bastante importante, porque também causa uma série de doenças, principalmente a desidratação em idosos, em crianças pequenas. Necessário a oferta de líquidos”, relatou.

O Ministério da Saúde vem incorporando esses riscos à adaptação do SUS. Em 2026, a pasta destacou a necessidade de preparar infraestrutura, equipes, vigilância e continuidade dos serviços diante dos efeitos das mudanças climáticas.
A preparação, portanto, não começa necessariamente quando aparece uma imagem de destruição. Começa antes que qualquer fotografia alarmante seja produzida.
Preparar pessoas também é proteger
A prevenção não pertence apenas às instituições. A população também precisa saber reconhecer riscos e compreender o que fazer diante de um alerta.
Ethel defende a existência de planos de contingência e uma preparação que alcance profissionais e cidadãos.
“A gente precisa criar uma cultura de educação, uma educação para esses eventos extremos, essas mudanças climáticas que vão ficar mais frequentes. Então, a gente precisa ter planos de contingência. A rede elétrica caiu, o que você deve fazer? Por exemplo, você tem um alerta de queda de energia, você tem um alerta de diminuição de oferta de água, porque até onde você armazena a sua água, ela pode causar doenças”, relatou a docente.
O objetivo não é ensinar crianças e adultos a temer os fenômenos extremos. É ensinar comportamentos capazes de reduzir riscos.
Questões importantes são relacionadas: Onde procurar segurança? Como agir diante de uma inundação? O que fazer diante de um alerta? Como ajudar alguém que não consegue sair sozinho?
São perguntas simples, mas que exigem atitudes pensadas. Em uma emergência, respostas conhecidas podem ajudar.
A proteção precisa considerar as diferenças
O mesmo fenômeno não atinge todas as pessoas da mesma maneira.
Uma pessoa pode ter condições de deixar rapidamente uma área ameaçada. Outra pode depender de ajuda. Uma família pode ter recursos para enfrentar alguns dias sem trabalhar. Outra pode perder sua única fonte de renda. Uma pessoa pode viver em uma construção mais segura. Outra pode estar em uma área exposta.
Por isso, a preparação precisa identificar grupos que podem necessitar de maior proteção. Essa diferença também precisa estar presente nos planos de emergência.

O desastre termina quando a emergência termina? Não necessariamente.
Quando a chuva para, a água começa a baixar e as equipes deixam as áreas atingidas, uma segunda etapa começa. A reconstrução. Mas reconstruir não significa simplesmente devolver ao local aquilo que existia antes.
A pergunta precisa ser outra: como reconstruir reduzindo a possibilidade de repetir a destruição que ocorreu?
Isso pode envolver novas regras de ocupação, melhoria da drenagem, preservação de áreas de infiltração, recuperação de rios e córregos, áreas verdes, sistemas de alerta e preparação dos serviços.

A adaptação precisa ser pensada antes da próxima emergência e o Brasil já possui instrumentos para isso.
O Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças Climáticas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (AdaptaBrasil-MCTI) reúne informações sobre riscos climáticos para municípios brasileiros.
O Ministério da Saúde também estruturou o Plano Setorial de Adaptação à Mudança do Clima na Área da Saúde (AdaptaSUS), elaborado no âmbito do Plano Clima, para incorporar a adaptação climática ao sistema de saúde.
O conhecimento existe. A questão é como transformá-lo em decisão.
Não é possível impedir todos os eventos extremos. Também não é possível prever exatamente onde cada impacto ocorrerá. Mas é possível reduzir a exposição, identificar áreas de risco, melhorar sistemas de alerta.
É possível preparar profissionais, orientar a população, proteger quem precisa de ajuda, preparar os Serviços de Saúde. E é possível pensar na recuperação antes que a emergência aconteça.
O El Niño muito forte projetado pelos órgãos de monitoramento não é uma sentença de desastre. O próprio INMET ressalta que maior intensidade do fenômeno não significa automaticamente impactos mais severos. Mas o cenário aumenta a importância do acompanhamento contínuo e da preparação para diferentes condições regionais.
Os episódios recentes mostram por que essa preparação não pode ser tratada como uma preocupação distante. O Rio de Janeiro mostrou o impacto que ventos fortes podem produzir sobre uma grande cidade. O Rio Grande do Sul voltou a registrar consequências de tempestades. Santa Catarina enfrentou tempestades severas, granizo e anunciou avaliação técnica sobre o fenômeno.
Os fenômenos são diferentes. Os riscos também, mas a pergunta é a mesma.
Estamos preparados para quando o próximo acontecer?










