Pense na última vez em que você encontrou algo por conta própria. Um livro descoberto ao acaso em uma prateleira, um restaurante onde você entrou sem consultar nenhuma avaliação, uma música que tocou no rádio e o pegou antes mesmo que você soubesse o nome. Essas descobertas carregam uma qualidade distinta, algo difícil de definir, mas fácil de reconhecer quando acontece. Agora lembre-se de quantas vezes, nos últimos meses, algo assim ocorreu. Provavelmente menos do que você imagina.
Lucas Fraga, head de estratégia e cofundador da BALT, tem um termo para o que ocupou o lugar dessas descobertas. Ele chama de economia da curadoria, e a lógica por trás dela é direta: vivemos cercados de criadores e plataformas que “curam experiências por nós”, diminuindo nossas oportunidades de errar, de nos surpreender e de nos perder pelo caminho.
O mundo filtrado pelo nosso gosto
Existe uma diferença entre uma recomendação que nos orienta e uma que quase nos convence de que a escolha foi inteiramente nossa. O instante em que a segunda substitui a primeira raramente é perceptível. Isso acontece por acúmulo, não por uma mudança brusca. O feed é ajustado aos poucos, o algoritmo aprende continuamente, e o leque de possibilidades vai se estreitando como se fosse algo natural.
“As bolhas algorítmicas nos mantêm num ciclo de referências que se retroalimenta, com pouquíssimo espaço para o novo“, observa Lucas. “E dessa forma acabamos presos aos mesmos restaurantes, às mesmas viagens, aos mesmos programas, às mesmas músicas. Esse quadro representa não apenas um empobrecimento da nossa vida, mas também um obstáculo enorme para marcas e artistas que estão chegando ao mercado. Como romper as bolhas de referências se as pessoas estão menos dispostas ao novo e ao inesperado?”
A questão levantada por ele ajuda a entender o paradoxo da personalização. Quanto mais os algoritmos aprendem sobre nossos hábitos, mais inclinados ficam a repetir aquilo que já demonstramos apreciar. A promessa é simplificar a escolha, mas o efeito pode ser um repertório cada vez mais óbvio.
Errar é necessário
Uma das perdas menos notadas nesse processo é justamente a chance de errar. Não se trata de grandes fracassos, e sim daqueles pequenos enganos de quem escolhe sem saber exatamente o que vai encontrar. Quando as plataformas passam a prever nossas preferências, também reduzem as situações em que o inesperado consegue nos surpreender.
“O erro é uma dimensão essencial da experiência humana”, afirma Lucas. “É difícil errar, mas o erro nos ajuda a crescer e cumpre um papel social e psicológico bastante relevante. Acredito que exista uma resposta mais ampla, porque permanecer nos mesmos padrões é um problema coletivo. A principal vantagem de, de vez em quando, experimentar o desconhecido é que isso amplia nosso repertório, nos apresenta novas vozes e novas referências. E isso, ao fim, nos torna mais tolerantes, mais abertos ao Outro e mais preparados para viver em sociedade. O mundo, afinal, é cheio de Outros; se nos limitarmos apenas ao que está imediatamente ao nosso redor, não só reduziremos nossas possibilidades de vida, como também corremos o risco de nos tornar um pouco mais intolerantes diante do que é diferente e nos tira do conforto.”
A disposição para tolerar o que nos é estranho não surge apenas da força de vontade. Ela nasce da exposição repetida a coisas que não confirmam aquilo que já sabemos, de encontros com perspectivas que não estavam previstas no nosso histórico de buscas. Quando o algoritmo elimina justamente esses encontros por supor que não vamos gostar, está removendo, sem que peçamos, parte da matéria-prima da qual a tolerância é feita.
Até onde vai a nossa autonomia
A discussão sobre autonomia costuma vir acompanhada de exemplos grandiosos, decisões de peso. Mas o processo se inicia nas escolhas mais simples — onde comer, o que assistir, o que ouvir — até chegar ao que pensar.
“Delegar essas decisões é, sem dúvida, uma perda de autonomia em troca de segurança ou conveniência“, diz Lucas. “É uma terceirização da escolha e, com ela, de uma parte do pensamento e, por vezes, do próprio gosto. Não é raro começarmos a gostar de algo simplesmente por vermos aquilo com muita frequência dentro das nossas bolhas; e também não é raro deixarmos de gostar de alguma coisa porque, dentro delas, isso aparece sendo constantemente criticado. De certo modo, a terceirização das decisões nos deixa menos autônomos e mais dependentes das escolhas e dos gostos coletivos.”
Esse aspecto toca numa questão que dificilmente aparece nos debates sobre algoritmos, normalmente centrados no que é incluído e no que é deixado de fora. O que Lucas descreve é a transformação lenta do próprio gosto a partir do ambiente de recomendações. Não é apenas o que escolhemos que muda, mas também o que nos parece desejável, o que reconhecemos como bom e o que sentimos vontade de buscar. A plataforma não se limita a filtrar o mundo; ela vai, pouco a pouco, moldando a forma como olhamos para ele.
O que os curadores têm que o algoritmo não tem
A curadoria humana — a do crítico, do amigo, do editor com gosto próprio — sempre envolveu alguma fricção. Quem recomendava carregava uma perspectiva particular, às vezes irritante, às vezes equivocada, mas sempre de alguma forma responsável pela recomendação. Havia um ponto de vista do qual o conselho emergia, e esse ponto de vista podia ser questionado.
O algoritmo não tem ponto de vista. Tem padrão. Construído a partir do nosso comportamento passado, ele não nos desafia porque não tem nada a defender. Oferece aquilo que prevê que aceitaremos, e aceitar é tudo o que ele precisa que façamos.
Nem tudo precisa ser personalizado
Os algoritmos já fazem parte do modo como escolhemos o que consumir, mas isso não significa que precisamos entregar todas as decisões a eles. Existem maneiras simples de recuperar algum espaço para a escolha própria. “As mediações algorítmicas não são ruins em si“, pondera Lucas.
“Na vida contemporânea, não sobra tempo para escolher tudo, e os algoritmos nos ajudam a filtrar a rotina e a decidir com mais rapidez. No entanto, sempre que possível, é importante nos abrirmos ao outro: conhecer um lugar novo, conversar com pessoas diferentes, ouvir outras perspectivas de vida. Acompanhar arte, para quem gosta. Assistir a um filme meio ‘escondido’. Procurar músicas novas e ouvi-las antes de julgar. Essas experiências ampliam nossa existência e fazem bem não apenas a nós como indivíduos autônomos, mas também como seres sociais.”
Em meio a tantas sugestões personalizadas, experimentar algo sem saber se vamos gostar pode ser uma forma simples de manter viva a curiosidade.






