A busca por soberania monetária tornou-se o principal norte do Brics. Embora essa ideia funcione como uma espécie de guia para a aliança que responde por cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) global, os mecanismos para tirá-la do papel são diversos e já estão em movimento.
Um desses instrumentos é o Brics Pay, apresentado no ano passado, que pode atuar como uma ponte entre os sistemas de pagamento instantâneo dos países-membros, simplificando as transações. No início deste mês, o presidente do Banco Central da Índia, Sanjay Malhotra, confirmou que o tema avançou e estará na pauta da próxima cúpula do Brics, marcada para setembro, em Nova Déli. A Índia, inclusive, ocupa a presidência rotativa do bloco.
“A ideia central é estabelecer uma conexão digital para liquidações diretas em moedas locais, dispensando intermediários como o dólar e o sistema SWIFT [Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, sociedade internacional com sede em Bruxelas criada para facilitar transações entre bancos de diferentes países]”, explica ao Brasil de Fato o pesquisador Diego Pautasso, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diretor de pesquisa do Centro de Estudos Avançados Brasil-China e criador da rede “Fios de China”.
Há pelo menos uma década, os integrantes do Brics vêm aperfeiçoando, internamente, instrumentos robustos de liquidação e ampliando o emprego de moedas nacionais no comércio bilateral. O Brasil, por exemplo, conta com o Pix, uma ferramenta consolidada e amplamente utilizada. Nas relações comerciais com a China, o país já adota moedas locais, como o real ou o yuan.
Na avaliação de Pautasso, o Brics Pay já é viável sob o ponto de vista técnico. “Nos países, já existem sistemas digitais próprios. Há tecnologia de blockchain, que garante transações seguras e rastreáveis. Cartões, QR Codes e todas essas tecnologias estão disponíveis”, afirma.
A discussão envolve aspectos econômicos e tecnológicos, mas é no campo político que ela ganha contornos mais densos. Ao fundo, está a necessidade de reduzir a dependência do dólar como referência central nas trocas comerciais. Essa nova postura em relação à moeda estadunidense só se tornou possível graças ao fortalecimento econômico dos países do Brics, cujo maior exemplo é a China.
“É o único país que, de fato, possui um ecossistema digital soberano”, diz o cientista político. “É também quem tem as maiores ambições e iniciativas de internacionalização do yuan. A China já conta com o yuan digital e amplia os contratos de commodities em yuan, sobretudo no comércio de petróleo. Mas Pequim não quer uma internacionalização abrupta da sua moeda. Prefere fazer isso gradualmente, mantendo o controle sobre ela. É um processo lento”, pondera Pautasso.
No Brics, as opções estão sobre a mesa
No âmbito do Brics, o debate procura responder a uma pergunta central: como integrar sistemas de pagamentos e de que forma seria possível usar as moedas digitais dos bancos centrais dos países-membros (as chamadas CBDCs, na sigla em inglês para Central Bank Digital Currency)? Antes, o grupo chegou a estudar a criação de uma moeda própria, ideia que não avançou.
“Os pagamentos transfronteiriços são uma área de interesse para todos nós, incluindo os países do Brics, pois acreditamos que há grande potencial para reduzir custos”, declarou o presidente do BC indiano em um evento do setor bancário, em Mumbai, na semana passada. “Várias opções estão em discussão, mas ainda estão em fase de debate, incluindo as CBDCs e as integrações entre sistemas de pagamentos rápidos”, explicou a autoridade.
Como os países do Brics reúnem, juntos, mais de um terço do PIB global em Paridade de Poder de Compra (PPP), Pautasso entende que essa condição confere à iniciativa um lastro material significativo. Segundo o pesquisador, esse lastro se explica “em função do domínio sobre comércio e recursos naturais, como petróleo, minérios, terras e outros recursos”.
Tempos novos, instrumentos renovados
Grande parte da arquitetura financeira construída nas últimas décadas parte do princípio de que os mecanismos de fluxos internacionais e comerciais são desenhados, inicialmente, para negócios de grande escala. Essa premissa continua válida, mas o aumento da interdependência econômica e financeira estimulou maiores trocas de recursos entre pessoas. O Brics, cujos países-membros concentram quase metade da população mundial, dedica atenção especial a essas mudanças.
Ao assumir a presidência do grupo, em 2024, a Rússia propôs a criação de uma plataforma de liquidação, batizada de Brics Bridge. Na prática, ela poderia viabilizar pagamentos internacionais sem depender da infraestrutura bancária dos Estados Unidos. A ferramenta surgiria como uma alternativa ao sistema SWIFT. A Rússia, alvo de sanções desde 2022 por causa da guerra na Ucrânia, tem máximo interesse na proposta.
Já durante a presidência brasileira do bloco, em 2025, a pauta da desdolarização e do fortalecimento de mecanismos alternativos ao dólar avançou menos do que o esperado. Os motivos foram externos e internos. Brasília, atenta aos efeitos da artilharia tarifária do governo Donald Trump, optou pela cautela. Internamente, a Índia preferiu conter o entusiasmo com uma agenda mais abertamente anti-ocidental.
Seja como for, o fato de os Estados Unidos e a Europa terem bloqueado, desde 2022, mais de US$ 300 bilhões em reservas do Banco Central russo, além de terem excluído Moscou do principal sistema de pagamentos do mundo, escancarou uma percepção já conhecida por aqueles que mais dependem de Washington: o dólar, mais do que uma moeda, é uma reserva de valor. Essa condição faz com que os EUA, com frequência, utilizem a própria moeda como instrumento de coerção contra países que não atendem ou ameaçam não atender aos seus interesses.
Ao tratar do assunto, Pautasso acrescenta outro elemento relevante: o domínio estadunidense “sobre os sistemas de compensação monetária, a respeito de uma série de mecanismos de financiamento, e sobre instituições como o FMI e o Banco Mundial”.
É preciso ter condições para sustentar um processo de independência em relação ao dólar. A China, em franca expansão econômica há décadas, já liquida mais de um terço do seu comércio exterior em yuan, segundo balanço do Banco Popular da China. No outro lado dessa história, o mundo enfrenta uma crise de confiança na economia estadunidense, resultado dos problemas de credibilidade criados por Trump em seu retorno à Casa Branca. Essa combinação de fatores tem levado o preço do ouro a patamares inéditos. Pequim, por exemplo, amplia suas reservas de ouro de forma ininterrupta há quase dois anos.
Além disso, a China já utiliza seu yuan digital (e-CNY) integrado a plataformas de pagamento como Alipay e WeChat Pay, e vem expandindo programas-piloto em transações comerciais internacionais. O Brasil, por sua vez, trabalha com a ideia de criar um “Pix Internacional”. Atualmente, transferências desse tipo já são aceitas para países como Argentina, Estados Unidos e Portugal, mas o funcionamento é parcial. A Índia, por sua vez, adota o sistema de pagamentos UPI e testa a rupia digital (e-Rupee) em larga escala.
Na visão de Pautasso, o avanço do debate no Brics traria duas implicações diretas aos países-membros. “A primeira é retirar as taxas de 3% a 5% e reduzir o tempo de compensação que existe quando uma transação passa pelo dólar. A segunda é ter uma margem de manobra diante da capacidade de cerco e de sanção dos EUA, algo que ficou ainda mais evidente, não apenas no caso de Cuba e Venezuela, mas também na guerra no Oriente Médio”, afirma.
Reação estadunidense?
Cogitar criar alternativas ao principal sustentáculo do império estadunidense é uma ação que não ocorre sem reação. Em mais de uma ocasião, Trump já ameaçou impor tarifas a países que se alinharem às diretrizes do Brics.
No caso brasileiro, a equação é ainda mais complexa. Além dos motivos difusos usados por Washington para justificar o conjunto de medidas contra o país desde 2025, os EUA enxergaram no Pix, um sistema doméstico, uma ameaça aos interesses estadunidenses, e incluíram a ferramenta brasileira no rol de justificativas para a atual tarifa de 25%, que está sob a Seção 301.
Esses movimentos de Washington não acontecem por acaso: nos últimos tempos, o dólar vem perdendo espaço como principal reserva global, posição que manteve inabalável por décadas. A mudança é gradual, mas relevante. Uma pesquisa da Official Monetary and Financial Institutions Forum (OMFIF), grupo de pesquisa sediado em Londres, mostrou que, pela primeira vez, há mais bancos centrais no mundo planejando reduzir suas reservas em dólar do que desejando aumentá-las na próxima década. O dólar segue sendo o farol das reservas globais, mas esse percentual está em queda: de 71% em 2001 para pouco mais de 50% no ano passado.
“Os EUA, mesmo em sua condição de hegemonia, não me parecem dispostos a aceitar isso de maneira tranquila. Não só pela oposição ao PIX brasileiro, mas porque os EUA já declararam que se opõem a qualquer tipo de sistema de pagamento dos Brics, e se opõem ao Brics como um todo. Estamos diante de uma encruzilhada sistêmica, de uma queda de braço que vai determinar os rumos do sistema internacional”, finaliza Pautasso.






