Na carreira policial, aprendemos que algumas decisões parecem pequenas no momento em que são tomadas. Uma abordagem que não foi feita. Uma infração que foi ignorada. Um procedimento que foi deixado para depois.
Imagine um policial em uma blitz diante de um condutor que apresenta sinais de irregularidade. Ele poderia autuar, poderia impedir que aquele veículo continuasse circulando, mas decide “aliviar”.
O condutor segue seu caminho. Algumas horas depois, aquele mesmo veículo pode estar envolvido em um acidente. Uma família pode receber uma ligação. Uma vida pode ser perdida.
E então surge uma pergunta difícil: quanto custou aquela omissão?
Não se trata de afirmar que toda tragédia poderia ter sido evitada por uma única abordagem. Seria irresponsável fazer essa relação automática. Mas é preciso compreender que a fiscalização e a presença policial existem justamente para interromper comportamentos de risco antes que eles se transformem em tragédias.
O trânsito é um exemplo claro. Mas essa reflexão ultrapassa o trânsito.
Omissão também é uma escolha.
Quando percebemos o errado e decidimos não agir, transmitimos uma mensagem. Às vezes, consciente ou inconscientemente, dizemos que aquilo pode continuar.
Na polícia, isso ganha uma dimensão ainda maior. A sociedade não espera de um policial apenas coragem diante do perigo. Espera firmeza diante do errado.
E firmeza não significa agir com truculência, abuso ou arbitrariedade. Significa cumprir a lei, respeitar direitos, agir dentro da legalidade e não permitir que o medo, a conveniência, a amizade ou o desejo de evitar trabalho substituam o dever.
Porque existe um preço para agir. Mas também existe um preço — muitas vezes muito maior — para não agir.
Na vida acontece da mesma forma.
Não nos posicionamos para evitar conflito. Não corrigimos para não desagradar. Não denunciamos para não nos comprometer. Não fazemos aquilo que sabemos ser necessário porque é mais confortável permanecer omisso.
Só que a omissão também produz consequências.
Não se posicionar diante do errado não é neutralidade quando temos o dever de agir.
Que nunca percamos a capacidade de distinguir o que é inconveniente daquilo que é necessário.
Que tenhamos coragem para agir quando for preciso, humildade para reconhecer nossos limites e responsabilidade para compreender que nossas decisões podem alcançar vidas que sequer conhecemos.
Porque, no fim, a pergunta permanece: Quanto custa a omissão?
Às vezes, custa uma multa. Às vezes, custa uma oportunidade. Às vezes, custa uma carreira. E, em situações extremas, pode custar uma vida.
Por isso, diante do errado, quando estiver dentro da nossa responsabilidade agir, que escolhamos não a conveniência, mas o dever.
Porque dizer “não vi”, quando tínhamos o dever de ver, também pode ter um preço.








