Luto na teledramaturgia: favelas, periferias, cortiços e becos choram as mortes das atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes, pioneiras da TV brasileira.
O Brasil despediu-se, nesta semana, de dois dos maiores pilares da história da teledramaturgia e da cultura nacional: as atrizes Laura Cardoso (17 de agosto de 2026, aos 98 anos) e Glória Menezes (18 de agosto de 2026, aos 91 anos). Protagonistas da consolidação da televisão no país e responsáveis por dar vida a dezenas de personagens inesquecíveis que moldaram o imaginário popular ao longo de seis décadas, as artistas faleceram deixando uma legião de fãs, colegas de profissão e um legado imensurável para as artes cênicas brasileiras. A partida simultânea das veteranas provocou uma onda de comoção nacional e reacendeu o debate sobre o papel social, estético e afetivo das novelas na formação da identidade do país.
Nas favelas, periferias, cortiços e becos, o susto e o silêncio seguiram pelas casas diante das notícias sobre as mortes nesta terça-feira, principalmente entre a população da “boa idade”. A televisão, com todas as suas contradições, também foi fonte de debate, de aprendizado e de experiência estética — a cultura de massa para além da alienação e do fechamento —, formando repertórios de vida e narrativas que seguem vivos, vez ou outra retomados por ondas mercantis de nostalgia.
Cultura enlatada ou não, governada pela ideologia do consumo, a TV também produzia uma esfera pública na qual bares, botecos, apartamentos e favelas, além das classes médias envergonhadas, discutiam as temáticas produzidas pelas novelas. Há uma história da cultura brasileira, especialmente a partir da perspectiva da recepção, que precisa ser investigada mais profundamente, como fizeram as professoras Heloísa Buarque de Hollanda e Christina Ferraz Musse.
Com tudo isso, hoje estou triste! Perdi as estrelas da minha alienação, que me ensinaram a querer justiça e a não perder a dignidade, mesmo que isso pareça esnobismo ou prepotência. Foram longos anos de aprendizado ao lado de atrizes que, em sua atuação, revelavam as mazelas e as belezas da vida. Com elas, descobrimos o quanto também fazemos parte disso — aquilo que, muitas vezes, achando-nos superiores por sermos conscientes, bem-educados e consumidores de alta cultura, desprezamos e diminuímos.
Com elas, descobrimos os valores da vida simples e o narcisismo dos poderosos. Mas, no vigor do jogo do faz de conta, percebemos que, não importam os segmentos sociais, somos humanos tomados por nossas racionalidades, promessas e imaginários. Hoje, não perdemos apenas grandes atrizes, mulheres e chefes de família; perdemos um pouco de nós mesmos, que durante longas datas rimos, choramos, debatemos e nos indignamos com figuras marcantes da nossa teledramaturgia, como as inesquecíveis Dona Guiomar e Isaura, de Laura Cardoso, e Júlia Braga e Laurinha Figueroa, de Glória Menezes.
A televisão tem suas contradições, ambiguidades e fronteiras ingovernáveis: ela pode tentar transformar tudo em mercadoria e entretenimento, reduzindo o espaço para a arte e para a autonomia de escritores e artistas. Contudo, sempre se abre uma brecha para ver e fazer além do merchandising e até para cobrar — numa espécie de accountability e transparência. Sabíamos que alguns atores e atrizes eram apenas um corpo e um rosto bonitos, mas que precisavam demonstrar atuação.
Diante de tudo isso, devemos reconhecer que assistir à televisão e à novela foi e continuará sendo um aprendizado coletivo. No Brasil, a televisão se expandiu ocupando o espaço público: primeiro, os aparelhos chegaram às praças públicas e às casas afortunadas das quebradas. A janela do vizinho foi o grande camarote de gerações de brasileiros até a televisão se tornar um bem acessível — momento em que todos corriam para assistir ao futebol, ao telejornal e ao último capítulo da novela das oito.

A confissão de Paulo Vieira, recentemente, no programa Conversa com Bial, de que ele é fruto da televisão — diante dos gestos emocionados de Maria Bethânia —, e as falas do próprio humorista ainda incomodam e deixam desconfortáveis os arautos da alta cultura, a única que seria digna de racionalidade e inteligência (https://globoplay.globo.com/v/13625570/).
Até mesmo a expressão usada por Bial para definir a produção cultural dirigida às ditas massas como “biscoito fino”[produção cultural refinada, seleta e de teor artístico elevado, reflexivo, “bom gosto”], dando a entender que o trabalho de Paulo Vieira se inscreve dessa maneira, perpetua a estratégia de hierarquização das expressões culturais e dos processos de valoração moral e política. Isso implica a inferiorização do gosto e da preferência daquilo que se chama de cultura de massa [em termos gerais, conteúdo voltado para o grande público, indistinção, simplificação, generalização, de consumo rápido e abrangente] ou cultura popular, sempre pensadas como desprovidas de elaboração intelectual e agency, sendo seus consumidores reduzidos a usuários, laboratórios e autômatos.
A expansão da cultura de massa no Brasil merece um amplo debate e discussão que leve em consideração a produção de repertórios culturais comuns. Contudo, ela também não pode abrir mão da crítica à tentativa constante dos grandes meios de comunicação de monopolizarem seus processos de recepção e produção — tais como Globo, SBT, Bandeirantes e Record, por exemplo —, ao usarem seus produtos culturais pretéritos como estratégia do mercado da nostalgia e do saudosismo, aos quais nós, inclusive eu, não estamos imunes. O que nos leva a meditar as palavras de Umberto Eco:
Qualquer narrativa de ficção é necessária e fatalmente rápida porque, ao construir um mundo que inclui uma multiplicidade de acontecimentos e de personagens, não pode dizer tudo sobre esse mundo. Alude a ele e pede ao leitor que preencha uma série de lacunas. Afinal (como já escrevi), todo texto é uma máquina preguiçosa, pedindo ao leitor que faça uma parte do seu trabalho.
[ECO, U. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Cia. das Letras, 1994.]
Enquanto terminava esse texto, soube do falecimento do Carlos Cesare, conhecido por ser um dos intérpretes do personagem Pablo no programa Qual é a música?. Era mais um ícone da televisão brasileira, no caso SBT, que se assumia como produtor de conteúdos para grande massa, visto com mais olhos pela crítica jornalística e tidos como inferiores ao “padrão Globo de Qualidade”. O artista Pablo morreu em São José dos Campos e tinha 60 anos. O corpo do ator e palhaço foi velado na cidade na última segunda-feira (17), no Cemitério Municipal Padre Rodolfo Komorek.








