Os reflexos da popularização dos chamados medicamentos injetáveis para emagrecimento já podem ser observados em outra área da saúde e da estética: a terapia capilar. No dia a dia de uma clínica especializada nesse tipo de tratamento em Águas Claras, no Distrito Federal, foi identificado um novo perfil de paciente que, depois de iniciar o uso de remédios para perda de peso e emagrecer de maneira expressiva, passou a relatar queda ou afinamento dos fios, o que ampliou a procura em um mercado que já atendia pessoas com diferentes quadros capilares.
O que dizem os estudos
Fármacos como semaglutida e tirzepatida, pertencentes às classes dos agonistas do receptor de GLP-1 e, no caso da tirzepatida, também do GIP, conquistaram espaço no tratamento da obesidade e de doenças metabólicas. A possível relação entre essas terapias e a queda de cabelo tem sido alvo de investigações recentes. Uma revisão sistemática divulgada em 2026 analisou 24 estudos e encontrou indícios de associação entre o uso de alguns agonistas de GLP-1, sobretudo semaglutida e tirzepatida, e relatos de perda capilar. Os pesquisadores, contudo, destacam que ainda são necessários estudos prospectivos para determinar com mais exatidão a relação de causa e efeito e a influência da velocidade e da intensidade da perda de peso.
A Academia Americana de Dermatologia também menciona o afinamento dos cabelos como uma alteração relatada por pacientes que fazem uso de medicamentos dessa classe. De acordo com a instituição, dermatologistas consideram a perda rápida de peso, com ou sem a utilização das canetas, um possível gatilho para o eflúvio telógeno, condição marcada pelo aumento temporário da queda dos fios e que pode ser desencadeada por situações de estresse fisiológico. A entidade ressalta, porém, que ainda são necessárias pesquisas para compreender exatamente por que alguns pacientes apresentam queda após o uso desses fármacos.
Demanda antiga, novos pacientes
A procura por tratamento capilar, no entanto, não começou com as canetas emagrecedoras. Queda de cabelo, afinamento, calvície e outras alterações dos fios já movimentavam clínicas especializadas havia anos. O que passa a mudar é o perfil de parte dos pacientes que chegam a esses locais, com relatos de queda ou afinamento dos fios associados ao processo de emagrecimento.
Na Dermajestic, clínica de estética localizada em Águas Claras/DF, os tratamentos capilares já correspondem a mais de 50% do faturamento atual da empresa, conforme a proprietária Vanessa Resende. Com mais de 16 anos de atuação no mercado estético, a clínica também oferece depilação a laser, procedimentos faciais e corporais, mas atualmente concentra mais da metade da receita em terapias capilares, como tricoscopia, laserterapia capilar, microagulhamento e mesoterapia, entre outras.
Relato da clínica
“Já recebíamos pessoas em busca de tratamentos capilares muito antes da popularização das canetas emagrecedoras. O que observamos mais recentemente foi a chegada de um novo perfil de paciente, que relata ter notado queda ou afinamento dos fios depois de passar por um emagrecimento significativo”, afirma Vanessa.
Para a proprietária da Dermajestic, essa mudança representa uma nova frente de atendimento para um segmento que já tinha demanda consolidada. “As canetas não criaram a procura por tratamentos capilares. O que estamos vendo é que elas trouxeram pessoas que buscam compensar os efeitos percebidos após o emagrecimento, até que o corpo se estabilize na nova realidade. Isso tudo já se refletiu no nosso faturamento, que hoje tem mais da metade composta por tratamentos capilares. Isso mostra o quanto essa área cresceu dentro da clínica.”
De acordo com Vanessa, a equipe procura entender o histórico do paciente e as características da alteração apresentada. “Na anamnese, é comum o paciente relatar quando percebeu a queda, se estava fazendo algum tratamento, se passou por um emagrecimento importante e quais mudanças notou nos fios. Essas informações ajudam a compreender o contexto antes de definir qualquer abordagem. Nesse processo, percebemos que muitos pacientes associam a queda de cabelo ao período em que estão utilizando as canetas”, explica a proprietária.
A literatura científica reforça, entretanto, que a queda de cabelo após o emagrecimento não deve ser automaticamente atribuída ao medicamento. O estudo divulgado em 2026 indica que a velocidade e a magnitude da perda de peso podem ter papel relevante no fenômeno e que ainda são necessárias pesquisas para esclarecer a relação de causa e efeito.
A popularização dos medicamentos para perda de peso, portanto, adiciona uma nova camada de demanda ao mercado de terapia capilar. Para quem nota queda persistente ou significativa após um processo de emagrecimento, a avaliação individualizada pode ajudar a identificar as características da queda e indicar quando é preciso buscar atendimento médico especializado.






