“Para os Mbya guaranis, o alimento é uma dádiva do criador. A escolha da terra e o tempo certo de plantar, de colher e de celebrar. Não separaram o que é do corpo daquilo que é do espírito”.
A passagem abre o livro ‘Tembi’u Guarani: culinária indígena’, obra que reúne 25 receitas tradicionais do povo Mbya Guarani e compartilha um pouco da história e da cultura dessa comunidade. O projeto surgiu de uma parceria entre o Instituto Família Barrichello (IFB) e a professora e ativista Ará Mirim Yvoti.
Nascida no Paraná, Ará vive há aproximadamente 40 anos em São Paulo, instalando-se na aldeia Takuari, a cerca de 40 km do município de Eldorado paulista. A ideia de criar um livro de receitas nasceu do desejo de produzir um registro escrito da cultura gastronômica de seu povo e repassar esse saber às novas gerações.
Ao folhear a obra, o leitor encontra diversos pratos escolhidos pessoalmente por Ará. O critério adotado por ela era direto: “coloquei no livro tudo que eu gosto”.
Entre as preparações apresentadas, há opções que vão das mais simples às mais curiosas, como o Pindo’a Guapytã (suco de jerivá) e o saboroso Mandi’o Komanda Reve (mandioca com feijão).
A culinária acompanha a vida da professora desde cedo. Na infância, ela gostava de observar os pratos que os familiares preparavam, vivência que influenciou diretamente a escrita e a curadoria das receitas.
Além dos sabores, Ará ressalta a dimensão espiritual de ingredientes como milho, mandioca e feijão. Segundo a cosmologia guarani, esses alimentos devem ser preparados com sabedoria divina e amor infinito.
“Esses alimentos são a base da nossa alimentação, é o que fortalece nosso corpo, nossa alma, nossa espiritualidade. A gente precisa pedir permissão para pegar uma fruta ou para poder preparar os alimentos que serão consumidos na aldeia no coletivo, em um momento, a gente se reúne para poder agradecer pelo alimento que cresceu ali para nos manter”.
O livro já está disponível para o público e contará com eventos de lançamento em São Paulo e região, com o objetivo de aproximar os visitantes da riqueza da culinária indígena. Confira as datas:
- 13 de agosto, às 19h – Escola da Cidade – Rua General Jardim, 65 – Vila Buarque – São Paulo (SP)
- 15 de agosto, às 10h – CECI Aldeia Tekoá Pyau – Rua Comendador José de Matos, 386 – Jaraguá – São Paulo (SP)
- 17 de setembro, às 10h – Escola Mario Quintana – Rua Ismael Manoel da Silva – Jardim Las Vegas – Guarulhos (SP)
- 19 de setembro, às 10h – CEI Ermelino Matarazzo – Rua Rainha do Bosque, 210 – Vila Santa Inês – São Paulo (SP)
“Nossos antepassados transmitiam esses conhecimentos pela oralidade. Registrar essas receitas é uma forma de garantir que nossa cultura e nossa história continuem vivas para as próximas gerações”, declarou Ará Mirim.
O início da trajetória na escrita
Desde que deixou o Paraná, há cerca de 40 anos, Ará percebeu que a educação era o caminho para dar continuidade à luta de seu povo. Mesmo tendo pouco domínio da língua portuguesa na época, ela decidiu seguir com os estudos.
Foi por causa dessa dedicação que Ará conquistou uma bolsa para cursar letras de forma remota. Com o ingresso na vida acadêmica, enxergou a oportunidade de usar o conhecimento como instrumento na defesa dos direitos dos povos indígenas do Brasil, que, segundo pesquisas recentes, somam mais de 1,7 milhão de pessoas.
Foi nesse cenário que surgiu a parceria com o IFB para a criação de um dossiê completo com as receitas tradicionais do povo Mbya. Para Ará, esse projeto tinha um significado especial, pois permitia registrar por escrito os saberes para as futuras gerações e incentivar o estudo entre os jovens.
“Eu descobri que a história do meu povo era linda quando eu aprendi a ler e escrever. Eu descobri que o conhecimento é lindo, é poesia”.
“É para isso que a gente tá formando nossos jovens: para poder defender o nosso território, porque agora a luta não é mais com armas, agora a luta é com a caneta e papel.”
Assim que o livro começou a ser produzido, Ará passou a reunir receitas que aprendeu observando os familiares cozinharem. O critério, segundo ela, era simples: ‘escolhi tudo que eu gostava’. Além do sabor, os ingredientes foram selecionados com cuidado para preservar o significado cultural, histórico e espiritual de cada um.






