Fragmentos Plásticos Persistem nas Praias da Serra e de Aracruz

Dois meses depois das primeiras denúncias sobre o surgimento de centenas de peças plásticas que lembram biomídias usadas em sistemas de tratamento de esgoto, a origem do material encontrado no litoral capixaba continua incerta. Enquanto moradores, ambientalistas e organizações pressionam por uma investigação para descobrir a fonte da poluição, os fragmentos seguem aparecendo nas praias da Serra e de Aracruz, o que aumenta a preocupação com os efeitos sobre banhistas, fauna marinha e ecossistemas costeiros.

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Desde o início de junho, o material vem sendo encontrado na areia e nas proximidades da linha d’água. A principal demanda das entidades envolvidas deixou de ser apenas a remoção dos resíduos das praias e passou a ser a identificação de quem é responsável pelo descarte, condição considerada essencial para interromper a poluição e responsabilizar quem causou o dano ambiental. Segundo Claudiney Rocha, presidente do Instituto Brasileiro de Fauna e Flora, o ideal seria descobrir a fonte poluidora, já que, uma vez identificada, seria possível exigir uma ação de reparação do próprio poluidor, que seria multado e obrigado a retirar todo o resíduo do litoral.

De acordo com Rocha, o primeiro relato ocorreu em 3 de junho, durante uma visita técnica aos manguezais de pedra da Serra, e desde então várias pessoas têm encontrado o material, num fenômeno que continua acontecendo. As ocorrências seguem concentradas no litoral da Serra e já chegaram a Aracruz, sem confirmação, até o momento, de registros em municípios mais ao norte ou ao sul do estado.

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O material encontrado se assemelha às biomídias usadas em sistemas biológicos de tratamento de efluentes, comuns em algumas estações de tratamento e também empregadas na piscicultura. Apesar de o tipo de peça já ter sido identificado, sua origem segue desconhecida. Segundo Rocha, o problema é que ninguém sabe onde está a fonte poluidora, que pode estar vindo de fora, sendo despejada em algum corpo hídrico, ou até vindo do alto-mar, e sem saber a origem não há como conter o problema.

Depois de encontrar o material pela primeira vez, Rocha procurou a Ambiental Serra, concessionária responsável pelo tratamento de efluentes no município, para verificar se as peças poderiam ter origem nas unidades da empresa. Segundo ele, a companhia informou não utilizar esse tipo de material em suas estações, chegando a se colocar à disposição para mostrar todas as unidades e comprovar que não trabalha com esse produto. Ainda assim, a própria empresa confirmou tratar-se de um material usado em tratamentos biológicos de efluentes, que também pode ser empregado na piscicultura. Para o ambientalista, a investigação precisa envolver diferentes esferas do poder público, já que o material está chegando ao litoral e isso deveria ser apurado pelos órgãos municipais, estaduais e federais, incluindo maior participação do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos.

Rocha relata ainda que o Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos enviou informações ao Ibama, incluindo registros fotográficos georreferenciados dos locais onde o material foi encontrado, mas até o momento não há retorno sobre as ações adotadas pelo órgão federal. Além da urgência em identificar a origem da poluição, ele alerta para os riscos à fauna marinha, já que tartarugas podem ingerir o material, e a época coincide com a temporada de baleias na região, o que amplia o potencial de impacto sobre diferentes espécies.

A preocupação também é compartilhada por moradores de Manguinhos, na Serra. Diogo Lopes, integrante da Associação de Moradores de Manguinhos, relata ter começado a notar as peças plásticas há cerca de três meses, decidindo coletar parte do material depois que a quantidade aumentou. Segundo ele, no dia 13 de junho começou a recolher os fragmentos por achar a situação muito estranha, percepção compartilhada por outros moradores que também consideraram aquilo uma poluição fora do comum para a região. De acordo com suas observações, a quantidade de material varia conforme as marés, especialmente durante os períodos de lua cheia e nova.

Diogo registrou a ocorrência pela plataforma Colab, usada para solicitações à Prefeitura da Serra, e recebeu a resposta de que a situação não seria de competência municipal, devendo ser tratada pela Marinha. Segundo ele, a prefeitura informou que faria a tratativa com a Marinha, mas, mesmo depois disso, novas peças continuaram aparecendo. Para o morador, a pergunta principal segue sem resposta, já que se sabe o que é o material, mas ainda não se sabe de onde veio nem quem será responsabilizado.

O caso veio a público pela primeira vez em junho, quando moradores localizaram centenas de peças espalhadas entre as praias de Manguinhos e da Curva da Baleia, em Jacaraípe. Na ocasião, engenheiros da comunidade apontaram que o material era semelhante às biomídias usadas em sistemas MBBR, tecnologia empregada em estações de tratamento de esgoto.

Na época, a Ambiental Serra já havia informado à Associação de Moradores de Manguinhos que não utiliza esse tipo de biomídia em suas unidades, alegando que o material é mais comum em estações compactas de tratamento, geralmente ligadas a empreendimentos privados. A Prefeitura da Serra chegou a realizar uma limpeza emergencial na faixa de areia, mas a remoção dos resíduos não impediu que novas peças continuassem surgindo nas praias.

Procuradas para saber se há investigação em curso para identificar a fonte da poluição e quais ações foram tomadas desde os primeiros registros, a Prefeitura da Serra, a Prefeitura de Aracruz e o Ibama não responderam até o fechamento desta matéria.

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