Todas as vezes que recebo a notícia da partida de um ente querido, assusto-me, mas algumas notícias fúnebres soam como um soco no estômago, jogando-me de volta à realidade, retirando-me do automatismo e lembrando-me de que o tempo existe e está devorando minha vida e a das pessoas que amo.
É uma situação para a qual não há solução, a não ser cuidar dessas pessoas e passar mais tempo com elas. Foi o que senti quando Leandro Quintão me enviou, pelo WhatsApp, o card comunicando o falecimento do Tio Anísio Motta (10/10/1934 – 24/07/2026).
Essa triste notícia fez-me lembrar e reconhecer que estou diante do fim de uma geração — a minha geração, uma geração que se teceu em torno do território da pipoca sob a liderança de Tio Anísio Motta.
Uma memória feita de pipoca, de um sorriso acolhedor e habilidoso para vender, de um carinho compartilhado por amigos e amigas que passaram por ali. Hoje, todos se reencontram com Tio Anísio; os admiradores que ainda vivem são aqueles que frequentaram o lugar mais animado e aromatizado da escola.
Sigo com saudade não da pipoca em si, mas do tempo simples e das inocências, de quando o futuro parecia certo, os sonhos e as promessas pareciam realizáveis e não se duvidava da força para agir.
É desse espírito que sentimos falta. Quando revisitávamos a Antiga Escola Técnica Federal do Espírito Santo — hoje campus Vitória do Instituto Federal do Espírito Santo —, percebíamos que fomos humanos sem barreiras nem medos, e que aquela escola e seus corredores ganhavam vida na caminhada até o carrinho do Tio Anísio, nas pipocas compartilhadas, no exemplo de trabalho, dedicação e esforço diário para garantir uma vida digna à sua família.
Um homem negro —neto de pessoas negras escrazivadas— que ensinava-nos persistência e coragem para não desistir. O professor dos corredores educava com palavras, gestos e silêncios no tempo da esperada para comer a saborosa pipoca.
Esses gestos e silêncios revelavam, no cuidado cotidiano — não apenas com o trabalho e a pipoca, mas com os parceiros de sonho —, que Tio Anísio também sonhava e tinha família, a qual ainda chora sua despedida, enquanto nós já mal reconhecemos a escola onde estudamos. A cada dia, vai-se um pouco mais da nossa história — grandes homens e mulheres, como o professor Pereira e, agora, Tio Anísio!
horamos de saudade e de desespero, pois, com sua partida, confrontamo-nos com a única verdade incontestável: não somos eternos, e nem as memórias permanecem para sempre — um dia, também desapareceremos junto com nossas lembranças. A minha geração, nascida nos corredores do ETFES e do CEFETES, segue desaparecendo.
Infelizmente, e com poucos frutos, nossos herdeiros não terão vidas melhores, muito menos o privilégio de saborear uma pipoca bem feita e entregue com carinho. Poucos conheciam o valor espiritual que, em religiões de matriz africana, essa prática carrega — talvez nem o próprio Tio Anísio.
Deus salve o Tio Anísio Motta! Obrigado por nos ensinar a combater o racismo e a respeitar todo trabalho como digno de honra, pois fazer pipoca também é uma técnica ancestral.
Tio Anísio partiu sem se despedir. Ele mereceria, como homenagem póstuma, o título de doutor honoris causa. Ele, o zelador e chefe de cozinha que manteve viva uma tradição da culinária brasileira e alimentou milhares de famílias. O IFES tem o dever moral de reconhecer a contribuição que o senhor deixou para a região da Grande Vitória, ES. Obrigado. Até breve, para mais uma pipoca no céu!
TIO ANÍSIO MOTTA & AS PIPOCAS ENCANTADAS NUNCA MORRERÃO!
Sr. Anísio Motta, conhecido Tio Anísio devido ao carisma, escuta e simpatia, faleceu em 24 de julho de 2026 com 91 anos. Era natural de Castelo-ES, um filho das migrações e busca de melhores condições de vida e trabalho, tendo nascido em 10 de outubro de 1934. Tio Anísio passou por mais de três décadas trabalhando no pátio com seu carrinho de pipoca no Campus Vitória. ((https://vitoria.ifes.edu.br/noticias/19906-nota-de-falecimento-tio-anisio//https)
Segundo Nota de Falecimento – Tio Anísio do Campus Vitória-IFES: “Tio Anísio começou a trabalhar na então Escola Técnica de Vitória em 1973. Desde então, acompanhou as transformações da instituição, conquistando gerações de estudantes com carisma e simpatia. Ele mantinha o tradicional carrinho de pipoca nos corredores da escola.” (https://vitoria.ifes.edu.br/noticias/19906-nota-de-falecimento-tio-anisio//https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2026/07/25/morre-aos-91-anos-tio-anisio-pipoqueiro-que-virou-simbolo-do-ifes-e-marcou-geracoes-no-es.ghtml)







