O 25 de Julho: efemérides, disputa política e a afirmação da liberdade das mulheres negras

As efemérides nunca são apenas datas do calendário. Elas constituem campos de disputa em torno da memória, do poder e da política. Em seu entorno circulam diferentes interpretações sobre o passado, o presente e o futuro, envolvendo lembranças e esquecimentos, demandas sociais e projetos políticos que buscam definir quais histórias merecem ser celebradas, quais sujeitos devem ser reconhecidos e quais valores devem orientar a vida coletiva. 

Continua após a publicidade

Mais do que momentos de comemoração, festa ou entretenimento, as efemérides podem converter-se em espaços de socialização política, denúncia, afirmação identitária, reflexão crítica e enaltecimento de valores compartilhados por diferentes grupos sociais.

Essa dimensão estratégica faz com que as datas comemorativas sejam permanentemente disputadas entre grupos dominantes e grupos dissidentes, ambos reivindicando legitimidade para construir narrativas sobre a sociedade. Nesse processo, o movimento negro brasileiro alcançou enorme êxito ao ressignificar diversas efemérides, transformando-as em instrumentos de educação política, combate ao racismo e valorização da população negra. 

Continua após a publicidade

No interior desse movimento, os movimentos de mulheres negras(cis e trans) e as diferentes correntes do feminismo conferiram ao 25 de julho um significado ainda mais profundo: um lugar de fala, de organização política e de constituição das mulheres negras como sujeitas históricas e protagonistas de suas próprias narrativas.

O Julho das Pretas denuncia a permanência do racismo, do sexismo, da exploração econômica e das desigualdades de gênero que atravessam a vida das mulheres negras, seja no trabalho doméstico historicamente desvalorizado, seja no mercado de trabalho, nos espaços públicos, na política ou na produção do conhecimento. Ao mesmo tempo, anuncia que essas formas de dominação não são naturais nem eternas. Foram historicamente construídas e, justamente por terem sido construídas, podem ser transformadas.

Como lembram intelectuais como bell hooks e Angela Davis, a luta das mulheres negras evidencia que as opressões de raça, gênero e classe se articulam, exigindo respostas igualmente articuladas. O 25 de julho, portanto, não representa apenas uma homenagem. É um tempo pedagógico, um tempo de denúncia e de mobilização social. É a afirmação de que outro mundo é possível.

As mulheres negras afirmam que seus corpos, suas vozes, seus saberes e seus projetos de vida lhes pertencem. Reivindicam autonomia para decidir sobre suas existências e recusam qualquer forma de exploração, violência ou subordinação. Essa afirmação desafia estruturas patriarcais consolidadas e provoca reações de setores que percebem a ampliação dos direitos das mulheres como uma ameaça aos antigos privilégios masculinos.

Nesse contexto, diversas práticas antes amplamente naturalizadas passaram a ser questionadas social e juridicamente, entre elas: o assédio sexual e moral; a violência doméstica; o controle da vida e da sexualidade das mulheres; a divisão desigual do trabalho doméstico e do cuidado; a desqualificação da competência feminina no trabalho; a objetificação dos corpos femininos; a culpabilização das vítimas de violência; a diferença salarial entre homens e mulheres; o silenciamento de denúncias de abuso; e discursos que justificam relações de poder baseadas na ideia de superioridade masculina.

Esses questionamentos não significam hostilidade aos homens, mas a construção de relações mais igualitárias e mesmas oportunidades de condição, fundamentadas no respeito, na autonomia e na dignidade de todas as mulheres negras e demais. Da mesma forma, o conceito de “masculinidade tóxica”(ter cuidado uso político dessa categoria social para reforçar ideal de amor romântico e como homem como Príncipe encantado, estratégia da dependência emocional e afetiva, veja o personagem ) não se refere aos homens em si, mas a padrões culturais que associam masculinidade à dominação, à violência, ao controle emocional, ao desprezo pelo cuidado e à inferiorização das mulheres.

O 25 de julho torna visível aquilo que durante séculos foi silenciado, deslocado, ignorado e aceito como normalidade, ao qual toda sociedade, também, era conivente. As vozes das mulheres negras, tantas vezes apagadas, invisibilizadas e violentadas, afirmam que não existe destino determinado pela cor da pele, pelo gênero ou pela origem social. Seu destino é a liberdade. É a autonomia para dizer, sem medo ou receio: meu corpo, minha vida, minha voz e meu futuro pertencem a mim.

Talvez seja justamente essa enunciação pública da liberdade que provoque tanto desconforto em setores acostumados aos privilégios patriarcais. Afinal, reconhecer plenamente a autonomia das mulheres negras significa admitir que elas sempre sustentaram famílias, comunidades e boa parte da própria sociedade brasileira, especialmente nas periferias urbanas e nos territórios populares. 

O Julho das Pretas recorda ao país que elas nunca foram personagens secundárias da história: sempre foram protagonistas de sua construção e continuarão sendo protagonistas na construção de um futuro mais democrático, igualitário, equitativo, garanta direito às mulheres negras(cis e trans) caminharem pela cidade seguras, tranquilas e calmas se que sejam surpreendidas dispositivo racismo, sexismo e classe forma interseccional parte  do projeto de colonialidade dominante na sociedade capitalista que luta por manter suas hegemonias diante do questionamento das opressões, dominações, violências, torturas e subalternização vendidas como naturais, inquestionáveis e absolutas. 

Referência:
Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver

Continua após a publicidade
Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
24ºC
Máxima
23ºC
Mínima
20ºC
HOJE
24/07 - Sex
Amanhecer
06:14 am
Anoitecer
05:20 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
5.4 km/h

Média
22.5ºC
Máxima
24ºC
Mínima
21ºC
AMANHÃ
25/07 - Sáb
Amanhecer
06:14 am
Anoitecer
05:20 pm
Chuva
1.08mm
Velocidade do Vento
5.33 km/h

Meu coração, minha canção

Ludimila Nunes Mantovani

Leia também