Sul Global deve ser protagonista e não apenas consumidor de IA, defende Dilma

O Sul Global não deve se restringir ao papel de mero consumidor de inteligência artificial. Foi o que afirmou, nesta sexta-feira (17), a presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o Banco dos BRICS, Dilma Rousseff, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai. Na ocasião, a dirigente concedeu entrevista à agência Sputnik e defendeu uma articulação mais justa e integrada entre as nações em desenvolvimento para evitar o aprofundamento das assimetrias globais no setor de alta tecnologia.

“Acredito que o grande ganho desse encontro para as nações do Sul Global reside exatamente nesse ponto. É essencial evitar que o fosso entre países e pessoas se aprofunde. Não podemos admitir que um punhado de atores controle toda a produção e o avanço da inteligência artificial enquanto o restante do Sul Global se reduza a consumidores”, destacou a presidente do NBD.

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Segundo Dilma Rousseff, superar essa realidade exige ações concretas baseadas na troca técnica. “Por isso, duas questões são centrais. A primeira é como compartilhar. Compartilhamos através de plataformas abertas, tecnologias de código aberto e cooperação. Esse é o caminho inicial para construir um cenário mais equilibrado e diminuir a diferença entre países em desenvolvimento e desenvolvidos”, acrescentou.

Pequim anuncia a WAICO para fazer frente à hegemonia tecnológica

A fala de Dilma alinhou-se às medidas apresentadas pelo presidente chinês, Xi Jinping, na cerimônia de abertura do evento. O líder da China formalizou a fundação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), uma jogada estratégica de Pequim para liderar uma nova estrutura global de governança digital, baseada no multilateralismo, na segurança e no desenvolvimento conjunto.

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A arquitetura institucional da WAICO foi definida depois que 29 países assinaram, na quinta-feira (16), o acordo constitutivo, tornando-se membros fundadores. Com sede em Xangai, a organização atuará de forma intergovernamental e autônoma para estimular o intercâmbio científico e regulatório em inteligência artificial.

Durante seu discurso na WAIC 2026, Xi Jinping ressaltou que o progresso tecnológico não pode ser privilégio de um pequeno grupo de corporações ou de potências econômicas. O mandatário chinês observou que o mundo vive um momento crucial com a aceleração dos algoritmos e listou desafios essenciais que precisam ser abordados em conjunto:

  • Segurança sistêmica;
  • Ética no desenvolvimento tecnológico;
  • Impactos no mercado de trabalho;
  • Tomada de decisões automatizada por algoritmos;
  • Redução drástica das desigualdades tecnológicas regionais.

A governança proposta pela China sustenta-se nos princípios da Carta da ONU, com ênfase em consultas amplas, investimento compartilhado e benefício recíproco global.

O confronto geopolítico e a participação soberana do Brasil

A criação da WAICO ocorre em meio ao agravamento da rivalidade entre China e EUA pelo controle da infraestrutura digital. Os Estados Unidos têm ampliado tarifas e restrições à exportação de semicondutores e chips avançados para empresas chinesas, alegando segurança nacional. Em resposta, Pequim investe pesado em pesquisa científica, microprocessadores, grandes modelos de linguagem (LLMs) e soluções de IA de código aberto.

O Brasil está entre os países que participaram ativamente da construção do novo organismo em Xangai. Essa posição reafirma a estratégia brasileira de aprofundar os laços tecnológicos com o Sul Global e com a China, preservando sua independência digital. O plano aprovado pelos representantes internacionais baseia-se em quatro eixos estruturais:

  1. Pesquisa científica integrada;
  2. Desenvolvimento tecnológico mútuo;
  3. Segurança sistêmica compartilhada;
  4. Governança global da inteligência artificial.

Cooperação científica e enfrentamento do fosso tecnológico

A nova entidade multilateral pretende descentralizar o ecossistema tecnológico atual, fortemente concentrado em poucas corporações transnacionais que controlam infraestrutura e dados em larga escala. Como medida prática de inclusão, a China anunciou que oferecerá programas de capacitação e treinamento técnico para milhares de profissionais de economias emergentes, ampliando projetos especiais de cooperação para blocos parceiros como os BRICS, a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e a União Africana.

A WAIC 2026 congrega chefes de Estado, cientistas e representantes de mais de mil empresas globais, com destaque para avanços industriais e áreas de robótica. Se as últimas décadas foram marcadas por acordos comerciais e ambientais como a OMC e o Acordo de Paris, o surgimento da WAICO sinaliza a afirmação da China como arquiteta de uma nova ordem tecnológica internacional multipolar.

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