Assassin’s Creed Black Flag Resynced é ótimo remake, mas não supera original

Em busca de retomar o ápice alcançado na sétima geração de consoles, a Ubisoft decidiu revisitar alguns jogos que tornaram esse período tão memorável para a desenvolvedora. Além do já confirmado remake de Rayman Legends, a empresa também recriou um dos títulos mais icônicos de sua trajetória: Assassin’s Creed 4: Black Flag.

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Com Assassin’s Creed Black Flag Resynced, a Ubisoft demonstra que ainda possui o talento para apresentar ótimos jogos, mas também não consegue se livrar de falhas antigas que lhe renderam o apelido de “Bugsoft”.

(Quase) A melhor versão do jogo

Explorar novamente os mares, ilhas e litorais do Caribe na pele de Edward Kenway é, provavelmente, a experiência mais gratificante que um fã de Assassin’s Creed pode vivenciar nos últimos tempos. Este é, sem dúvida, um dos jogos mais visualmente deslumbrantes já produzidos pela Ubisoft. Cada local que seus olhos alcançarem proporcionará uma vista belíssima, pois a reconstrução dos mapas e o trabalho refeito nas cores — agora mais saturadas e vibrantes — transformam essa experiência na versão mais bonita de Assassin’s Creed Black Flag.

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Não apenas em termos gráficos, esta é a melhor versão dessa obra para jogar — ou quase isso. O novo sistema de combate elimina aquele tédio da edição clássica, que dependia exclusivamente de apertar o botão de contra-ataque e finalizar os inimigos. Agora, com uma abordagem mais dinâmica, focada em parry e no uso de ferramentas como a pistola, o jogo ganha um combate ágil e muito divertido, mas sofre com uma inteligência artificial terrível.

Com uma das IAs mais problemáticas que vi em jogos recentemente, entrar em batalha em AC Black Flag Resynced ou se arriscar no stealth rende algumas risadas. É muito fácil acumular corpos ou ficar preso em um loop de batalha que, infelizmente, se torna cansativo, pois os inimigos repetem o mesmo comportamento constantemente. No stealth, é muito fácil se esconder no palheiro e ficar atraindo os inimigos enquanto os elimina todos no mesmo ponto sem que ninguém desconfie. É engraçado e, ao mesmo tempo, bastante decepcionante.

No entanto, além do combate e da IA frustrante, a exploração é um ponto que brilha intensamente. Tarefas como correr atrás das partituras musicais, contratos de caçada, missões secundárias, as praias que podem conter segredos e muitos outros elementos compõem uma exploração riquíssima que me fez perder horas sem sequer pensar na missão principal.

E, falando da história principal, ela permanece exatamente igual, mas sem a parte do presente em que estamos nos escritórios da Abstergo. Contudo, a remoção desse conteúdo cria uma lacuna muito estranha na narrativa, justamente por serem momentos de conexão e contextualização para a trama. Em vez de criar uma sequência que daria maior sentido à jornada de Edward Kenway, a Ubisoft cortou uma parte da história e deixou as coisas desconexas.

Além dessa narrativa estranha, a cinematografia também é um pouco esquisita e repleta de cortes que geram estranheza e uma sensação de falta de polimento. Ainda assim, a história continua boa o suficiente para emocionar o jogador com a trajetória de Edward até o belo desfecho do jogo.

Seria injusto não mencionar o parkour, que é maravilhoso e me trouxe sentimentos nostálgicos enquanto corria pelos telhados de Havana. Esse jogo realmente me transportou para as noites em que jogava no meu Xbox 360 há 13 anos.

Por que Resynced?

Sem a parte do Animus na narrativa, a presença da Abstergo fica meio nebulosa no jogo, mas a Ubisoft corrigiu isso com histórias inéditas para Edward. Pequenas narrativas ressincronizadas mostram como seria o rumo do pirata se ele tomasse decisões diferentes em missões com aquele visual Animus. Nelas, o foco é maior na resolução de breves puzzles para ver o caminho que Edward seguiria, por exemplo, se fosse para o lado dos templários em busca de riquezas. Elas são legais, mas apenas isso.

Muito se especulava em torno do termo “Resynced” no título e como isso poderia alterar algumas narrativas e perspectivas sobre AC Black Flag, mas tudo permanece igual, com melhorias pontuais que tornam esta a experiência definitiva do título, mas não a melhor forma de se aprofundar nessa jornada — o jogo original continua sendo superior como obra completa, mas não em termos de jogabilidade.

Navegar foi, é e sempre será o grande brilho de Black Flag

Até agora eu não havia mencionado a melhor parte do jogo: os mares. Se critiquei aspectos anteriores relacionados à narrativa e à gameplay em terra firme, estar em um navio traz o melhor que Assassin’s Creed Black Flag Resynced tem a oferecer.

A navegação é um prazer à parte, que já era divertida e imersiva no original. Agora, graças aos visuais aprimorados, isso se aprofunda ainda mais. A jogabilidade de combate naval está refinada e as batalhas conseguem ser bastante desafiadoras em alguns momentos, especialmente se você não dedicar tempo aos upgrades do Gralha.

Uma das grandes novidades relacionadas à navegação está nos novos oficiais que se juntaram à tripulação. Cada um deles é recrutado por meio de uma linha de missões completamente inédita e cada um possui habilidades únicas que interferem diretamente no combate. Lucy, por exemplo, tem uma narrativa profunda sobre traumas familiares e concede uma habilidade que reduz praticamente a zero o dano de ataques defendidos no momento antes de atingir o navio. Além dela, o Padre concede uma investida com o aríete do navio que causa alto dano nos inimigos.

Apesar da apresentação pouco pessoal deles, com o decorrer da trama eles se tornam bons personagens e parte essencial da tripulação do Gralha.

Outra coisa que me impressionou no jogo foi a jogabilidade de mergulho, que, além de promover imersão, é muito equilibrada e recompensadora. Duas dicas importantes para a navegação são: 1) sempre coletar as partituras musicais em terra, principalmente da música Leave Her Johnny; 2) sempre mergulhar nos locais disponíveis, pois as recompensas valem muito a pena.

Se na gameplay de Edward o jogo comete algumas falhas, na de navios é tudo muito impecável, divertido, belo e impressionante.

Para os fãs de gerenciamento, a administração da frota está ainda melhor, mesmo que não tenha sofrido uma mudança radical, e a gestão da base em Grande Iguana também é um dos destaques do jogo e certamente deixará os fãs satisfeitos.

Ubisoft ainda comete os mesmos tropeços

Este jogo me fez lembrar e, provavelmente, fará você se lembrar também do brilho que a Ubisoft possuía durante a sétima geração de jogos, com títulos que sempre alcançavam a excelência. Porém, uma infeliz sombra do passado também atormenta AC Black Flag Resynced.

Da parte técnica, no PS5 base, tive uma experiência sólida nos três modos disponíveis: equilíbrio (40 FPS com ray tracing), desempenho (60 FPS sem ray tracing) e qualidade (30 FPS com ray tracing). Na minha jogatina, após testar os três, optei pela qualidade em uma rara ocasião em que o modo desempenho me incomodou. Sempre prefiro jogar meus jogos em 60 FPS, mas o modo desempenho prejudica tanto os visuais que não vale a pena, e, apesar dos 10 FPS a mais do modo equilíbrio, ele também não me deixou satisfeito o suficiente.

Já mencionei o problema da IA ruim e das lacunas narrativas deixadas pela remoção dos trechos da Abstergo do jogo, mas um tropeço que se tornou um “clássico” da Ubisoft são os bugs. Você vai patinar com o Edward algumas vezes, vai travar em algumas superfícies, vai ver inimigos fazendo coisas que não deveriam, como andar em torno de si mesmos. Enfim, se você conhece o motivo pelo qual a Ubisoft foi apelidada de Bugsoft, sabe do que estou falando.

Preso em alguns vícios do passado e em coisas que deveriam ser melhoradas e não apenas retiradas completamente — além de não incluir o conteúdo do DLC Freedom Cry —, a Ubisoft limitou o quão alto esse remake poderia voar e o parou apenas na prateleira dos ótimos remakes, não no mesmo patamar daquelas recriações que superam a obra original.

Entre erros e acertos, Assassin’s Creed Black Flag Resynced deixa bem evidente que o brilho jamais saiu da Ubisoft e estava apenas oculto em meio a focos não tão satisfatórios quanto eles tinham no passado. As novidades são muito bem-vindas e tornam o jogo melhor e mais divertido, enquanto a remoção da sessão da Abstergo provoca lacunas narrativas prejudiciais. Da mesma forma que o brilho da Ubisoft retorna, aquela sombra insistente de “Bugsoft” ainda assombra certos momentos, mas sem estragar a experiência.

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