O mercado mundial de jogos superou a marca de US$ 200 bilhões em 2025, de acordo com a Newzoo. Mesmo com esse avanço, desenvolver um título de grande porte segue como um processo custoso e cheio de riscos. Antes de gerar qualquer receita, são anos investidos em salários, tecnologia, captura de movimentos, testes, marketing e distribuição.
Hideo Kojima vivenciou essa realidade de maneira bastante direta.
Em junho, a Sony Interactive Entertainment comunicou ao criador que interromperia o financiamento de Physint, título de ação e espionagem anunciado dois anos antes em colaboração com a PlayStation.
O projeto já se encontrava em andamento. A Kojima Productions havia contratado especialistas, digitalizado atores e expandido sua estrutura. De acordo com Kojima, a equipe somava aproximadamente 200 colaboradores, e o estúdio chegou a utilizar empréstimos bancários ao longo dessa ampliação.
Com a saída do aporte da Sony, a questão deixou de envolver somente o destino de Physint. Havia também o desafio de sustentar a operação da empresa.
Um jogo pode levar anos até dar retorno
O episódio evidencia uma contradição do setor. Um estúdio pode até ser independente e deter controle sobre seus projetos, mas ainda assim precisa do apoio de grandes corporações para bancar produções de alto orçamento.
No caso da Kojima Productions, os acordos são firmados individualmente para cada projeto. Naquele período, o estúdio concentrava seus esforços principalmente em Physint, com a Sony, e em OD, em parceria com o Xbox.
O rompimento de um desses contratos representava a perda de uma fonte relevante de recursos exatamente após a expansão do time.
A tensão financeira não afeta somente os pequenos estúdios. No State of the Game Industry 2026, levantamento da Game Developers Conference, 28% dos profissionais ouvidos afirmaram ter sido demitidos nos dois anos anteriores. Metade relatou que a empresa onde trabalham ou a última em que atuaram promoveu cortes no intervalo de 12 meses.
Entre os funcionários de estúdios AAA, dois terços declararam que suas companhias enfrentaram demissões.
Kojima não quis abandonar Physint
Kojima relatou que soube da decisão em uma reunião pelo Zoom com representantes da Sony e ficou atônito. A primeira preocupação foi com a continuidade do estúdio.
Depois do corte no orçamento, parte da equipe de Physint foi temporariamente realocada para OD. Kojima seguiu dedicado ao conceito, à narrativa e ao design do jogo, enquanto um grupo reduzido conduzia testes de tecnologia e de inteligência artificial para os adversários.
Desistir do projeto não estava entre as primeiras alternativas do desenvolvedor.
Physint nasceu como uma nova propriedade intelectual de ação e espionagem, após anos de apelos para que Kojima retornasse ao gênero de Metal Gear. A série pertence à Konami, companhia onde ele atuou por décadas.
O título também celebraria os dez anos da Kojima Productions e as quatro décadas de trajetória do criador.
Ao procurar um novo parceiro, Kojima começou a apresentar Physint como uma propriedade intelectual com potencial para se desdobrar em cinema, televisão, anime, quadrinhos e música.
A estratégia resultou em um acordo com o Xbox, que já colaborava com o estúdio em OD. Em setembro, Xbox e Kojima Productions divulgaram uma nova parceria para lançar Physint, com colaboração também em iniciativas de cinema e TV.
Poucos dias depois, o estúdio confirmou Bill Skarsgård como protagonista do game.
Por que a Sony saiu?
A Sony não ofereceu publicamente um esclarecimento aprofundado sobre o encerramento do financiamento.
Veículos de imprensa indicaram que a companhia teria manifestado ressalvas quanto a orçamento, cronograma, rentabilidade e exclusividade. Também associaram a escolha ao desempenho comercial de Death Stranding e de sua continuação.
A Kojima Productions rebateu essas informações e declarou que elas não partiram de fontes oficiais. O estúdio afirmou viver uma situação financeira “saudável e lucrativa” e reforçou que a relação com a PlayStation segue sólida.
O próprio Kojima declarou não guardar ressentimento em relação à Sony. Sua insatisfação teria a ver com a ausência de uma justificativa mais minuciosa e com a forma como a decisão foi transmitida.
Kojima conseguiu outro parceiro. Nem todo estúdio consegue
A situação de Physint não representa um episódio único.
Ainda em 2026, a IO Interactive perdeu o parceiro que financiava Project Fantasy, RPG online em produção desde 2023. O Xbox confirmou depois que fazia parte do acordo.
A responsável por Hitman e 007 First Light optou por arcar com o financiamento do projeto, mas comunicou cortes de pessoal e o fechamento do escritório em Istambul durante a reorganização.
Já para a Heart Machine, criadora de Hyper Light Drifter, o desfecho foi mais severo. Depois que uma publisher desistiu de financiar um jogo ainda não revelado, quase toda a equipe foi dispensada. O fundador Alx Preston afirmou que não sabia se o estúdio conseguiria sobreviver.
A independência criativa pode permanecer sob o controle de quem desenvolve o jogo. A financeira, porém, é bem mais complicada.
Os três casos apresentaram resultados distintos, porém partem da mesma origem: produzir jogos de grande escala demanda recursos que poucos estúdios conseguem bancar por conta própria.
As publishers entram com capital, tecnologia, marketing, testes, distribuição e acesso às plataformas. Em contrapartida, definem quais projetos estão dispostas a financiar e por quanto tempo.
Kojima conseguiu transferir Physint de uma gigante para outra. Sua reputação e sua trajetória garantiram ao estúdio margem para seguir negociando.
Para companhias de menor porte, perder um parceiro durante o desenvolvimento pode significar enxugar o time, reduzir o escopo do projeto ou encerrar as atividades.
A liberdade criativa pode continuar nas mãos de quem produz o jogo. Já a autonomia financeira é bem mais difícil de alcançar.






