Criado pela mente de Ian Fleming, James Bond se consolidou como um dos ícones mais célebres da cultura pop. O agente secreto britânico do MI6, conhecido pelo codinome 007 e sua licença para matar, fez sua estreia literária em Casino Royale, publicado em 1953, e desde então nunca mais saiu de cena.
A figura de Bond foi inspirada por agentes reais da inteligência britânica no período pós-Segunda Guerra Mundial, quando espionagem, tecnologia militar e tensões internacionais moldaram o cenário geopolítico. Nas páginas dos livros e nas telonas, o personagem é mostrado combatendo organizações criminosas, ameaças globais e terroristas, sempre com charme, inteligência e uma dose de sorte para superar os desafios mais complexos.
| Ian Fleming |
007 First Light representa um marco importantíssimo para o famoso espião no universo dos videogames. Depois de mais de uma década sem novos títulos com Bond como protagonista, a IO Interactive — conhecida pelos excelentes jogos da série Hitman para consoles atuais — ficou encarregada de trazer o agente secreto de volta com uma narrativa totalmente inédita.
Toda lenda tem um começo
First Light é uma releitura das origens de James Bond na espionagem. Diferente das intrigas políticas do pós-guerra, a trama desta nova versão se desenrola nos dias de hoje. Bond aparece como um aviador da Marinha britânica que, durante uma missão, sofre um atentado junto de seu batalhão e acaba envolvido em uma conspiração de proporções mundiais.
Graças ao seu desempenho excepcional durante o incidente — que desmantelou a operação de um grupo terrorista na Islândia —, Bond é convidado a integrar o programa de treinamento 00, antes extinto pelo governo britânico e agora reativado com novos recrutas promissores. James é o sétimo participante do grupo e, sem grandes apegos, aceita o convite.
Em First Light, acompanhamos a ascensão de Bond de prodígio a homem de confiança da chefia do MI6. A história apresenta personagens inesquecíveis: Cressida e Monroe, rivais que se tornam grandes amigos; John Greenway, o instrutor resistente que só reconhece o valor de Bond em campo; e os vilões, que trazem o comportamento egocêntrico e megalomaníaco típico da franquia.
Um ponto negativo é a participação de Lenny Kravitz, anunciado como parte do elenco no papel de vilão, mas cuja aparição não altera em nada o rumo da trama. Tudo indica que o cantor foi escalado como estratégia promocional ou por iniciativa própria.
O grande destaque, no entanto, é Patrick Gibson. O ator de 31 anos, conhecido por interpretar Dexter Morgan em Dexter: Pecado Original, entrega o melhor James Bond da atualidade. Enquanto muitos questionavam se um Bond jovem e egocêntrico seria um problema, First Light prova justamente o contrário. A escolha foi certeira, e o resultado é o melhor James Bond que o cinema ainda não descobriu.
Cheiro de Uncharted, rostinho de Hitman, sabor James Bond
O fato de a IO Interactive ser a desenvolvedora da série Hitman não é mera coincidência. Como a franquia é bem recebida por crítica e público, muito do DNA daqueles jogos está presente na concepção de First Light.
Sendo um título focado em espionagem, a dinâmica de Hitman se encaixa perfeitamente na proposta. A mecânica principal envolve a interação em cenários grandiosos, repletos de NPCs e com diversos objetivos para cumprir. Por ser mais narrativo e linear, contudo, a liberdade é um pouco menor do que no papel de um assassino profissional — afinal, aqui somos espiões a serviço da Coroa.
Um dos melhores exemplos dessa dinâmica está na primeira missão de campo de James após o treinamento no MI6. Bond e os outros recrutas são enviados para rastrear um agente renegado que pode estar presente durante um torneio de xadrez em um hotel-castelo na Eslováquia.
O jogo se resume a se infiltrar no local para coletar informações de forma furtiva. James pode usar dispositivos para hackear eletrônicos, criar distrações e incapacitar inimigos que atrapalhem seu progresso. Também é possível se misturar à multidão, ouvir conversas em busca de pistas e furtar objetos, como chaves, para acessar áreas restritas.
Essa dinâmica é tão envolvente que o tempo passa sem que o jogador perceba. A variedade de dispositivos influencia as abordagens, mas sempre há mais de um caminho para cada objetivo — seja pela entrada principal, pelos fundos ou pela claraboia. Os aparelhos de Bond também servem para criar distrações que abrem janelas de oportunidade.
James também recorre à sua lábia para escapar de situações inesperadas. Se for pego em local restrito, pode simular uma rendição para surpreender o inimigo ou contar uma mentira convincente para ganhar tempo antes de fugir. Vale notar que alguns inimigos não caem no papo, e a solução acaba sendo menos amigável.
O combate corpo a corpo proporciona bons momentos, especialmente pelo uso do ambiente. James pode arremessar objetos para atordoar inimigos, agarrá-los e golpeá-los contra mesas ou paredes, e até lançá-los de varandas. O maior problema aqui é a câmera, que insiste em ângulos pouco favoráveis.
Com uma arma, a situação muda. James só pode usá-las com a Licença para Matar ativa, condição acionada quando o inimigo representa ameaça real à vida do agente, permitindo meios letais para controlar a situação.
Esse estado é indicado na parte superior central da tela e, no PlayStation 5, também pelo LED do controle DualSense, que muda de cor conforme o alerta, oferecendo suporte extra na leitura do momento.
Ainda assim, James pode neutralizar inimigos sem matá-los. Tiros nas mãos para desarmá-los ou nas pernas para imobilizá-los são abordagens menos letais para quem busca desafio. Os dispositivos também atordoam inimigos ou usam elementos do ambiente para lidar com grupos.
Treinando para ser um agente melhor
Um modo paralelo em 007 First Light é o Simulador Tático, ou TacSim. Esse modo extra é desbloqueado quando Bond inicia o treinamento avançado no MI6. Ele traz missões simuladas em locais da campanha, com situações de ataque, furtividade e outras operações que rendem pontos para conteúdo cosmético.
O melhor momento para acessar o TacSim é após a campanha, quando todas as missões estão disponíveis, funcionando como conteúdo pós-jogo generoso. O modo exige conexão com a internet, pois os resultados entram em um ranking online para medir habilidades com outros jogadores.
O TacSim já conta com uma quantidade generosa de missões e conteúdo para desbloquear, mas a IO Interactive informou que novos conteúdos — incluindo atividades com pilotagem de carros — serão disponibilizados após o lançamento. Após cerca de 12 horas de campanha, vale investir mais algumas horas no modo para aproveitar ao máximo, especialmente para quem busca todos os troféus.
Desempenho exemplar em uma época de desenvolvimento conturbado
Vale destacar o excelente desempenho de 007 First Light no PlayStation 5, plataforma usada nesta análise. O jogo utiliza o motor gráfico Glacier, o mesmo de Hitman: World of Assassination. Quem já jogou com o Assassino 47 sabe o que esperar: cenários grandiosos, detalhados e cheios de NPCs.
O potencial da Glacier aparece já na missão na Eslováquia. Mesmo com muitos personagens não jogáveis e alto nível de detalhe, o desempenho é exemplar. A taxa de 60 quadros por segundo se mantém estável na maior parte do tempo, com exceção de momentos pontuais — como no capítulo do resort no Vietnã, onde os cenários ao fundo são deslumbrantes e exigem mais do hardware.
Com roteiro e elenco primorosos, jogabilidade envolvente e desempenho exemplar, 007 First Light merece figurar entre os melhores títulos do ano. Foi um enorme prazer servir ao lado desta lenda em nome de Vossa Majestade.
O nome é Bond, Bond mais!
007 First Light não é apenas um bom jogo de James Bond — é um lembrete de que a franquia sempre teve mais a oferecer do que o cinema conseguiu entregar nas últimas décadas. A IO Interactive não se limitou a adaptar uma licença famosa: construiu, com cuidado e ambição, uma origem crível, emocionante e genuinamente divertida para o espião mais icônico da cultura pop.
Patrick Gibson carrega o jogo com uma presença que equilibra charme e arrogância, além de vulnerabilidade, de um jeito que poucos Bonds conseguiram. A jogabilidade, que bebe do faro calculista de Hitman e da energia cinematográfica de Uncharted, encontra identidade própria ao colocar o jogador no centro de uma espionagem que recompensa paciência, criatividade e, quando necessário, um bom direto na mandíbula.
Não faltam tropeços pontuais — a câmera no combate corpo a corpo e a participação decorativa de Lenny Kravitz são os mais evidentes —, mas nenhum deles compromete o conjunto. O que a IO Interactive entregou é sólido, polido e cheio de personalidade.
Num ano em que grandes lançamentos frequentemente chegam quebrados ou sem alma, 007 First Light se destaca por fazer o básico extraordinariamente bem: contar uma boa história, apresentar personagens que importam e deixar o jogador com vontade de mais. Se este é o começo de uma nova era para Bond nos games, o futuro parece muito promissor.
Prós
- Roteiro sólido com uma origem crível e envolvente para James Bond
- Elenco memorável, com destaque para Patrick Gibson no papel principal
- Dinâmica de espionagem furtiva bem executada, com múltiplas abordagens para cada objetivo
- DNA de Hitman bem aproveitado na concepção da jogabilidade
- Uso criativo do ambiente no combate corpo a corpo
- Sistema de Licença para Matar adiciona tensão e variedade nas abordagens
- Motor gráfico Glacier bem otimizado no PlayStation 5, com taxa de quadros estável na maior parte do tempo
- Modo TacSim oferece conteúdo generoso e rejogabilidade após a campanha
Contras
- Câmera problemática durante o combate corpo a corpo
- Escalação de Lenny Kravitz é pura decoração no elenco
- Liberdade de tomadas de decisões mais limitada em comparação a Hitman
- Modo TacSim exige conexão constante à internet
- Quedas pontuais de desempenho em cenários mais exigentes, mas que não comprometem a experiência geral
















