Magical Athlete prioriza a diversão, não a análise crítica

No segundo semestre de 2025, um jogo com uma estética peculiar começou a chamar a atenção da mídia internacional especializada em board games. Magical Athlete é uma releitura contemporânea de um título japonês homônimo, cuja primeira edição saiu em 2003, há mais de vinte anos. Após o relançamento, o jogo foi amplamente celebrado por criadores de conteúdo e recebeu análises entusiasmadas em toda a comunidade.

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Vários aspectos de Magical Athlete despertam interesse, desde a apresentação física até as regras. Sua classificação de complexidade no Board Game Geek, de 1.18 em 5, também chama a atenção. A caixa do jogo, com visual distinto, pode ser vista na última imagem desta matéria.

Quanto à mecânica central, chamá-la de “diferente” não faz sentido. O núcleo de Magical Athlete é provavelmente um dos mais tradicionais: rolar o dado e mover.

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Parece curioso que um jogo baseado na mesma premissa de Banco Imobiliário, Cobras e Escadas ou Ludo tenha conquistado tanto reconhecimento da mídia especializada, especialmente em 2025, três décadas depois de Catan ter catalisado o renascimento dos jogos de tabuleiro modernos. Para quem não enxerga o potencial dessa mecânica, uma análise detalhada pode esclarecer seus pontos positivos, suas limitações e as decisões de design que foram fundamentais para o sucesso, ajudando a definir se ele vai agradar ou não.

A Dinâmica da Corrida

Magical Athlete é um jogo de corrida. Os participantes disputam quatro provas por partida, e vence quem acumular mais pontos. A lógica é direta: cada corrida concede pontos para o primeiro e segundo colocados, com os valores aumentando a cada prova. A primeira vale menos que a segunda, que vale menos que a terceira, e assim por diante. No turno de um jogador, a ação se resume a pegar seu dado, rolá-lo, avançar o número correspondente de casas no tabuleiro e/ou aplicar quaisquer efeitos especiais do seu corredor. É aí que está a magia do jogo.

A caixa traz 36 corredores distintos, cada um com uma habilidade única que tenta subverter as regras de um jeito peculiar. Um exemplo de poder que parece forte é o do corredor que, em vez de rolar o dado, pode optar por se mover exatamente cinco espaços. Existem vários outros efeitos que também parecem desbalanceados. Há um personagem que avança um espaço sempre que outro ativa sua habilidade. Outros pontuam durante a corrida, mesmo sem terminar entre os primeiros. Ainda existem corredores que eliminam adversários, pulam casas, se beneficiam por ter mais competidores à frente ou por pararem no mesmo espaço que outros, entre muitas outras variações.

Componentes e corredores do Magical Athlete

Interação e Rejogabilidade

São 36 habilidades genuinamente únicas. Como se usa apenas um corredor por corrida e nenhum se repete em uma partida, mesmo com o número máximo de jogadores apenas 24 deles serão vistos, deixando outros 12 de fora para aumentar a variedade nas próximas sessões. Além disso, como cada prova apresenta uma combinação diferente de personagens, a interação entre eles sempre parece nova e distinta.

Nesse contexto, o poder individual do corredor tem menos importância do que sua interação com as outras habilidades presentes naquela corrida. E esses efeitos e interações são, acima de tudo, muito divertidos. São situações interessantes que podem mudar completamente o rumo de uma prova, muitas vezes desencadeadas pela aleatoriedade de uma rolagem de dado. Um número diferente no dado pode evitar uma interação desfavorável ou, justamente, disparar aquela que você queria.

Detalhe do tabuleiro e peças

Tudo isso é bastante viciante, criando a vontade de acompanhar o desenrolar de cada corrida e cada rolagem. Mesmo durante os turnos dos oponentes, os jogadores ficam envolvidos, atentos ao que acontece. Esse é um grande mérito do jogo: é difícil se desconectar da partida, você fica focado na ação.

Pontos Fortes do Jogo

Em relação aos seus pontos fortes, podemos destacar:

  • Incerteza constante, que mantém a emoção lá em cima;
  • Pouca interferência direta dos jogadores no desenrolar dos turnos, mas com grande imersão (há um elemento de aposta envolvido);
  • Turnos ágeis e dinâmicos;
  • Efeitos engraçados que frequentemente arrancam risadas de todos (embora, às vezes, um jogador possa não achar tanta graça);
  • A rejogabilidade vem da interação entre os poderes dos corredores e das duas pistas de corrida disponíveis;
  • Regras fáceis e simples, mas com apelo visual, sendo um dos jogos mais descomplicados de colocar na mesa;
  • Gameplay inovador dentro de uma mecânica extremamente familiar, o que facilita o ensino e surpreende pela diversão.

Pontos Fracos e Considerações

É consenso que os pontos fortes superam as fraquezas. No entanto, dois aspectos foram decisivos para a decisão de se desfazer de uma cópia do jogo.

A morosidade do Draft

A fase inicial do jogo consiste em dois drafts sequenciais (parecidos com os de Grand Austria Hotel) para selecionar os corredores. Isso exige muita leitura de habilidades e análise, consumindo um tempo considerável antes que a diversão de fato comece. Esse processo pode ser incômodo, principalmente com uma cópia em inglês. Uma versão em português facilitaria muito essa etapa. Os textos das cartas são curtos e geralmente de fácil compreensão, mas memorizar 36 personagens diferentes é desafiador. Para contornar isso, é possível criar “paste-ups” (traduções colocadas dentro dos protectores) ou uma tabela com os efeitos traduzidos para agilizar a explicação durante o draft.

A falta de escolhas pós-draft

Vale ressaltar que esta é uma percepção pessoal. Pode ser frustrante que a fase de escolhas significativas esteja basicamente restrita ao draft. Existem algumas decisões menores, como qual corredor levar para cada corrida ou se ativa ou não uma habilidade. Contudo, considerando que o jogo tem quatro fases principais (as corridas), parece justo que houvesse a oportunidade de fazer algo mais entre elas para influenciar os resultados. Ideias como um bônus para quem ficou em último ou a possibilidade de ver as escolhas dos adversários antes da próxima corrida poderiam adicionar uma camada de decisão.

O Segredo do Sucesso: A Diversão em Primeiro Lugar

Apesar dessas observações, por que o jogo merece atenção e tem sido tão bem-sucedido? A resposta, em retrospecto, parece clara: Magical Athlete prioriza uma coisa acima de tudo: DIVERSÃO.

  • É caótico, mas o caos é compartilhado e gerado por interações variadas e divertidas.
  • A interação entre os jogadores é constante.
  • As formas como as regras são quebradas pelas habilidades nem sempre são triviais, indo além de simplesmente pontuar mais, para subverter completamente o sistema.
  • O dado introduz uma grande incerteza, podendo ampliar ou frustrar planos. Parece apostar em eventos esportivos e torcer pelo resultado.

Este último ponto é crucial. Poucas coisas são tão cativantes quanto torcer por algo emocionante sobre o qual não se tem controle. Quem acompanha os Jogos Olímpicos entende essa sensação: desejar intensamente que algo aconteça, sem poder influenciá-lo diretamente.

Para Quem é Este Jogo?

O potencial do jogo vai além, mas é válido citar alguns títulos que podem indicar se Magical Athlete é uma boa escolha. Entre os não lançados no Brasil, Hot Streak e Ready Set Bet compartilham muitos elementos: são empolgantes, com baixa interferência direta e colocam os jogadores na posição de torcedores por eventos incontroláveis e divertidos. No mercado brasileiro, as alternativas são menos numerosas, mas fãs de Camel Up podem ter suas expectativas atendidas aqui. Apreciadores de mecânicas do tipo Push-Your-Luck, embora não presentes de forma clássica, também podem se identificar. Da mesma forma, quem gosta de Challengers ou FlipToons pode curtir Magical Athlete, já que a limitação de escolhas em certos momentos não seria um obstáculo.

O jogo foi bastante apreciado. No entanto, devido ao espaço limitado para coleção e a uma preferência por sessões com dois jogadores, optou-se por não manter uma cópia física, embora a disposição para jogá-lo sempre que convidado permaneça.

Magical Athlete mostra que inovação nem sempre significa reinventar a roda. Muitas vezes, ela está em novas combinações de conceitos conhecidos, com um propósito de design bem definido e um “público-alvo” muito claro em mente.

Por todas essas razões, Magical Athlete merece uma nota 8,5.

Outra imagem dos componentes do jogo

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