Kokedama: a arte japonesa que transforma nossa relação com as plantas

A primeira tentativa de criar um kokedama foi um desastre completo. A bola de terra se desmanchou antes de secar, a samambaia ficou toda torta e o cordão arrebentou na hora de pendurar. Joguei aquela peça fora e recomecei; só na terceira tentativa o resultado ficou satisfatório, e aí veio a admiração instantânea.

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Kokedama é um termo japonês que significa “bola de musgo”. Essa arte tem base na filosofia Wabi-sabi, que valoriza a beleza na simplicidade e nas imperfeições. A técnica envolve embrulhar as raízes de uma planta numa mistura de argila e solo, modelada no formato de uma esfera e depois coberta com musgo vivo. Não usa vaso nem substrato tradicional. A composição final é só a planta, a terra e o musgo, que pode ser pendurada ou apoiada sobre um pires ou pedra.

O segredo está na mistura de terra

A durabilidade do kokedama, que varia de semanas a anos, depende da sua base. Na minha floricultura, uso uma proporção de dois para um de terra argilosa e substrato orgânico enriquecido. A argila dá a firmeza necessária para a esfera manter o formato; sem ela, a estrutura desmancha na primeira rega. Já o substrato fornece os nutrientes e garante uma drenagem adequada.

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O musgo que reveste a parte externa precisa ser umedecido antes de aplicar. Se estiver seco, ele racha, não molda direito e se solta rápido. Por isso, é bom deixá-lo de molho por pelo menos vinte minutos antes do uso. Sempre que possível, escolha musgo vivo: ele retém a umidade da esfera por mais tempo e mantém a estética com seu verde vibrante, como se a peça tivesse acabado de sair da floresta.

Nem toda planta funciona nesse formato

Este é o ponto onde mais vejo equívocos, porque muita gente pega qualquer muda sem pensar nas necessidades da espécie. Mas o kokedama funciona melhor com plantas que toleram raízes úmidas e não precisam de muito substrato para crescer.

Na prática, as que melhor se adaptam são samambaias, fittônias, heras, marantas, singônios e filodendros pequenos. Cactos e suculentas, por outro lado, não são indicados. A esfera retém umidade, enquanto essas plantas precisam de solo seco entre as regas, uma combinação que não dá certo a longo prazo.

Orquídeas são uma exceção interessante. A Phalaenopsis, em especial, se adapta muito bem ao kokedama quando a mistura leva casca de pinus, que promove a aeração que suas raízes exigem. Inclusive, orquídeas montadas assim estão entre os produtos mais pedidos na minha loja, especialmente para presente.

Como regar sem errar

A rega do kokedama costuma surpreender os iniciantes, porque a esfera absorve água feito uma esponja. O método correto, portanto, é a imersão.

O procedimento usual é submergir a peça num recipiente com água em temperatura ambiente por uns dez minutos. A esfera vai afundando aos poucos conforme absorve o líquido. Quando as bolhas de ar param de subir, sinal de que está hidratada, é só tirar da água, deixar escorrer o excesso e recolocá-la no lugar. O processo é bem simples.

Kokedama pendurado exige atenção ao barbante

Uma das apresentações mais elegantes para o kokedama é a suspensa, que parece uma escultura vegetal. Nesse caso, a escolha do cordão é fundamental. Recomendo usar sisal ou algodão cru, materiais que resistem à umidade sem estragar rápido. Cordéis sintéticos costumam afinar com o tempo e podem arrebentar, principalmente quando a esfera está mais pesada depois da rega.

O nó deve envolver a esfera em pelo menos três direções diferentes para distribuir o peso uniformemente. Costumo alertar minhas alunas: um kokedama que balança muito é um kokedama que provavelmente vai cair. Em lugares com corrente de ar, é mais seguro apoiar a peça numa superfície do que deixá-la pendurada.

Por que essa técnica nunca sai de moda

O kokedama permanece relevante com o tempo porque oferece algo que os vasos comuns não dão: uma sensação de leveza e movimento, como se a planta estivesse flutuando. Esse efeito funciona tanto em varandas abertas quanto em interiores contemporâneos, e é por isso que a técnica saiu das tradicionais casas de chá japonesas e chegou aos apartamentos no Brasil sem perder sua essência.

Na minha floricultura, faço kokedamas sob encomenda para decoração de casamentos, eventos corporativos e residências. A demanda cresceu muito nos últimos dois anos, principalmente entre quem mora em apartamento e quer cultivar plantas sem prejudicar a estética do ambiente.

Para quem nunca experimentou, sugiro começar com uma samambaia e uma mistura básica de argila e substrato. É normal a primeira tentativa não sair como esperado. Persista na segunda. Na terceira, o resultado será bom. Quando isso acontecer, você vai entender todo o encanto.

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